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Grande parte das “análises” que a gente vê por aí são, na verdade, descrições dos lances da partida. Existe essa crença entre analistas de futebol (e entre pessoas que escrevem sobre outros assuntos) de que o público é burro, incapaz de formar por si só um pensamento crítico mais profundo. Assim, repetem o que todo mundo já viu com alguns detalhes. Não acredito nisso e, assim, quando comecei a escrever as análises táticas do MRN, só me comprometi com uma coisa: nunca me limitaria a narrar jogadas, tentando sempre trazer uma perspectiva diferente.

Às vezes caio na armadilha. Termino de escrever um texto e, quando vou reler, lá está uma descrição de um gol. Nada mais natural, afinal cresci lendo sobre futebol e também peguei alguns vícios. Apago e recomeço tudo outra vez. Todo mundo assistiu o jogo ou pelo menos os melhores momentos – e se não for o caso, há milhões de “crônicas da partida” espalhadas pela internet. Aqui, quero discutir ideias.

Prefiro explorar um único aspecto do jogo com profundidade do que percorrer tudo que aconteceu rapidamente, com frases feitas e vazias. Portanto, vamos olhar para o jogo de ontem a partir do maior ponto comum em todas as análises: o Flamengo ainda não tomou gol com Rueda.

O colombiano acertou a defesa. Agora somos um time “seguro”. Isso tudo aconteceu em apenas duas semanas. Seria alguma bruxaria? Em tão pouco tempo, só dá para mudar detalhes. Vamos olhar, então, para essas pequenas diferenças e tentar entender como o Flamengo pode estar jogando tão tranquilo.

A fase defensiva

Antes de mais nada, precisamos relativizar um pouco. Nos quatro jogos, enfrentamos uma vez o pior time do campeonato, duas vezes um time que lutou com todas as forças para manter o zero-a-zero e ontem um time organizado, mas num jogo que matamos rápido e ficamos 60 minutos sentados no resultado. Quatro jogos sem sofrer gols – e quase sem sustos – é muito bom, mas tivemos uma sequência favorável.

Rueda fez sim mudanças pontuais que melhoraram a perfomance lá atrás. Tentarei quebrar em três pontos que, juntos, mudaram a cara da fase defensiva do Flamengo, dificultando muito a vida dos adversários.

Primeiro, a profundidade da linha defensiva. Com zagueiros altos, fortes e lentos, é melhor entregar cruzamentos na área do que lançamentos nas costas da defesa. Por isso, Rueda recuou bastante a linha de zaga, que fica sempre postada na entrada ou até dentro da área, diminuindo os espaços por trás. Foram 25 cruzamentos do Atlético ontem, dos quais 19 foram cortados pela zaga. Depois dos quatro gols idênticos sofridos contra Cruzeiro, Palmeiras e Coritiba com infiltrações entre os zagueiros, Zé Ricardo já deveria ter feito essa mudança há muito tempo.

Complementando esse primeiro ponto, vem a distância entre as linhas. O time com Zé Ricardo nunca foi muito adepto da pressão alta no campo do adversário, mas começava uma linha de marcação na altura do meio-campo, às vezes deixando Diego, Guerrero e um dos pontas para complicar a saída de bola do adversário. Havia uma lacuna entre a linha de meio-campo e a linha de defesa, que dava espaço para os meias adversários jogarem no que hoje chamam de “espaço entre as linhas”. Toda aquela zona era coberta por Márcio Araújo – e essa sempre foi a justificativa de Zé Ricardo para mantê-lo no time.

Rueda resolveu esse problema espremento as duas linhas. Quando o Flamengo perde a bola, o meio-campo imediatamente corre para trás, se fixando poucos metros à frente da linha defensiva. Como a defesa já está mais recuada, isso significa que o Flamengo começa efetivamente a marcação dentro da sua intermediária. Entrega muito terreno ao adversário, mas cria um bloqueio fortíssimo perto do próprio gol.
 

 
Por último, Rueda diminuiu a amplitude da defesa, ou seja, a distância entre um lateral e outro. Passamos a jogar com uma linha estreita, mais ou menos do tamanho da grande área. Assim, congentionamos o jogo pelo meio, forçando o adversário a cair pelas laterais.

A grande dificuldade aqui é manter esse desenho estreito. Nikão era disparado o melhor jogador do Atlético ontem e seria natural que Rodinei colasse nele para evitar o passe. Em vez disso, o nosso lateral ficava preso pelo meio, abrindo um enorme espaço no canto do campo, onde o ponta deles se posicionava sempre livre. Assim que a bola chegava a Nikão, Rodinei diminuía o espaço e Berrío dobrava a marcação. Mas repare: isso é feito só quando a bola chega por aquele lado e, desta forma, a linha inteira se reposiciona, com os zagueiros recuando e o lateral oposto fechando.

Antes de sofrer com as infiltrações, o Flamengo sofreu muito com cruzamentos. Os sete gols que levamos na Libertadores aconteceram assim. Um dos problemas era o tempo e espaço que os adversários tinham para cruzar. Zé Ricardo corrigiu o erro apertanto a marcação nos pontas adversários e espaçando a nossa linha de defesa. Assim, criou um problema ainda maior. A solução de Rueda parece mais eficaz.

Infalível?

Tudo ótimo até aqui. Nada a reclamar. Mas será que o Flamengo não vai mais sofrer com Rueda?

Não é bem assim. Há várias situações que podem dificultar a nossa vida. Como já falei aqui algumas vezes, futebol é um jogo de cobertor curto: quando você puxa aqui, deixa descoberto ali.

Fabiano Soares mexeu bem ontem no intervalo. Adiantou o lateral-esquerdo Fabrício e puxou um jogador (às vezes Guilherme, outras vezes Dougas Coutinho) para encostar em Nikão. O objetivo era criar sobrecarga daquele lado. Quando Nikão recebia a bola e Rodinei partia para atacá-lo, já havia dois companheiros no apoio. Deu certo, e o Atlético até ensaiou uma pressão no segundo tempo, forçando Rueda a mudar a marcação por aquele lado – primeiro com Arão, depois com Everton.

Outro problema ocorrerá quando tomarmos o primeiro gol. Ontem, o placar deu tranquilidade ao Flamengo para se defender sem maiores problemas. Mas eventualmente começaremos o jogo perdendo, e aí a postura deverá ser um pouco mais agressiva, com as linhas mais adiantadas.

Por último, ainda precisamos ver esse time do Flamengo contra um adversário que gosta da bola, que se articula com ela e cria sobrecarga em diferentes setores. Até agora, pegamos apenas times reativos.

Conclusões

Em pouquíssimo tempo, Rueda reposicionou as peças para criar um Flamengo sólido. Em alguns aspectos, é um time que se defende de maneira parecida com o Corinthians de Carille. Isso só mostra como Zé Ricardo havia realmente ficado cego por suas convicções.

Não é a toa que Trauco perdeu espaço. Seu pior fundamento é o posicionamento defensivo, que passa a ser a característica mais importante na linha de defesa do Flamengo. Rodinei também pode ter problemas para fechar a segunda trave nos cruzamentos, que é uma de suas fraquezas.

Rueda não tem varinha mágica, mas mostra que está em dia com o futebol que é jogado mundo afora. Aos poucos, o time vai ganhando a sua cara.
 

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb
 


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