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Há um tempo Flamengo entra em campo e não sabemos se vai ganhar ou perder, mas temos uma certeza: vai jogar mal

 
Os jogos são mornos, chatos. Nada se cria, nada se transforma.

Contra o Ceará, um sopro de esperança. Independente da partida ruim de um adversário que errou tática e tecnicamente, o fato é que o time de Barbieri dominou, convenceu e venceu com um bom placar. Mas ainda é muito pouco. O Flamengo de 2018 mostra pouquíssimo futebol.

Parece tudo errado, mas o Flamengo não é exatamente um time sem ideias. É curioso ver como alguns conceitos bastante modernos do futebol estão presentes nesse time, mas muito mal aplicados. Vamos por partes.

O trio de meio-campo

Não é exatamente uma ideia nova, mas veio como um contraponto a uma das principais estruturas dos anos 90: o modelo Makelele-Zidane. Um destruidor ao lado de um criador. Essa era a regra. Quanto mais importância o criador ganhava, mais relevante se tornava o destruidor.

Há mais ou menos quinze anos, times que passaram a incluir um cadenciador no meio-campo conseguiam dominar a posse de bola e, assim, controlar o jogo. Desde então, trios de meio-campo são a norma no mundo todo.

O Flamengo de hoje copia a versão mais moderna dessa ideia, montado no 4-1-4-1. Dois jogadores organizam o time por dentro, com um terceiro fazendo a proteção atrás. Dois outros jogadores ficam abertos, cobrindo toda a faixa lateral. Foi assim que Tite ganhou o Campeonato Brasileiro pelo Corinthians e é como joga na Seleção hoje.

Há alguns problemas na aplicação rubro-negra dessa ideia. O objetivo desse trio deveria ser controlar o jogo atraindo o meio-campo adversário para posições desconfortáveis. Forçar escolhas difíceis até que um dos nossos meias consiga se projetar por trás dos volantes, vencendo essa linha. Assim, explorar a tal entrelinha, que é o espaço entre as linhas de defesa e de meio-campo do adversário. É ali que se ganha o jogo.

No Flamengo, vemos o oposto disso. Não há troca de posições, não há tabela nem passes rápidos. Ninguém se projeta para receber na entrelinha. Muitas ligações diretas, muitos chutões e inversões de jogo. Quando encontra qualquer dificuldade para avançar, o time tenta uma bola longa. Os meias ficam afastados, saindo para os lados o tempo todo para buscar espaço.

Contra o Ceará, uma pequena mudança no segundo tempo. Saímos do 4-1-4-1 para o 4-4-1-1, com Diego mais adiantado e Cuellar alinhado a Paquetá. A mudança foi boa e o time rendeu, mas não devemos nos enganar: um fator que ajudou foi a formação do Ceará no 5-4-1 marcando com encaixes individuais. Isso permitiu que Diego tivesse muito espaço, mas quase nenhum time brasileiro joga nesse esquema.

O atacante isolado

Incluir mais um https://www.mundorubronegro.com/wp-admin/admin.php?page=FB-commentsjogador por dentro no meio-campo requer, obviamente, deslocar uma peça de outro lugar. O escolhido, como todo mundo sabe, foi um dos atacantes. Os anos 2000 decretaram o fim das duplas de ataque.

Em um primeiro momento poderíamos imaginar que ter apenas um atacante aumentaria a concentração de gols desse jogador. O que se viu foi exatamente o oposto. O centroavante teve que passar a participar mais do jogo. Passou a ser exigido em diferentes situações, abrindo espaço para outros chegarem às redes. Assim, surgiu a função do falso-9 e aumentou o protagonismo para atacantes construtores, como Firmino e até mesmo Guerrero.

Sem o peruano, o Flamengo insiste no velho perfil do homem-gol. Um cara para empurrar a bola para dentro. Dourado está longe (muito, muito, muito longe) de ser um primor técnico, mas dá certa pena dele nesse esquema.

Esse atacante deveria servir como ponto de referência para a aproximação e ultrapassagem dos companheiros. No Flamengo, o espaço entre o meio-campo e o centroavante é tão grande que o atacante joga, de fato, isolado. Vive se debatendo entre os zagueiros, que sempre são maioria. Quando a jogada finalmente chega do jeito que deve ser, ele demonstra total incapacidade para cumprir essa função de ligação.

Os pontas de pé trocado

A ideia de utilizar apenas um atacante de referência forçou os pontas a entrarem mais na área. Antes, os extremos eram responsáveis por buscar a linha de fundo. Agora precisavam ser armas letais, goleadores. Precisavam ocupar as zonas próximas ao gol adversário.

Com isso, surgiram os pontas de pé trocado. Destros jogando na esquerda, canhotos jogando na direita. Essa ideia vai muito além de aproveitar melhor a batida de fora de área. Os pontas com o pé invertido aproveitam uma posição de corpo mais confortável ao invadir a área em diagonal e finalizar a jogada, seja a partir de um drible, uma tabela ou um cruzamento do outro lado.

Assim, os pontas precisam fazer companhia ao centroavante. É uma relação de sinergia: precisam abrir espaços para o atacante e aproveitar os espaços abertos por ele. Os novos pontas precisam pisar na área o tempo todo.

Enquanto a jogada é construída, os pontas deveriam ser responsáveis por oferecer amplitude, que é a distância entre uma lateral e outra, esgarçando a defesa adversária. No momento de decidir, aproveitam os espaços entrando em diagonal.

Mas no Flamengo, os dois costumam ficar abertos o tempo todo. Quase nunca se aventuram por dentro. Não criam tensões na defesa com entradas em diagonal, o famoso facão. Jogam com o pé trocado, mas abraçados às linhas laterais. Com isso, oferecem amplitude, mas não perigo.

Contra o Ceará, Vinicius Junior fez duas corridas em facão e marcou seus dois gols. Não é coincidência. O mesmo jogo deixou claro que esse problema é ainda mais agravado quando Paquetá joga pela direita, muito longe de sua posição natural.

Além de não entrarem em diagonal, os pontas rubro-negros jogam muito recuados. No 4-1-4-1 de Carpegianni e Barbieri, esses pontas fazem parte da linha dos meio-campo, não na linha de ataque. Com isso, oferecem amplitude no meio, mas não na última linha do adversário. Não forçam a abertura de espaços na defesa.

Assim, um oponente que defende com duas linhas de quatro consegue neutralizar o Flamengo facilmente. Marca individualmente no meio-campo e fica com nada menos que quatro jogadores ao redor do nosso centroavante.

Se os pontas ocupassem posições mais adiantadas, forçariam os laterais adversários a marcá-los. Assim, abririam espaços para que os laterais rubro-negros pudessem subir um pouco, mantendo a amplitude no meio-campo.

Isso complementaria o ciclo dessa mudança tática. Com os pontas ao redor do mundo entrando em diagonal, os laterais ganharam espaço para fazer ultrapassagens buscando a linha de fundo. Foram os maiores beneficiados pelo espaço gerado. Laterais ofensivos já eram tendência no Brasil há sessenta anos, mas na última década ganharam o mundo. Não é a toa que os laterais das melhores equipes do mundo são nascidos aqui.

No Flamengo, os laterais raramente ultrapassam. Assim, não aproveitam o espaço deixado pelos pontas e também não arrastam nenhuma marcação, o que abriria espaço para os pontas. Mais uma relação de sinergia que é desperdiçada.

A divisão em blocos

Parece haver um motivo para a falta de ultrapassagens dos laterais por aqui. Uma tendência mais recente, que ganhou relevância principalmente a partir das ideias de Pep Guardiola, é a divisão do time em blocos, com cada bloco responsável por uma função específica em cada fase do jogo.

No Manchester City de Guardiola, cinco jogadores são responsáveis pela saída de bola. Os outros não passam nem perto dali. Pelo contrário, se adiantam para criar profundidade, que é a distância entre a primeira linha e a última. Assim, espaçam as linhas do adversário.

O primeiro objetivo é levar a jogada até a intermediária de ataque. A partir dali, os blocos se reorganizam. Cinco jogadores carregam a responsabilidade de furar a defesa, com três deles divindo a missão de deixar a linha de zaga constantemente sob pressão com a busca constante das costas dos defensores. Outros três jogadores da equipe, em geral os laterais e um volante, servem como suporte. Jogam atrás da linha da bola e estão sempre preparados como opção de segurança. A ideia é poder reciclar a posse de bola. Se não deu para ir pela direita, a bola volta e circula por esse bloco de suporte até achar outro espaço. Por fim, os dois zagueiros e o goleiro formam um bloco de defesa, cuidando de um eventual contra-ataque.

O Flamengo também se divide em blocos. É por isso que os laterais quase nunca ultrapassam. Afinal, fazem parte de um bloco recuado. O problema é que há bloco de ligação, com os volantes e pontas, que joga embolado, sem demonstrar capacidade de furar as linhas adversárias. Além disso, o bloco de ataque consiste basicamente de um centroavante lutando uma batalha impossível.

O tal suporte, que serve para reciclar a posse, é inexistente. Quando a bola chega em um dos nossos laterais, raramente circula até voltar aos meias. É sempre uma ligação buscando o ponta do mesmo lado. O time é apressado. Quando encontra qualquer dificuldade para avançar, abusa de passes longos. Assim, o jogo não se torna mais estruturado, e sim aleatório.

O Flamengo se divide em blocos com funções específicas, mas não há conexão entre os blocos. E talvez essa seja a parte mais importante. O sopro de esperança é ver Paquetá jogando centralizado, controlando o jogo por dentro do alto de seus 20 anos de idade.

Conclusões

Nada no futebol é por acaso. A necessidade de mais um jogador de meio-campo mudou o perfil dos atacantes, o que ressignificou o papel dos pontas e deu nova função aos laterais. O Flamengo está atualizado, mas parece não entender a relação entre esses conceitos.

Tudo aqui parece aleatório. Há um caminho, mas ainda falta muito para chegarmos lá.
 


Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Staff Imagens / Flamengo

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Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também. Twitter: @teofb

 

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