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Minha namorada é fã de cinema. É uma dinâmica muito legal: ela ama o cinema, eu amo o futebol. Ela tenta assistir filmes com os olhos do diretor e eu tento assistir os jogos com os olhos do treinador. E volta e meia a gente conversa sobre isso.

Outro dia paramos um filme no meio e eu comentei que estava muito impressionado, pois todos os atores eram muito ruins. Ela me respondeu que “quando um ator é ruim, a culpa é dele, mas quando todos os atores são ruins, a culpa é do diretor”.

Há quem tire a responsabilidade de Zé Ricardo pela derrota de ontem. Aliás, há quem tire todo o peso dele em qualquer revés, dizendo que quem perde os gols são os jogadores. É verdade, e ontem ficou evidente, mas eu gostaria de lembrar que não é a primeira vez e nem será a última. Há um padrão muito consistente e aí, meu amigo, a culpa é do treinador.

Pense nos jogos mais importantes do ano até aqui. Os jogos fora na Libertadores, as partidas contra Corinthians, Grêmio, Palmeiras e Santos pelo Brasileiro e a disputa nas quartas-de-final da Copa do Brasil contra o mesmo Santos. O que eles têm em comum?

Sim, saímos de todos dizendo que poderíamos ter vencido. Jogamos melhor, criamos chances, não matamos o jogo, bla bla bla. Ontem o jogo poderia ter sido 4×0 pra gente sem problemas! Sempre tem um culpado específico, sempre tem o cara que perdeu um gol incrível, o goleiro que frangou, o volante que entregou. Mas sempre tem! Contra os dez primeiros colocados, o Flamengo só tem uma vitória. Às vezes joga bem, às vezes joga mal, mas sempre tem medo de jogos decisivos.

Futebol se joga com a cabeça

Se o futebol é técnico, tático, físico e psicológico, como Zé Ricardo fez questão de frisar na coletiva após o jogo, é importantíssimo deixar claro que o treinador tem responsabilidade sobre todos esses aspectos. Muita gente coloca como se o técnico fosse responsável pela parte tática, os jogadores pela parte técnica e assim por diante. Não é assim. O comandante é responsável pelo equilíbrio em todas as dimensões.

Na parte psicológica, este é o pior Flamengo que já vi. Talvez seja o pior time profissional que já acompanhei.

Quando tudo dá certo, o Flamengo domina o jogo, luta, perde um caminhão de gols e pode ganhar ou perder. Mas se acontece uma coisa errada, um pequeno detalhe fora do plano, o Flamengo se desmonta.

A expulsão ontem atrapalhou muito, sem dúvida alguma, mas estamos cansados de ver times que jogam muito tempo com um a menos e seguram a pressão. Nesse mesmo campeonato, o Bahia jogou com um menos por 60 minutos e endureceu o jogo contra a gente. Ficamos quinze minutos com um a menos e desmoronamos. O Flamengo desmanchou outra vez como manteiga em um dia de verão.

Contra o mesmo Santos pela Copa do Brasil, o erro na saída de bola de Vaz fez o time enlouquecer. Na Libertadores, foi o primeiro gol do San Lorenzo. Até mesmo contra a Chape o time mostrou uma enorme instabilidade depois do frango de Thiago.

Os gols que levamos

O Flamengo toma gols incrivelmente iguais. Levamos cinco gols muito parecidos contra Cruzeiro, Palmeiras, Coritiba e Corinthians. Ontem, mais uma vez.

Gostaria de focar nos gols do William, Roger Guedes, Jô e Bruno Henrique. Contra o Palmeiras, houve falta de Mina em Guerrero nos dois lances, mas sejamos francos: nenhum time pode perder uma disputa lá na frente e ver a bola parar imediatamente dentro do seu gol. E se Mina tivesse se antecipado limpo, sem falta? A gente ia reclamar do quê? Foi o que Balbuena fez, roubando a bola na entrada da área do Corinthians e cruzando o campo em linha reta até a finalização de Jô.

Ontem chegamos a um novo nível: tomar esse tipo de contra-ataque no tiro de meta!!! Vizeu perdeu a disputa pelo alto e havia um buraco no meio da defesa, simplesmente esperando para ser explorado. Não é possível!

Staff Imagens/Flamengo

Márcio Araújo é apenas um símbolo. A culpa não é toda dele, é claro! Mas ele se tornou a maior demonstração de um treinador que toma decisões importantes por pura teimosia. Parece que Zé Ricardo quer apenas provar que está certo! Com isso, vai errando sistematicamente.

Flamengo e final

“Deixou chegar, fudeu!” é o lema da minha geração. E não é a toa. O Flamengo sempre gostou de finais. Nos últimos 22 campeonatos cariocas, chegamos em 11 finais e vencemos todas!

Staff Imagens / Flamengo

Há dez anos, em 2007, o São Paulo era imbatível. Veio ao Maracanã defender uma invencibilidade de 16 jogos contra o modesto Flamengo, que iniciava a sua arrancada histórica rumo à zona da Libertadores. Com 12 pontos de vantagem e com apenas 9 gols sofridos a 10 jogos do fim, ninguém tiraria o título do frio tricolor paulista, mas era uma questão de honra derrubar o Flamengo embalado no Maracanã. O jogo ganhou contornos de final.

E o Flamengo saiu com os três pontos. Quem estava no Maracanã sabe o motivo. Em final a gente não brinca! O Flamengo é assim!

Ou melhor, era assim.

Se Zé Ricardo cair, não será pelos resultados, mas sim pela insistência em erros absurdos. Todo mundo está avisando há muito tempo. Não há mais justificativa para ficar na mesma. O Flamengo que não decide é um Flamengo que não presta.

Imagem destacada: Staff Imagens/Flamengo

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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