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Na minha vida de empreendedor, sempre me fascinou entender a relação das empresas e profissionais com o erro. Atuando na área de inovação, logo entendi que qualquer tentativa de fazer algo novo pressupõe uma chance de falha. Quem não está disposto a errar, não inova nunca.

Mas no mundo corporativo, pessoas são desencorajadas o tempo inteiro a cometerem erros. As falhas são comumente punidas e, portanto, todo mundo tem medo de errar. O erro deveria ser percebido como parte natural do processo, mas não é. Temos medo dele. O resultado disso é que o mundo profissional nos ensina a não inovar.

No futebol, o erro ganha proporções colossais, pois o resultado está ali, cru, à vista, pronto para o escrutínio de milhões de espectadores apaixonados com acesso a 32 câmeras em alta definição, replay, zoom e lente de aumento. Errar no futebol não é para humanos.

Nenhum de nós é capaz de imaginar a pressão de jogar uma final pelo Flamengo – ainda mais sendo goleiro (esse sim não tem direito nenhum de errar), principalmente depois de toda essa situação que foi criada, e tendo apenas 21 anos.

O fato é que Thiago errou feio. Não há como colocar isso de maneira diferente.

Alguns acenderam imediatamente as tochas para jogá-lo na fogueira dos hereges traidores do manto, outros pedem “calma com o menino”. Talvez, se aprendêssemos na vida real a compreender e conviver com o erro, saberíamos lidar melhor com essa situação. O goleiro errou em um momento que não podia e, por isso, merece críticas, precisa assumir o erro e aprender com ele, mas não merece linchamento. Admitir, assimilar, criticar e aprender com o erro é muito diferente de apontar o dedo.

“Jogando no Flamengo, a gente não pode tomar um gol desses.” – disse o goleiro antes de sair do campo.

Uma fala importante. Thiago já demonstrou mais personalidade do que a esmagadora maioria daqueles que trabalham no meio do futebol, incapazes de assumir os próprios enganos. No entando, a crítica ao jovem arqueiro necessita de reflexão, compreensão e rigor. Não é sobre o frango de ontem, mas sim sobre a recorrência desse tipo de situação.

Thiago falhou bizonhamente contra Chapecoense, Palmeiras e Cruzeiro. Em outros jogos, cometeu erros menos graves, alguns dos quais não resultaram em gol. Tem imperfeições claras em lances muito simples e ontem já havia soltado uma bola fácil (que segurou logo depois). Esse tipo de coisa é imperdoável no futebol atual, na posição de goleiro, que evoluiu tanto nas últimas décadas com treinamentos específicos. Os guardiões das traves de hoje são capazes de coisas inimagináveis para lendas do passado.

E aí entra um problema mais grave e menos visível. Já escrevi em uma coluna há um mês que “quando um ator é ruim, a culpa é dele, mas quando todos os atores são ruins, a culpa é do diretor”. Um goleiro que falha uma vez é uma coisa, mas vários goleiros que falham seguidamente indicam uma questão maior. Muitos vídeos têm circulado na internet comparando o treinamento dos goleiros do Cruzeiro, com Robertinho, e do Flamengo, com Victor Hugo. A diferença é notável.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Há também quem coloque uma parcela de culpa no gol de ontem em toda a defesa, que “não acreditou no rebote”. Primeiro, é bom dizer que nem Arrascaeta acreditou. Ele não ataca a bola, simplesmente está fazendo uma ultrapassagem e é surpreendido com a pelota aos seus pés. Houve erro da defesa sim, mas no início da jogada, permitindo uma troca simples do Cruzeiro que resultou no chute de Hudson. Quem sai para abafar a finalização é Rever, o que já explica todo o erro defensivo. Vale também lembrar que todo gol em um jogo de futebol tem algum tipo de erro. Não é a toa que o italiano Gianni Brera dizia que “o jogo perfeito terminaria zero a zero”. O processo de reconhecer quais foram os erros é importante para gerar aprendizado, e deveríamos nos sentir muito mais confortáveis nesse momento.

Não consigo entender jornalistas que saem em defesa do goleiro dizendo que “a defesa também errou e colocar a culpa no garoto é injusto”. A principal falha foi, sim, de Thiago. Esconder isso é ter uma dificuldade enorme de conviver com os fatos. Foi o que aconteceu, mas isso não significa crucificar o goleiro, pichar o muro da sua casa ou acabar com a sua carreira. Vamos apenas admitir a realidade? Vamos nos colocar em posição mais confortável com o erro? Se fizéssemos isso com mais naturalidade, talvez quem erra também ficasse mais confortável.

Por fim, gostaria de comentar rapidamente outros três erros envolvendo a partida, menos gritantes que o frango do goleiro, mas muito importantes.

Primeiro, o erro do regulamento, que não faz sentido nenhum. Por que existe uma janela de transferências no meio do ano? Realmente é muito difícil entender. Mas a CBF, uma das instituições que erra muito mais do que acerta, seguirá do alto de seu pedestal encaminhando o futebol brasileiro.

Segundo, o erro quase imperdoável de Rueda ao colocar Gabriel. Eu achei que teria muita, muita paciência com o treinador e que demoraria muito para ele me tirar do sério, mas ver o pior jogador do elenco aquecendo para entrar foi uma facada. O treinador disse ao fim do jogo que “não soubemos controlar o resultado depois do gol”. Com Gabriel em campo, isso não é surpresa alguma. Espero que o Colombiano tenha aprendido a lição.

Por fim, o tão comentado “erro” da arbitragem. Já revi o lance diversas vezes e afirmo que não havia impedimento mas, muito mais importante é perguntar: faz sentido discutir tanto um lance que não tem conclusão clara mesmo depois de inúmeros replays, lentes de aumento e tira-teimas? Se o pé de Paquetá estava um ou dois centímetros à frente é irrelevante. O erro aqui é da imprensa, que precisa de polêmica para vender. A mídia esportiva está morrendo, e o que pode vender mais jornal do que um gol “irregular” do Flamengo em uma final?

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb

Foto destacada: Marcelo Theobald – Agência O Globo


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