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Imagine a seguinte situação: seu time jogando uma final fora de casa, placar zerado, poucos minutos restando para o apito final e aquele placar dá o título ao adversário. O que você faz? Com certeza se joga ao ataque, tenta um gol a todo custo, mesmo sob o risco de ficar exposto a um contra-ataque. Afinal, é melhor morrer lutando do que cair entrincheirado.

Agora imagine se o seu time só entende o regulamento depois do apito final. Imagine a equipe descobrindo depois do jogo que o adversário é campeão.

A situação do Flamengo na final da Copa do Brasil foi mais ou menos essa. Não nos lançamos à frente por um detalhe: aparentemente o empate não dava o título diretamente para o Cruzeiro e a disputa de pênaltis dá esperanças aos dois lados. Podre ilusão. Se Diego não tivesse perdido, se todos os jogadores rubro-negros fossem perfeito nas cobranças, os dois times estariam até agora batendo as penalidades, pois é impossível perder um pênalti com Muralha no gol.

Repito: é impossível. Não defender nenhuma cobrança é normal. O que não é normal é a atitude de Muralha na marca da cal. Assustado, omisso, petulante, desconfortável, descompromissado…

O Cruzeiro tinha mais do que a vantagem do empate. Tinha a vantagem de empatar sem que o adversário soubesse disso. E foi isso que segurou o ímpeto do Flamengo, anulando uma pressão final em busca de uma bola vadia.

Foi essa ilusão que tirou o título do Flamengo. A ilusão de que não estávamos perdendo, que o resultado estava em aberto, que os deuses do futebol, aficcionados por histórias de superação, dariam a Muralha e ao Flamengo a capacidade de vencer nas penalidades. Rueda classificou como “imponderável” algo que era extremamente previsível. O que nos traiu foi essa nossa teimosa mania de acreditar no impossível. Dessa vez, nem o impossível daria conta.

Um jogo de sobra

O jogo foi a cara de Mano Menezes: amarrado, chato, brigado e truncado. O treinador cruzeirense é um especialista em trancar o jogo, com muita briga e pouco futebol. Demos a ele tudo que ele sonhava: bastava se segurar contra um ataque que tem sérios problemas para furar retrancas. Nada mais.

Aliás, essa foi a mesma estratégia do Botafogo nas semifinais. E teria dado extremamente certo se não fosse um lance achado por Berrío e Diego.

A entrada de Arrascaeta logo no começo colocou um jogador a mais no meio-campo cruzeirense e criou uma situação fácil de entender e difícil de reverter: o time mineiro espelhava o Flamengo, com marcações encaixadas no mano-a-mano em todos os setores, mas deixava Rever e Juan livres para trocarem quantos passes quisessem. Com isso, o Cruzeiro tinha não só uma, mas duas sobras: uma em Diego e outra em Guerrero.

Os pontas acompanhavam os laterais, os laterais colavam nos pontas, os meias fechavam os volantes… Mas os dois melhores do Flamengo estavam encaixotados no meio de quatro adversários. Diego jogou muito mal e o time forçou demais a bola longa com Guerrero, mas isso não foi apenas negligência ou burrice. Havia um problema claro que o Flamengo não soube contornar.

Rueda errou. Berrío pode até ter seus méritos se infiltrando em velocidade por trás da linha de defesa, mas é um jogador completamente inútil jogando contra uma zaga postada tão perto do próprio gol. Simplesmente não há espaço para correr por trás. A entrada de Rodinei é incompreensível, já que ele mantém exatamente a mesma característica.

Havia duas alternativas: entrar antes com Paquetá, que tem a capacidade de derivar para o meio, acabando com uma das duas sobras, ou arriscar um pouco mais com um dos zagueiros carregando a bola para quebrar a primeira linha do Cruzeiro.

O Flamengo não fez nada disso. Pelo contrário, se iludiu. Acreditou que estava bem no jogo por dominar uma posse de bola infértil e achou que decidiria no talento individual de algum jogador ou, pior, que os pênaltis igualariam a disputa.

Mano Menezes mostrou mais uma vez o medo de jogar futebol. Era esse o nosso papel: propor um jogo corajoso, tirando o conforto do adversário. Foi a ilusão que tirou o coragem do Flamengo. Sem coragem, ficamos sem o título.

Uma tônica perfeita para representar o ano.

 


Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb

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