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Em algum momento do seriado Narcos, os policiais estão na cola de Pablo Escobar e têm tudo para acreditar que chegou a hora da tão aguardada captura do supertraficante. Chegam na fazenda do Wagner Moura, digo, Escobar, poucos minutos atrasados, e deixam o chefão escapar por entre os dedos. Diante da decepção de um dos policiais, o outro afirma: “Os vilões precisam dar sorte toda vez. Os mocinhos só precisam ter sorte uma vez.”

Eu não sei se vocês são como eu, talvez eu seja doido, mas às vezes eu faço conexões com o futebol em assuntos que parecem não ter nada a ver. A primeira coisa que pensei nessa cena foi: “Zagueiro precisa dar sorte toda vez. O atacante só precisa de uma.”

É aquela velha história… O zagueirão pode cortar tudo durante noventa minutos, ser um muro instransponível na defesa, mas dá uma pixotada no último lance e tem que sair escoltado pela polícia. O mesmo vale para goleiros e para o juiz, aliás. Já o atacante, pode não encostar na bola o jogo todo, mas se coloca no barbante a bola da vitória, sai como herói.

Não é a toa que outro dia vi o diretor do Everton, Steve Walsh, dizendo: “Em todo o tempo que estive no futebol, eu nunca não estive procurando por um atacante”. Essa “única sorte” não acontece por acaso. E muito pouca gente nasceu pra ser herói.

Mas quem nasceu para ser vilão, precisa estar preparado para isso. Precisa saber que a sorte, o tempo, a grama, o vento, o sol, a imprensa e a torcida vão estar contra, e precisa estar totalmente focado para não errar. Hoje vamos falar sobre isso — sobre um time que parece gostar de viver perigosamente. Vamos falar dos nossos vilões — e porque eles são dignos da Sessão da Tarde, não das séries policiais.

Rafael Vaz

Vamos começar pelo começo: Vaz é bom zagueiro.

Agora vamos elaborar um pouco mais: Vaz poderia ser um bom zagueiro. Ele tem os atributos para isso. É forte, alto, razoavelmente rápido, tem firmeza, um passe razoável (pior do que ele imagina, melhor do que a torcida diz) e um controle de bola acima da média para um zagueirão de área. Como Trauco é muito frágil defensivamente e precisa de cobertura o tempo todo, não é nenhum absurdo que Vaz brigue pela vaga.

Mas ele não se ajuda. Quando foi barrado pela primeira vez, disse não entender porque a torcida reclamava quando ele “dava chutão para a lateral, mas também quando ele tentava sair dando chapéu”. Porra Vaz! É sério que essas são as duas únicas opções que você enxerga quando tem a bola?

Ontem o lance do nosso segundo gol se iniciou em uma linda roda de bobinho entre ele, Trauco e Everton. Ali, ele mostrou que conhece esse caminho alternativo.

Nesse jogo, aliás, Vaz acertou 90% das jogadas. Ele sempre acerta 90% das jogadas. Mas duas ou três vezes por jogo ele erra bizonhamente. Quando alguém corrige, nada acontece e Vaz sai elogiado de campo. Quando não dá pra ninguém corrigir, ele sai crucificado.

Alguém, por favor, avisa para o Vaz: O ZAGUEIRO PRECISA DAR SORTE TODA VEZ. O ATACANTE SÓ PRECISA DE UMA.

Nos ajude a te ajudar, meu zagueiro!

Muralha

Vocês não sabem o quanto eu estou ansioso para ver o Flamengo voltando a utilizar aquele benefício de ter um jogador que usa as mãos no futebol.

Verdade seja dita: Thiago foi muito mal na chance que teve. Ele é garoto, pode crescer, evoluir e bla bla bla. Mas demonstrou claramente que não tem condições de ser titular. Eu até defendo que Muralha seja banco com a entrada do Diego Alves. Mas esse era o último jogo antes da estreia do novo goleiro. Será mesmo que era a hora de Muralha voltar?

Imaginem o Flamengo eliminado com frango de Thiago. Seria péssimo.

Agora imaginem o Flamengo eliminado com frango de Muralha. Ia começar a terceira guerra mundial, mano.

Muralha talvez seja o apelido mais irônico do futebol atual. Debaixo das traves ele não é nada demais, mas saindo do gol… Se decide, meu goleiro! Os dois gols de cabeça ontem eram dele no alto. Ainda houve um outro lance no primeiro tempo em que ele saiu caçando borboleta. Quase complicou  mais uma vez.

Tá foda, meu goleiro!

Zé Ricardo

Eu já falei aqui que o futebol pode ser dividido em quatro dimensões: técnica, tática, física e psicológica. Já falei também que o Flamengo vem dependendo exclusivamente de lampejos técnicos de seus melhores jogadores, sem nenhuma novidade tática.

Mas o que é o psicológico desse time?

O cenário que estão pintando por aí, de que o Flamengo escapou por pouco de uma tragédia, não é totalmente verdadeiro. Controlamos o jogo durante a maior parte do tempo, e inclusive jogamos melhor em vários momentos. Mas foi só um zagueiro fazer uma merda que o time despirocou! Virou um Deus nos acuda!

Depois conseguimos amarrar de novo e o Santos não fez nada dos 15 aos 45 minutos do segundo tempo. Aí essa galera desequilibrada tinha que tomar mais um gol só pra botar fogo, né? Só pra parecer que foi no sufoco.

Porra, Zé Ricardo! Comanda esse time aí, meu irmão! Acalma essa rapazeada!

Se bem que é inútil pedir isso ao nosso treinador. Ele, mais do que todos, gosta de viver perigosamente. No mundo dos vilões, Zé Ricardo é uma espécie de Tripa-Seca, do Chapolim, sempre fazendo de tudo pra se sabotar.

A decisão de colocar o Muralha foi arriscadíssima. Como já disse, imagina o clima que ficaria se o Flamengo fosse eliminado com erro do goleiro? Pra que correr esse tipo de risco? Mas, depois disso, o comandante se superou. E eu vou até tomar um chá de camomila antes de escrever essa próxima frase.

Ele colocou o Gabriel.

Sim, meus amigos. Com Vinicius no banco, ele colocou o pior jogador do elenco, machucado há dois meses. Quem não lembrou daquela plaquinha subindo no Mineirão com o Mattheus Bebetinho na beira do campo ou na Argentina com o Matheus Sávio aquecendo?

É melhor eu encerrar esse texto por aqui. Não tenho mais nada pra falar depois da entrada do Gabriel.

O time está nas semi-finais. Enfrenta o Corinthians agora pelo direito de sonhar no Brasileiro. Mesmo assim, a torcida está escaldada.

Quem nasceu para vilão precisa ser amigo da sorte, não ficar bricando ela.

 

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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