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Hoje faz exatamente vinte anos desde que pisei no Maracanã pela primeira vez.

Minha história no futebol começou relativamente tarde. Eu não fui aquela criança que já chutava bola e acompanhava o time da família desde pequeno. O primeiro momento futebolístico que me lembro foi a final da Copa de 94, quando eu tinha quase 6 anos. Estava viajando com a família e comemoramos juntos o título. Me lembro claramente de passear no fim da tarde com o meu short do Brasil, mas a verdade é que eu estava muito mais acompanhando a minha família do que transbordando uma emoção própria.

Eu já tinha sete anos de idade e ainda não acompanhava os jogos, não jogava futebol e simplesmente não gostava de nada que envolvesse o esporte. Toda a família do meu pai era Flamengo, enquanto a família da minha mãe – muito maior – torcia pelo Fluminense. Me tornei rubro-negro, mesmo sob a pressão da família materna que durante um verão fora do Rio fez com que me declarasse Fla-Flu. Isso durou pouco, afinal, mesmo com menos de oito anos, consegui perceber que essa ideia era absurda. Nunca pareceu que eu escolhi ser Flamengo. É como se o Flamengo tivesse me escolhido.

O primeiro campeonato que acompanhei de verdade – pelo rádio ou pela TV – foi o Carioca de 1996, com quase oito anos, e até fiz uma promessa: se o Flamengo vencesse o campeonato, iria raspar completamente o cabelo. No fim, o título veio de forma invícta (para não restar nenhuma dúvida), mas eu dei o meu primeiro migué futebolístico: mantive minha cabeleira. Você queria o que? Eu tinha oito anos e aquilo tudo era muito novo para mim.

Logo cedo, no meu primeiro campeonato, aprendi que uma promessa no futebol é uma coisa séria, alguns diriam sagrada, e me arrependo até hoje por não ter cumprido a minha primeira.

Depois de pouco mais de um ano acompanhando o Flamengo, convenci meu pai a ir ao Maracanã pela primeira vez. O adversário escolhido a dedo foi o União São João de Araras, por ser um time pequeno que não traria torcida. Nos anos 90 a violência nos estádios era um problema real e minha mãe não simpatizava muito com a ideia de me mandar para aquele ambiente explosivo. Além disso, acho que meu pai sabia que aquele era um momento decisivo na minha Flamenga e gostaria que meu primeiro jogo acabasse com uma estrondosa goleada. Partimos então rumo ao estádio naquele 09/11/1997.

Se eu fechar os olhos, consigo me lembrar da manhã antes do jogo, da preparação, do caminho no carro, de reconhecer os aliados na rua vestindo a mesma camisa. Consigo ver claramente a estátua do Bellini, a rampa de entrada, o túnel escuro… E a imensidão que se abre depois de cruzar aquele portal. De lá pra cá, fui há vários estádios no Brasil e no mundo, e nenhum outro proporciona aquela sensação indescritível que o velho Maraca oferecia no fim do túnel. Era a entrada em um outro mundo, completamente diferente.

Sei que havia pouca gente no estádio naquele dia. Mesmo assim, lembro de olhar mais para a torcida do que para o campo. Não me lembro de absolutamente nenhum lance do jogo. O resultado, apesar dos planos do meu pai, foi um 0-0 calmo, até chato. Apesar de não ter sido um jogo especial (duvido que qualquer outro rubro-negro tenha alguma recordação desse dia), me lembro daquela tarde com carinho. É uma das melhores memórias da minha infância.

Existem coisas na vida que você deve supostamente se lembrar: seu primeiro beijo, sua primeira transa, seu primeiro emprego, como conheceu o amor da sua vida, o nascimento dos seus filhos… O mais marcante desse dia foi que, no fundo, mesmo tão novo, eu sabia que o que estava vivendo ali ficaria comigo por muito, muito tempo.

O ser humano tem uma necessidade incrível de se expressar. Criou (ou descobriu?) a música, a dança, o teatro e todo o seu incrível patrimônio cultural. Mas o futebol é a mais completa manifestação da experiência humana. O futebol tem tudo: drama, surpresa, superação, grandes histórias, beleza, confronto, derrota, ironia, poesia, mestres e, sobretudo, torcida.

A experiência humana só se completa em grupo. Desfazer-se na multidão, deixando de ser você para se tornar parte de algo muito maior, é certamente uma das sensações mais poderosas que podemos experimentar.

Foi isso que eu descobri há vinte anos. E fiz daquele lugar, aos poucos, a minha casa. Foi ali que fiz amigos, estreitei laços, sofri, chorei, comemorei, gritei como um louco, torci pelo improvável e vi o impossível acontecer. Foi ali que evaporei em meio a milhares de vozes e, assim, encontrei a pessoa que eu era – e ainda sou.

Hoje, passados vinte anos, muita coisa mudou. O Maracanã morreu, o ingresso encareceu, as planilhas soterraram as vozes, a grana venceu a gana.

Mas nada disso me convence do contrário: o futebol é gigante.

 

Foto destacada: Paulo Moreira / Agência O Globo

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb

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