Diego na Seleção faz sentido?

Diego na Seleção faz sentido?

Por que Diego e não Luan?

Uma leve polêmica foi levantada na internet com a convocação de Diego. Muitos jornalistas, torcedores adversários e até mesmo rubro-negros questionaram a presença do meia na lista de Tite justamente em um momento ruim tecnicamente. Diego já teve altos e baixos desde que chegou ao Flamengo há pouco mais de um ano e, de fato, não vive uma boa fase agora.

Tite já mostrou que sabe o que faz à frente da Seleção. Seu retrospecto até aqui não abre brechas para críticas infundadas, portanto acredito que a convocação de Diego justamente neste momento tem algo mais importante por trás.

Uma volta no tempo

O futebol passou por uma revolução profunda nos últimos dez anos e o Brasil perdeu completamente essa mudança.

Os cadenciadores, jogadores que lêem o jogo e ditam o ritmo, estavam praticamente descartados no jogo de alto nível. Guardiola, craque com a bola, capaz de uma precisão incrível nos passes, foi a maior prova disso. O capitão decidiu abandonar o Barcelona aos 30 anos para terminar a carreira escondido em equipes como Brescia, Roma, Al Ahli (Doha) e Dorados (México). Na época, justificou a escolha dizendo que “o futebol está se modificando, aumentando muito a carga física do jogo” e que nesse estilo ele não poderia se encaixar.

Mas o próprio Guardiola voltou alguns anos depois como treinador, modificou o estilo de jogo do Barcelona, ganhou tudo, influenciou a maneira de jogar da Espanha que também passou a ganhar tudo pela primeira vez na sua história. Os cadenciadores, como Xavi, Iniesta, Pirlo, Kroos e Modric foram extremamente beneficiados, voltando a assumir o posto de jogadores mais importantes em um futebol cada vez mais baseado na posse de bola e no controle do ritmo.

O Brasil literalmente não viu isso acontecer. Continuamos obcecados com o camisa 10 e, consequentemente, continuamos usando volantes destruidores com o único intuito de neutralizar o craque adversário. Enquanto o mundo se moveu em direção a meio-campistas versáteis, capazes de desempenhar diversas funções, o Brasil continuou aperfeiçoando a estrutura “criador + destruidor” na meiuca. Um bom exemplo é um tal camisa 8 que não sabe dar um passe de cinco metros, mas continua titular pela “disciplina tática e capacidade de recomposição”.

O resultado é fácil de identificar: há jogadores brasileiros em todos os grandes clubes de todas as grandes ligas jogando em todas as posições, menos essa. Nas últimas três copas do mundo, o Brasil utilizou Emerson, Zé Roberto, Gilberto Silva, Felipe Melo, Luiz Gustavo e Paulinho como volantes. Alguns são bons jogadores, mas nenhum é capaz de controlar o ritmo da partida.

Tite

Depois de sua primeira passagem pelo Corinthians, Tite foi viajar e estudar. Retornou ao Corinthians com uma grande ideia: um trio de meio-campo diferente, formado por volante-âncora, um volante-vai-e-volta e um volante-armador. Ralf e Elias foram escolhas naturais para os dois primeiros postos, mas o terceiro jogador simplesmente não existia no futebol brasileiro.

Tite teve que buscar Renato Augusto, ex-camisa 10. Reconhecendo as características certas no meia (inteligência, visão de jogo, dinamismo, bom passe e controle de espaços), foi uma questão de adaptá-lo à nova função.

Renato Augusto não é um craque de nível mundial, mas seu desempenho no Corinthians e na Seleção mostram que um jogador para essa função é fundamental no esquema de Tite. Na verdade, é fundamental no futebol que se joga hoje.

O problema

Mas Tite tem um problema óbvio na mão: Renato Augusto não tem reserva.

Se o jogador se machucar antes da Copa ou não estiver em um bom momento, a tríade do meio-campo ruirá. Portanto o treinador tem nove meses para encontrar um outro cadenciador.

É aí que entram Arthur e Diego.

O volante do Grêmio é o melhor passador do Campeonato Brasileiro, portanto parece uma boa opção para jogar por ali. No entanto, ainda é muito jovem e não ocupa tanto os espaços ofensivos no Grêmio como precisaria fazer na Seleção, afinal, joga com Luan à sua frente – ótimo jogador, mas quase um atacante.

Diego é também um bom passador. É um jogador mais agudo, que agride a área e está acostumado a dar o último passe, diferente do que Tite precisa. Mas é possível que o treinador enxergue no experiente meia do Flamengo as mesmas características que tornaram Renato Augusto um titular incontestável.

Resta saber se o Diego conseguirá se adaptar. Hoje joga com um cão-de-guarda o protegendo no Flamengo e a torcida reclama muito quando é obrigado a buscar o jogo muito atrás. Mas será que foi justamente essa saída de bola que chamou a atenção do treinador canarinho?

Tite, afinal, sabe o que faz. E muitas vezes as escolhas do momento fazem parte de uma busca mais profunda.

 


Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb

Imagem destacada: Gilvan de Souza / Flamengo

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Téo Ferraz Benjamin

Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também.

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