Um desempenho que traz mais dúvidas que respostas. A equipe encontra-se no meio de sua provação de Agosto, com limites claramente expostos. Mudanças são necessárias para estancar a sangria causada pelas derrotas seguidas. Não há mais espaços para errar, ou para não haver meritocracia. É o que pode ser dito do jogo válido pela 18° Rodada do Campeonato Brasileiro 2018, no Maracanã.

De início, mudanças consideráveis no time titular de Maurício Barbieri: saem Marlos Moreno, os suspensos Cuéllar e Renê, Uribe (lesionado) e Jean Lucas; entram Vitinho, o estreante da tarde Piris, Miguel Trauco, Henrique Dourado e Lucas Paquetá. Mano Menezes, por outro lado, mantém apenas Henrique e Léo do time titular do jogo anterior.

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Mano é um treinador já experiente, destacado por times reativos, focados em anular o jogo do adversário e brigar por cada metro quadrado de campo, além do controle sobre o elenco, formatando times de acordo à sua proposta, mesmo que em detrimento de medalhões ou jogadores em destaque. Não seria no Maracanã, com o time reserva, que contrariaria o roteiro de sua carreira.

Com isso em mente e buscando espaços para propor seu estilo, Barbieri busca também alternativas para encaixar Vitinho na equipe. Mantém a esquerda como “lado forte”, com constantes flutuações de Everton Ribeiro da direita para o centro e Trauco, lateral de maior refino técnico, apoiando bastante, além de apostar em ampliar o campo de ataque, alternando sempre um jogador em cima da linha lateral puxando a marcação do lateral-direito ao descer para o meio-campo enquanto Vitinho fica em cima de Manoel para aproveitar os espaços cedidos por Ezequiel e manter Henrique Dourado também em duelo com Léo.

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Por contraponto de tal intenção, esvazia-se a intermediária e faz com que a saída de bola tenha uma quantidade menor de jogadores para sustentá-la, já que há alguns espetados nas beiradas e outros oferecendo linhas de passe por dentro para empurrar a defesa cruzeirense para trás. Dessa maneira, mantem-se a base da jogada em 2-3 onde Diego, Paquetá e Everton Ribeiro alternam em ser o epicentro de sua distribuição. Piris, ainda que em boa estreia, cobrindo muito bem os espaços pós-perda e compensando os avanços de Trauco, esbanja em seus gestos corporais a ansiedade de sua estreia. Logo, erros técnicos até simples são cometidos, prejudicando seu desempenho na saída de jogo.

Assim, buscava-se usar Trauco em seu melhor. Renê é esforçado e melhor marcador, além de tomar ações inteligentes ao infiltrar-se pelo meio-campo, mas Trauco agrega mais refino e versatilidade na saída. Tabelas, infiltrações, passes longos. E tê-lo em campo diminui a necessidade de os meias recuarem em demasia para preencher a saída escalonada, que nada mais é que estabelecer alturas no campo onde os jogadores se postarão progressivamente até a intermediária ofensiva, como que em degraus, fornecendo alternativas para construções variadas de ataque ao atrair a marcação para seu próprio campo. Outra vantagem de tornar o lado esquerdo mais povoado é justamente impedir que se explore rapidamente as fraquezas de recomposição já tão conhecidas do peruano, já que há naturalmente mais jogadores para pressionar no pós-perda, bem evidenciado no lance que origina o único gol da partida.

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Entretanto, há de se entender os destaques individuais, positivos e negativos, para compreender os erros e acertos da partida. O coletivo, independente do quão bem seja feito, é afetado pelo desempenho individual dos seus grandes jogadores.

Diego, ainda que sendo poupado e tendo certas regalias enquanto o time se defende em bloco médio/baixo, vem apresentando queda de desempenho técnico. Continua sendo o armador de pausa que vez ou outra acerta boas inversões, mas apresenta por partida dificuldades em imprimir intensidade quando necessário ou aplicar passes mais agudos e conduções que quebrem as linhas de marcação. Cada vez mais seu custo-benefício no time titular é posto em xeque, principalmente por ter-se à direita a versão mais criativa e decisiva de um meia-armador em Everton Ribeiro.

Outro que atiça a alteração do esquema utilizado é, sem sombra de dúvidas, Lucas Paquetá. É notório o acúmulo de obrigações defensivas sobre os ombros do jovem jogador para que se consiga equilíbrio em um meio-campo com três arcos ou mais. E ainda assim, se multiplica em campo e consegue ser essencial em todas as fases do jogo. É a fortaleza de um meio-campo que sofre no combate físico. Responsável direto por evitar que o Cruzeiro no 2° tempo tomasse completamente as rédeas da partida e tivesse mais volume de jogo. Vitinho, Diego, Everton Ribeiro e Piris tiveram, somando todos os seus duelos e dribles bem-sucedidos, 26 e 5. Paquetá individualmente conquistou 22 de 33 duelos, 100% de aproveitamento nos dribles (8), além de ser o maior ladrão de bolas da partida ao lado de Vitinho com êxito em 4 de 5 desarmes cada e ser o jogador que mais chutou em campo do Flamengo (3) e quem mais deu passes certos (43), com o grande destaque de não ter perdido posse alguma na segunda etapa. Comete equívocos e poderia soltar mais rápido a bola, mas mantém-se peça fundamental da equipe para a temporada, denotando até certa dependência à sua presença, versatilidade (só nessa partida foi volante, meia e centroavante) e constante movimentação.

Dessa maneira, jogo transcorre com muita posse de bola rubro-negra, mas sem efetividade em finalizações. Cruzeiro assusta ao abusar de investidas por passes longos buscando a profundidade e jogo aéreo fornecido por Rainiel. Nos momentos que pode pressionar e se impor sobre o Flamengo, pressiona De Fonseca, Rainiel e Mancuello sobre a última linha de defensores, buscando brechas para infiltração enquanto tenta jogo exterior com avanços dos laterais, que encontram rotineiramente em Rodinei e seus graves problemas de posicionamento (sempre esquecendo de encurtar a distância entre si e Leo Duarte, permitindo graves buracos na última linha) e recomposições tardias, sendo responsável direto por várias boas trocas de passes cruzeirenses e a espetacular defesa de Diego Alves que assegura os 3 pontos. Vale ressaltar a ótima partida do jovem zagueiro, corrigindo lambanças de Rodinei e Rever (de destaque, 5 cortes e 4 interceptações).

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E por fim, a dupla de ataque Vitinho e Dourado. O primeiro mais solto e próximo do papel desempenhado em solo russo, próximo ao atacante e associativo aos meias. Tem um estilo de condução através de força e forte finalização com ambas as pernas. Ainda está sem ritmo de jogo, mas apresenta aos poucos cada vez mais recursos. E Dourado é mais uma vez decisivo no campeonato, mesmo não sendo o artilheiro dos sonhos nem o centroavante ideal pra essa equipe. Muitas vezes falta ambição e agressividade para suas movimentações dentro da área ou técnica para dominar a bola e servir seus companheiros. Mas é um jogador muito empenhado e de grande poder de finalização. Merece mais oportunidades, ainda que esteja aquém tecnicamente da linha de meias. Esse time precisa de um atacante que faça gols para desafogar a pressão sobre seus meias. E ter um goleador ou “artilheiro dos jogos decisivos” é fundamental para uma equipe vencedora.

Jogo morno, que expõe as fraquezas do time titular, mesmo que com um bom plano traçado contra o adversário. Falta mais dos jogadores, e não é nada próximo de raça ou vontade. Mas sim conseguir exercer suas funções e obrigações com a qualidade que se espera. Só desastre virá se continuar tendo jogadores se sacrificando por outros.
 


Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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