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Se fosse um investidor do mercado financeiro, o senhor Henrique de Almeida Dourado estaria fazendo bonito em meio à crise. Que sua estratégia tem funcionado para si próprio, isso não se há de discutir; resta, contudo, saber se para o Flamengo vale a aposta alta num jogador dono de um único recurso.

Saudações, Rubro-Negros!

O jogo contra o Vasco terminou faz pouco mais de 30 minutos. Eles jogaram mais do que vinham jogando ultimamente, e nós, menos. Mas reconheço que melhoramos muito mais pela atitude, a disposição e a entrega que o time começou a demonstrar de alguns jogos para cá do que propriamente por um crescimento da qualidade do seu futebol. O 1 a 1 e a partida meia-boca, em especial no segundo tempo, resumem bem o que foi o clássico. Aliás, nada muito diferente dos últimos vários antes desse.

O que mais me chamou a atenção no jogo, entretanto, foi a atuação do senhor Henrique de Almeida Dourado. E já agora quero lhe parabenizar por atingir uma marca inusitada: a de celebração de gol anulado mais longa já vista em todos os tempos.

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A competência que o senhor Ceifador tem para comemorar gols não validados e executar tiros diretos da marca fatal é de fato impressionante. Ele é preciso, perfeito, um verdadeiro mestre em cobrar pênalti. Parece-me que até hoje, atuando como profissional, só perdeu um; mesmo assim, foi preciso bater duas vezes, já que o árbitro lhe ordenou que repetisse a cobrança, pois vira alguma irregularidade na primeira. Apenas na seguinte foi que falhou. Defendia ainda o Palmeiras; desde então, “ceifou” em todas as demais. Tampouco alguém há de contestar-lhe o comprometimento para com os clubes que defendeu, seus companheiros, as torcidas, e com a própria carreira. É notória sua busca incansável por fazer sempre o melhor que pode. Mas isso é o que deve fazer qualquer profissional que se preze, pois não? Sendo assim, qualidade digna mesmo de destaque, só nos pênaltis.

Seguindo uma dica do amigo Teo de Almeida Benjamin, na partida de hoje prestei especial atenção ao posicionamento do atleta. Olha, já vi passarem pelo Rubro-Negro preciosidades como Jael, Negreiros, Josiel, Dimba, Val de Almeida Baiano, Dill, Damião, Denis de Almeida Marques e outros tantas pérolas, e ainda assim me deixou bastante intrigado constatar que o rapaz de fato tem como único recurso nesse quesito se colocar atrás dos marcadores, obrigando os companheiros a ter a precisão de um Gerson, um Pirlo, Junior, Iniesta ou um Djalminha na hora de servi-lo, pois é pouco provável que a jogada termine em gol, se para isso for necessário que o senhor Henrique tenha mais trabalho do que o de empurrar a bola para dentro da baliza adversária. Não é aconselhável contar com ele para qualquer coisa que exija que toque na bola mais de uma vez.

O tempo, porém, há de se encarregar de fazer justiça ao senhor Henrique Ceifador, o qual deverá passar para a história do futebol como tendo sido o homem responsável por transformar pênaltis em commodity. Os valores envolvidos na sua contratação junto ao Fluminense e o salário de mais de meio milhão de reais por mês demonstram que ser especialista em fazer gols de pênalti é um investimento com altíssimo retorno.

Acho inteligentíssima a estratégia que ele adotou para ganhar alguma vantagem sobre a concorrência. E quando olhamos para a concorrência em questão, aí mesmo é que devemos reconhecer o senso de oportunidade do hoje atacante rubro-negro. Atuando no futebol de um país que vê seus melhores jogadores, seus jogadores bons e vários dos mais ou menos saindo cada vez em maior número e mais jovens para qualquer lugar do mundo, os que sobram por aqui em geral se diferem pouco uns dos outros. E essa é uma realidade ainda mais gritante quando falamos de centroavantes. Percebendo então que disputava espaço com outros centroavantes de qualidade muito similar – e baixa –, ele entendeu que precisava se tornar excelente em algum aspecto específico de sua função, cujo aprimoramento e o aperfeiçoamento dependem muito menos da competência e da capacidade técnica, assim como da inspiração. Ser um exímio cobrador de penais não é propriamente um dom, algo que já se nasce sabendo fazer; é, pois sim, consequência de muito treino, esforço, repetição e estudo. Não precisa ser craque para saber cobrar bem pênaltis; não precisa nem ser grande jogador.

Se fosse um investidor do mercado financeiro, o senhor Henrique de Almeida Dourado estaria fazendo bonito em meio à crise. Que sua estratégia tem funcionado para si próprio, isso não se há de discutir; resta, contudo, saber se para o Flamengo vale a aposta alta num jogador dono de um único recurso, cuja qualidade também não se questiona, mas que possui outras tantas limitações sérias e evidentes. De minha parte, acho que nossas chances de sucesso são poucas, só que agora ele já está lá, o trato já foi selado, portanto é preciso ao menos reduzir as perdas, ou quem sabe até empatar o negócio.

Está claro que não é o senhor Dourado a melhor opção para substituir o injustiçado Paolo Guerrero, nem poderia sê-lo. Entendo que a escassez de alternativas para a posição é grande, e que tal realidade impõe outra, esta por sua vez primária no chamado mercado: a lei da oferta e da procura. Porém não temos escolha; será preciso gastar para trazer de fora do Brasil um centroavante que seja pelo menos tão bom quanto o peruano. Até porque o estilo de jogo que o time parece tentar desenvolver não casa nem um pouco com o que o atual titular pode entregar. E depender tanto assim da marcação de um pênalti para que se justifique sua presença dentro do campo não me parece, à luz das análises de risco e potencial de ganho, a decisão mais inteligente a se tomar.


 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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Fabiano Torres, o Tatu, é nascido e criado em Paracambi, onde deu os primeiros passos rumo ao rubronegrismo que o acompanha desde então. É professor de idiomas há mais de 25 anos e já esteve à frente de vários projetos de futebol na Internet, TV e rádio, como a série de documentários Energia das Torcidas, de 2010, o Canal dos Fominhas e o programa Torcedor Esporte Clube, na Rádio UOL. Também escreve no blog Happy Hour da Depressão.


 

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