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Dentro das quatro linhas era o time mais técnico e conquistou a vitória na bola e na organização dentro do seu estilo de jogo.

Jogos onde apenas a vitória interessa. Jogos que marcam uma equipe. Que trazem confiança, dão moral para o resto da temporada. O tal “Jogo de 6 pontos”. O Corinthians não está em seu auge mas nunca deve ser subestimado, é um dos clubes mais vitoriosos da década, que conseguiu, mesmo em meio ao imediatismo por resultados do futebol brasileiro, consolidar um padrão de jogo, um estilo próprio (defensivo, é verdade) que lhe rendeu conquistas. Dessa maneira, uma vitória era fundamental para o Flamengo demonstrar o que quer nesse Brasileirão.

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O Corinthians campeão brasileiro de 2017 foi conhecido por sua postura reativa, entregando a bola ao adversário e sendo letal a qualquer vacilo que o mesmo cometesse. Poucas oportunidades, mas implacável nas que tinha. Efetividade acima de tudo. Mesmo sem Carille, agora com Loss, ainda apresenta algumas dessas características.

Em seu DNA, o Mengo é um time ofensivo, agressivo, que propõe o jogo movido pelo pulsar de sua torcida. Nos últimos anos, mesmo com as constantes mudanças de técnico e filosofia de trabalho, tal vertente não foi alterada: joga em cima do adversário. Faltava frieza para decidir jogos, jogando bem ou mal. A bola pune incertezas.

Nesta 9ª rodada, o Flamengo entrou em campo com a mesma formação titular que encarou o Bahia. Nesses momentos iniciais, o que mais surpreendeu foi a maturidade. Soube gastar os primeiros minutos tendo a posse a seu favor. Trocou passes seguros na intermediária atenuando a ansiedade que jogos desse porte trazem consigo e, aos poucos, envolveu o adversário em seu jogo. Sábia postura.

Nesse retorno ao 4-1-4-1, implantado desde o início do ano por Carpegiani e agora retomado por Barbieri, há certa mudança nas funções que cada jogador comporta. Antes, o Flamengo era liderado por seus três meias de ofício (Paquetá, Éverton Ribeiro e Diego) com Éverton Cardoso servindo como carregador de piano, oferecendo amplitude pela esquerda aliado à forte presença na recomposição defensiva. Faltava a equipe opções para infiltrações à área, já que Dourado tem baixa mobilidade, e o trio de meias não possui um velocista, o que fazia o time ter muitas opções de passadores para poucos receptores. Com isso, limitava o número de triangulações, o que forçava rotineiramente a equipe a executar passes mais longos buscando as pontas como alternativa para alçar bolas na área.

Agora, o papel de definir qual é o “lado forte” ou “lado fraco” da formação está à cargo de Lucas Paquetá e Diego. Ambos possuem liberdade para flutuar por toda extensão do campo ofensivo, e dobrar numericamente o lado de criação onde a bola esteja. Ambos são meias internos desse 4-1-4-1, controladores do tempo de ataque. Diego controla o ritmo conduzindo a bola entre os espaços deixados pela equipe paulista. Atrai a marcação, logo, abre espaço para infiltração de outros jogadores. Muitas vezes criticado pelo excesso de toques na bola, muitas vezes apelidado de “enceradeira” pela torcida nas redes sociais, Diego teve contra o Corinthians partida redentora, ao administrar bem o momento certo de passar e o de continuar conduzindo. Armou pelo meio, caiu pelas beiradas, pisou na área, serviu e chutou a gol. Atuação completa do camisa 10.

Já Paquetá, mostra cada vez mais um amadurecimento incomum para um jogador tão jovem. Há poucos jogos nessa posição mais recuada de meia-volante responsável pela saída de bola – responsabilidade duplicada pela ausência de Cuéllar e ineficiência de Jonas nessa função -, apresenta-se mais seguro e com uma leitura de jogo mais ponderada. Ao ousar demais, com passes arriscados a todo momento, acelerava os jogos em demasia e colocava em risco sua equipe a contra-ataques com vantagem numérica do adversário. Nesta rodada, apresentou mais polidez ao cadenciar ou acelerar o jogo, com ótimos passes e lançamentos entrelinhas, com a usual criatividade que lhe é característica, além de ser um leão na marcação, com excelente participação na recuperação imediata da bola após perda da posse e na recomposição defensiva.

Na imagem, desenho em amarelo das duas linhas de 4 de marcação do Corinthians próximas; em vermelho, a proximidade e ocupação de espaços de Paquetá e Diego para dobrar a quantidade de jogadores no lado que está construindo a jogada; em branco, passe vertical de Renê a Paquetá que vem a sofrer a falta de Balbuena, em umas das maiores chances de ataque nos primeiros 10 minutos de partida.

Os primeiros 15 minutos da partida decorrem com Flamengo em cima, pressionando a saída de bola da equipe paulista, que se posta em campo de forma defensiva em um 4-4-2, permitindo que Rodriguinho e Jadson fiquem mais à frente com certa liberdade de obrigações defensivas e posicionados como alternativas de referências à contra-ataques puxados por Mateus Vital e Pedrinho. Flamengo alcança boas vitórias nas triangulações e chegadas de linha de fundo, tanto por Vinicius Jr quanto por Rodinei, mas peca no último passe ou última tomada de decisão. Logo, cruzamentos na área e bolas paradas são as armas mais fortes dos donos da casa nesse primeiro ¼ de partida, com destaque à cabeçada de costas para o gol de Paquetá que passa rasante à trave esquerda de Walter aos 8’ e aos 19’ com Léo Duarte, ambas em cobranças de falta.

O time não consegue ser ainda mais dominante no 1º tempo devido principalmente à Rodinei e Dourado. O primeiro, possui grande facilidade em subir pela linha lateral e chegar à linha de fundo, auxiliado por excelentes passes de Ribeiro, mas continua na saga de péssimo aproveitamento em cruzamentos. De 8 tentados, nenhum certo. Rendimento muito abaixo da média. Quanto a Dourado, continua sua eterna luta em evitar que a bola dê de encontro com suas canelas. O Ceifador é voluntarioso no pressing, com 2 desarmes na conta, mas de baixa qualidade técnica e mobilidade. Não pode ser alvo de bolas aéreas já que tem dificuldade de fazer o pivô, ou mesmo dificuldade de ser referências para lançamentos ou passes no “ponto-futuro”, já que mesmo que faça o facão corretamente, sua baixa velocidade o faz perder na corrida com os zagueiros. Logo, inibe o estilo da equipe, seja ao acelerar ou cadenciar o jogo. O jogador perdeu preciosa oportunidade de abrir o placar aos 22’, em assistência de Éverton Ribeiro.

Números da partida dos organizadores do meio-campo do Flamengo: destaque ao aproveitamento nas bolas longas, com 11 certos e os 6 passes decisivos executados pela dupla na partida. (Fonte: SofaScore)

Vale ressaltar que o Corinthians não estava entregue em campo. Com postura defensiva firme, muita entrega de Vital e Pedrinho em auxiliar a marcação nas laterais, conseguiram impedir que o volume de jogo do Flamengo gerasse gols. Destaque aos 7 chutes bloqueados pela equipe alvinegra e 5 desarmes de Vital ao longo dos 90 minutos. Enquanto o Flamengo busca criar suas jogadas através do talento da sua linha de 4 meias, o Corinthians foca em um contra-ataque ordenado, onde jogadores abram espaços nas linhas de marcação com os movimentos das peças de ataque e não por suas individualidades. Bom modelo de jogo proposto, mas baixa atuação técnica da equipe como um todo. Tanto que teve nítida melhora após substituição de Jadson, lesionado, para entrada de Roger, centroavante de ofício.

Os contra-ataques dos visitantes não conseguiram ser mais letais devido a mais uma partida segura da dupla Léo Duarte e Rhodolfo, protegida por Jonas. Ao fazer o pressing sobre os zagueiros e volantes, o Flamengo precisa que a linha de 4 meias se desloque além da intermediária, postando-se no lado do campo adversário com 4, 5 jogadores. Com isso, visando não deixar buracos entrelinhas, a última linha de marcação precisa subir proporcionalmente para que haja o mínimo de compactação. Essa distância da última linha à sua própria meta é facilmente castigada, já que times que joguem com forte transição ofensiva com jogadores velocistas, podem jogar sempre às costas dos laterais e zagueiros. Mas Rhodolfo e Léo Duarte repeliram bem o ataque corintiano e evitaram que grandes chances fossem finalizadas. E testados com a presença de um Falso 9, enquanto Jadson estava em campo (revezando a função com Rodriguinho), que deixa o ataque mais móvel, até a presença de um centroavante de ofício (Roger), que funciona como referência mais fixa entre os zagueiros.

A primeira etapa termina com Flamengo cedendo mais espaços pelo desgaste de jogar em cima do adversário e o Corinthians aproveitando para construir melhor seus contra-ataques pelo centro da defesa rubro-negra. Duas chances desperdiçadas por Vinicius Jr e Dourado se destacam, enquanto pelo lado corintiano há boa oportunidade em chute de longa distância de Gabriel surpreendentemente livre, sem marcação dos meias, que tiveram dificuldade de acompanhar a rápida jogada de contra-ataque e em finalização de Roger sobre o gol após cruzamento rasteiro pela esquerda.

O segundo tempo inicia sem alterações de ambas as equipes. Tem um Corinthians que tenta permanecer mais com a posse, ainda que esbarrando na má partida técnica de seus volantes que dão pouca criatividade à saída do time paulista. A dupla Vital-Sidcley continua sendo bem acionada, que exige bastante assistência de Ribeiro pelo setor para não sobrecarregar Rodinei. O camisa 7 não possui a liberdade para flutuar pelo ataque como os outros dois meias possuem. Fica mais preso à direita, como opção de criação pelo setor, geralmente com apenas o lateral para dialogar. Parece sempre estar em uma partida de recuperação, com 1º tempo mediano e 2º tempo mais presente e com mais espaço. Tal “isolamento” precisa ser solucionado, já que é um desperdício de talento tê-lo tão preso na direita. O ideal seria que o “lado forte” da equipe fosse o direito e que permitisse que Vinicius Jr se postasse na esquerda como o elemento finalizador, infiltrando na área junto com o centroavante.

Conforme o desgaste das duas equipes se acentuam, maior espaço para condução da bola se apresentam, que torna o jogo propício ao estilo de Diego. Excelente arrancada entre três marcadores, aos 14’, que termina em bom cruzamento de Renê para cabeçada do camisa 10, que passa rente à trave. Tem outra oportunidade, aos 19’, em cobrança de falta que bate por cima do gol.

Aproximação de Paquetá e Diego ao lado direito, permitindo que haja inversões à esquerda que encontrariam Vinicius Jr em um 1 a 1 com marcadores pode ser a chave para aumentar o poderio ofensivo da equipe, assim como o rendimento de Éverton Ribeiro.

Com Corinthians retendo mais a bola e propondo um jogo mais equilibrado, é fornecido uma opção ofensiva que Flamengo pouco teve ao longo do jogo: o contra-ataque. Após mais um erro de fundamento simples de Dourado, ao desperdiçar lance crucial que deveria ser mais aberto a Vinicius Jr, a paciência de Barbieri se esgota e o técnico promove a entrada do esquecido Felipe Vizeu em campo, aos 22’.

Atacante jovem (visivelmente acima do peso) que teve poucas oportunidades ao longo dessa temporada, seria o herói mais improvável da tarde. O Flamengo vive dessas magias. Com maior capacidade no 1-2 e de dar velocidade para contra-ataques, aliado ao entrosamento com Lucas Paquetá que vem desde a base, adquire com sua entrada um aumento na rotação do ataque.

O jogo torna-se mais rápido, com tentativas de chutes de fora da área de Paquetá e Jonas, ambos bloqueados pela atenta defesa corintiana e em cabeçada de escanteio por Rhodolfo (em ótima partida). Diego continua se destacando protegendo bem a bola e saindo da marcação de vários jogadores, buscando a amplitude de Vinicius Jr e Rodinei, que abandona a lateral em muitos momentos e que exige que Ribeiro cubra o espaço abandonado.

E em mais uma jogada individual do camisa 10, surge o gol da vitória. Rhodolfo se antecipa e intercepta passe de Mantuan, aciona imediatamente Diego pela intermediária à esquerda. E ali, naquele espaço de campo, com a defesa saindo, o meia é mortal. Carrega a bola entre os volantes corintianos, que preocupados com o passe à frente da defesa, abrem espaço para condução. Carrega até a entrada da grande área, nota infiltração de Paquetá pela direita e o aciona com qualidade. O jovem meia-atacante-volante executa excelente chute de efeito no ângulo. Defendido o chute por Walter, o goleiro não consegue impedir que Vizeu finalize. Enfim, placar inaugurado no Maracanã após grande insistência dos donos da casa.

Após o gol, Flamengo toma postura mais defensiva, deixando que o Corinthians tenha a posse da bola, mas sem deixar de agredir a saída de bola com a linha de meias. Decisão acertada, já que um dos grandes pontos fracos da equipe paulista desde 2017 é a dificuldade de promover uma saída sustentada ou qualificada ao estar em situação inversa a que geralmente se porta em campo. Entrada de Kazim pouco altera esse panorama, ao apenas adicionar mais um centroavante de área ao sistema. Jean Lucas entra para saída de um extenuado Éverton Ribeiro, para fechar o meio e evitar construção de jogadas corintianas pelo setor. Intervenções de Diego Alves e de Diego cada vez mais enérgico, gritando e orientando seus companheiros, finaliza a partida e sacramenta a vitória. Vale citar a maturidade do Flamengo em gastar a bola nos 5 minutos de acréscimo, tirando a chance de correria que os visitantes poderiam propor, se comportando como um líder do Campeonato Brasileiro deve.

Enfim, a terceira vitória seguida. Deve-se exaltar a excelente fase de Diego Alves, que em 11 jogos sofreu apenas um gol. Vitória de time grande contra um time vitorioso, mas que manteve a postura defensiva e retrancada de sempre, e veio a campo considerando o empate um ótimo resultado. O Flamengo só tinha a vitória em mente e mostrou isso em campo. Dentro das quatro linhas era o time mais técnico e conquistou a vitória na bola e na organização dentro do seu estilo de jogo. Segue como líder, segue o espírito de “Deixou chegar, fudeu”. Isso aqui é Flamengo.
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04


 

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