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Nunca te julguei e nem te julgarei apenas pelos resultados, Zé Ricardo. Não é a toa que já te elogiei depois de um empate em casa e demonstrei toda a minha decepção depois de uma vitória fora. Depois desse último texto, inclusive, muita gente comentou pedindo a sua cabeça.

Não farei parte dessa cruzada. Deixarei minha tocha e meu garfo de três dentes guardados. Concordo que o mercado está ruim e que você ainda tem potencial – apesar de concordar também que o Rueda seria uma boa saída agora. Talvez você caia, talvez não. Essa não é minha disputa. Eu quero ver o Flamengo jogando bem. Críticas podem ser saudáveis e você está merecendo muitas. Isso não significa esculachar o seu trabalho, mas tá difícil te defender, Zé. O pior é que você sabe os motivos.

Você adora usar a palavra “convicção”, mas todo torcedor rubro-negro já está vendo aí um bocado de teimosia. A palavra “Zéritocracia” já ganhou as redes porque realmente está difícil de explicar a continuidade de alguns jogadores. Lealdade foi a pior justificativa que você poderia ter dado. Afinal, essa lealdade com dois ou três marmanjos é uma punhalada em quarenta milhões. O Flamengo somos nós, não eles.

Aliás, a primeira coisa que gostei em você foram as suas entrevistas após os jogos. Mas nós dois temos que concordar que de um tempo para cá você se perdeu um pouco. A explicação sobre a escalação contra o Bahia foi uma macarronada difícil de entender.

Acredito que os nossos problemas sejam mais profundos do que a escalação de um ou outro jogador. O time do Flamengo hoje tem alguns buracos estruturais que precisam ser corrigidos o quanto antes. Acredito também que a sua formação preferida – esse 4-2-3-1 que às vezes vira 4-4-1-1 e às vezes 4-1-4-1 – não ajuda a consertar esses defeitos.

Como já escrevi aqui no MRN, futebol é um jogo de cobertor curto: quando você cobre aqui, deixa descoberto ali. Dito isso, sei que nenhum time é perfeito e que é muito difícil aproveitar ao máximo cada característica de cada jogador, mas estamos, muito, muito, muito longe disso. A verdade é que estamos jogando muito mal e isso já vem de um tempo.

Por isso tudo, tomo a liberdade de deixar aqui uma sugestão de como o Flamengo poderia jogar e uma justificativa para cada escolha. Você pode não gostar, pode discordar, mas peço que reflita um pouquinho sobre cada um dos pontos.

1- A zaga: Rhodolfo parece ter vindo para ficar. É bom esperarmos, porque muitos também declamaram poemas para César Martins depois dos primeiros jogos e David Braz foi considerado grande reposição para a saída de Fábio Luciano. Um pouco de desconfiança com zagueiros é sempre saudável. A grande preocupação com essa linha de defesa seria do lado esquerdo, já que Trauco precisa de cobertura constante e talvez Réver e Rhodolfo não tenham mobilidade o suficiente para cobrir o tempo todo. Caso isso se torne um problema, a melhor solução é a volta de Vaz.

2- A articulação das jogadas: Um dos problemas estruturais do Flamengo é a lentidão na saída de bola. O time é extremamente previsível e já não surpreendemos ninguém há um tempo. A gente vê a torcida reclamando que Diego tem que voltar toda hora para buscar a bola dos zagueiros. Há duas semanas, sugeri que Conca pode ser a chave organizando as jogadas e ditando o ritmo, deixando Diego mais livre para se movimentar buscando o espaço para ser decisivo: o homem dos gols e do último passe. Ele ainda não está pronto, é verdade, mas só vai ficar pronto jogando. Mancuello ou Paquetá podem quebrar um galho por ali enquanto isso.

3- Os volantes: Márcio Araújo precisa sair do time. Ele pode até voltar depois, mas neste momento precisa sentar fora. Romulo foi muito mal quando entrou, mas jogá-lo para escanteio depois de meia dúzia de partidas é admitir uma falha grosseira de avaliação do mercado. Talvez, jogando entre as linhas e mais protegido, ele consiga evoluir. Além disso, sua estatura somada à de Rhodolfo e Rever faria com que o Flamengo pudesse pressionar lá na frente para forçar a bola longa do adversário, ganhando todas as disputas pelo alto lá atrás. Cuellar tem características diferentes, mas pode jogar ali se parar de fazer faltas. O ganho seria uma melhor cobertura dos laterais. Ronaldo também merece um teste. Coloquei Arão como titular mas, assim como Conca, isso deve ser construído aos poucos. Ele não pode entrar jogando nesse momento, pois está em péssima fase. Cuellar pode na vaga de Arão também.

4- Diego: Quando o camisa 35 vai bem, o Flamengo vai bem. Tem sido assim há um bom tempo e associar a queda de rendimento à lesão de Diego não é loucura. O problema é que o craque do time hoje fica encaixotado. Atrás dele temos dois volantes que organizam pouco. Dos dois lados, pontas que só correm. À sua frente, um atacante que não pode se movimentar tanto. Diego fica encaixotado, sem liberdade de movimentos. Por causa disso, quando é bem marcado de maneira individual, o Flamengo pifa. Com esse esquema, ele teria mais espaço aberto para se movimentar e poderia eventualmente trocar de posição com Éverton Ribeiro ou Conca para confundir a defesa adversária.

5- Éverton Ribeiro e Vinicius Junior: O camisa 7 ficou famoso jogando do lado direito. Mas a verdade é que no Cruzeiro ele tinha muita liberdade para se mexer. Partindo daquele lado, ele pode abrir pelo flanco, centralizar, fazer o facão na área ou até cair na outra ponta para quebrar a linha adversária. É o que lá foram chamam de “free role” (função livre). Além disso, temos que parar com essa ideia brasileira de que garotos da base devem começar no profissional como pontinha. Vinicius pode ser o reserva imediato nessa formação. O garoto não ficava restrito ao lado do campo nos juniores e também pode render melhor nos profissionais se orbitar livremente ao redor de Guerrero.

6- Fazer gols: É um problema crônico do Flamengo em 2017. Em grande medida, foi o que nos tirou da Libertadores. Guerrero é bom em tudo, menos em estufar as redes. Com essa formação, ele teria muito mais jogadores se aproximando dele dentro da área para finalizar. São jogadores que sabem fazer gols, ao contrário dos nossos pontas. Jogando assim Guerrero não precisa ficar confinado entre os zagueiros e isso facilitaria as situações de jogo nas quais ele deve jogar com um outro centro-avante ao seu lado, pedido constante da torcida. Por fim, o fato é que todos os times do campeonato brasileiro utilizam uma linha de quatro na defesa e a melhor forma de quebrar essa marcação é com dois atacantes. Afinal, hoje cada ponta é marcado por um lateral e Guerrero é vigiado por um zagueiro com uma sobra. Com dois atacantes por dentro, você mata a sobra.

7- O time reserva: O Flamengo tem um elenco desequilibrado. Mas se você parar para pensar, esse time aí em cima tem pelo menos um reserva por posição. Temos jogadores que se encaixariam facilmente em caso de lesões ou suspensões: Pará, Juan, Vaz, Renê, Ronaldo, Cuellar, Mancuello, Ederson, Vinicius e Vizeu. Os pontas Berrío e Everton passariam a ser opções para mudar o jogo em situações específicas, não jogadores dos quais a gente depende. O último pode, inclusive, até disputar a posição na lateral esquerda.

Conclusões

Dificilmente você vai jogar assim, Zé. Suas convicções são grandes demais para uma mudança estrutural como essa. A cada dia você mostra que o seu fascínio pelos pontas não pode ser corrompido. De qualquer maneira, deixo aqui a minha sugestão. Esses são problemas graves que o Flamengo tem hoje e através desses sete pontos acredito ter mostrado que as soluções estão guardadas dentro do próprio elenco.

SRN,

Téo

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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