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O jornalismo está morrendo. Na verdade, o modelo de negócios do jornalismo está morrendo há algum tempo.Os jornais precisaram se adaptar à avanlanche de conteúdo gratuito da internet, mas não conseguiram se transformar completamente, se apoiando ainda no modelo de publicidade paga, que agora remunera por clique.

E essa foi a grande virada do jornalismo na última década, pois quando o retorno que paga as contas vem através de cliques, pouco importa aquilo que informa, aquilo que provoca, que gera reflexão. Só importa aquilo que atrai clique, e todo o fenômeno de notícias falsas, fake news para os mais chiques, surge daí.

E no que as pessoas clicam? Polêmica e sensacionalismo. 

Pode ser uma reação humana ou uma questão cultural, sei lá. A verdade é que a gente tende a dar atenção para aquilo que é urgente antes de olhar aquilo que é importante. Com a infinita quantidade de informação a um clique de distância de cada um de nós, surge uma batalha cruel pela sua atenção. Em geral, a manchete mais sensacionalista ganha.

“Veja aqui os memes de zoação com o adversário” se tornou a base do jornalismo esportivo atual. Um processo de esvaziamento aconteceu, e foi tudo rápido demais. O futebol sempre despertou paixões e nunca foi assunto mais fácil de se discutir, mas hoje os programas esportivos falam sobre nada, buscam um torcedor idiotizado que só sabe apontar o dedo para o adversário e dar risada. A “mitada no Cartola” é o assunto de cada semana. O tempo da reflexão crítica acabou.

A “polêmica” envolvendo Vuaden no Santos x Flamengo na Vila é só o capítulo mais recente dessa interminável história. Temos ali um lance diferente, que poderia instigar diversas discussões interessantes sobre o protocolo da arbitragem, o papel dos auxiliares, a profissionalização do quadro de árbitros e tudo mais. Em outros esportes, como basquete, rugby e futebol americano, a presença de diversos árbitros é comum e a divergência entre eles é corriqueira. Em vez de iniciar um debate, escolhe-se o sensacionalismo.

Jornalistas se tornaram vampiros ávidos pelo sangue alheio em busca da sobrevivência até a próxima polêmica. A vítima da vez é um colega de profissão, que assiste estupefato enquanto pregam sua carreira na cruz. Não tenho nada contra e nem a favor do Eric Faria, mas me parece evidente que se ele tivesse conversado com o quarto-árbitro, Levir Culpi e todo o banco do Santos teriam visto.

André Dahmer: Malvados

Falando rapidamente sobre o lance, é muito interessante a postura do juiz. Eu tenho muito contra o Vuaden! As arbitragens dele em jogos do Flamengo me dão calafrios. Mas achei muito bacana ver um juiz, apitando com dúvida, ir consultar o auxiliar, mesmo mais distante. É isso mesmo. Vuaden que pediu a opinião do quarto-árbitro, não o contrário. As versões dos dois são idênticas, afirmando que a resposta foi “Eu estou longe, mas achei que tocou só na bola”. Vuaden, um árbitro tido como arrogante, tinha que tomar uma decisão difícil, se viu em dúvida, pediu a opinião de alguém que também não tinha absoluta certeza, ponderou e tomou a decisão correta. Me parece um baita aprendizado para a nossa arbitragem, não o contrário.

Eu estava em Volta Redonda naquele Fla-Flu no ano passado. Fiquei lá na arquibancada esperando, junto com milhares de pessoas, enquanto o time de arbitragem decidia como sair da enrascada em que se meteram. Ali parece ter havido interferência de fora (o que, aliás, também é um ótimo tema para debate), mas o lance de ontem é uma não-polêmica.

Mas nós queremos melhorar o futebol? Não. Nós queremos cliques. São eles que pagam as contas. Por isso, caro leitor, você pode entrar nas páginas do Globo Esporte, da ESPN, do Esporte Interativo (esse até passa dos limites) e até mesmo de movimentos interessantes do “futebol raiz”, como RIP Futebol, que você só vai ver fofoca e intriga.

Me despeço por aqui. Até a próxima polêmica.

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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