Durante a Copa do Mundo, esse período tão tenebrosamente sem-Flamengo, eu voltava sempre a pé depois de deixar meu filho na creche-escola dele. E sempre passava por um camelô (a cidade nunca teve tantos) que vendia os tais cavalinhos do Fantástico, aqueles que mostram a classificação do campeonato brasileiro. No entanto, os cavalinhos neste camelô estavam vestidos com a camisa da seleção brasileira, da Argentina, do Uruguai, até da França; e nessa hora eu sentia um profundo desalento, ao verificar a ausência do cavalo rubro-negro – e, pasmem, até mesmo os cavalos mais retardatários como os de Vasco, Botafogo e Fluminense.

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Há quem argumente, não sem ter alguma robustez, mínima que seja, que todos os anos em dezembro e janeiro vivemos este período sem Flamengo – na verdade, curiosamente, dados estatísticos da década passada indicavam que este sempre foi o período em que jornais esportivos como o diário Lance! mais circulava. Não há, portanto, esse deserto de Flamengo tão propalado por aí. Há na verdade uma profusão de reflexões e ideias – tal como as que permaneceram sendo propagadas nas redes sociais, principalmente no que tange a contratações (tema ao qual voltarei em outro artigo). Mas nessas férias de Copa, no entanto, há futebol e de razoável qualidade. Ou seja, não é como em dezembro e janeiro. O futebol, ainda que não o nosso, permanece.

Mal comparando, é como se o nosso dezembro e janeiro fossem um acampamento, onde nos afastamos das emoções da civilização, do conforto urbano, e ficamos debatendo na escuridão, na selva, mas ainda com o Flamengo a ocupar nossos corações e mentes. Já passar um mês inteiro vendo um evento de menor importância (digo em relação ao Flamengo, não em termos absolutos) como a Copa é, numa comparação extrema, uma espécie de exílio: vemos a mesma paisagem, prédios, carros e ônibus até parecidos. Mas esta não é a nossa terra, a nossa gente, o nosso sangue. Apesar de em muitos jogos eu ter realmente me divertido (como no Argentina x França, o único jogo épico da Copa – e escrevo antes da final, na qual não levo muita fé, mas espero estar errado), na maior parte das vezes eu me senti indiferente. Não que estivesse, como alguns por aí, “defecando para a Copa” (mas recebendo resultados em tempo real via grupos do whatsapp), mas na maior parte do tempo me revestia da apatia de Mersault, personagem de Camus em O Estrangeiro, pouco preocupado com o próprio destino depois de matar um árabe e muito envolvido no velório da própria mãe. Mersault, como sabemos, é condenado à morte – mas mesmo assim, continua exaltando sua indiferença mútua com o resto da humanidade.

Tal como Mersault, eu simplesmente não conseguia me importar. Mesmo quando a seleção corint…ops, brasileira foi eliminada, meu dia se resumiu a ir passear com meu filho na festa junina perto de casa e comprar-lhe estalinhos, atirados com alegria ao chão.

Sim: de alguma maneira, quando o Corin…ops, o Brasil foi eliminado, tive a sensação de que o exílio começava a acabar. Calma: não fiquei alegre nem torci contra o Brasil. Mas tal e qual o árabe morto por Mersault, não foi um fato que aconteceu dentro do meu coração – apenas no meu cérebro.

Fiquei triste, sim, por todas as crianças. Sei bem o que é uma seleção brasileira, por mais corint…por pior que seja, na cabeça e no coração de uma criança. Mas o que morria ali não era parte de mim. “Thislandisyourland”, poderia ter cantado, com razão, Woody Guthrie, cheio de ironias, naquele momento.

Mas hoje acaba. E me desloco da obra de Camus para os Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias, obra em que foi publicada sua Canção do Exílio. Consta que o poeta (os estudiosos me corrijam, por favor, eu realmente não sei) na época em que escreveu isto estava estudando em alguma universidade em Portugal, e resolveu espinafrar nossos amigos lusitanos exaltando os valores da velha colônia:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

A influência deste poema, os senhores podem notar, chegou até a letra do Hino Nacional. Gonçalves Dias descreveu a sensação exata de um dia ter uma Nação e no outro perdê-la, ainda que temporariamente, num exílio que, creio, foi até voluntário.
O que escreveria um rubro-negro ao se ver exilado do Flamengo? Tenho tremores (sem babar) só de pensar. “Na minha terra tem Flamengo/Onde joga o Paquetá”, talvez ele cantasse, numa versão meio cretina – mas plena de realidade. Nada tão real quanto o trecho que destaco abaixo:

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;

Por mais que seleções brasileiras sejam importantes para a infância, que Copas sejam uma brincadeira até interessante (tais como quermesses, festas de fim de ano no trabalho ou rodas de buraco e 21), não há nada, como os senhores sabem, como o Flamengo. É pelo Flamengo que dividimos nossas vidas e nosso tempo, é pelo Flamengo que nos formamos como cidadãos – é o Flamengo que nos ensina que de vez em quando é preciso entrar em campo e sentar a mão na cara de quem nos agride, é o Flamengo que nos ensina que no último minuto o inusitado pode acontecer a nosso favor, é o Flamengo que nos ensina que devemos gerir melhor nossas finanças, é o Flamengo que nos ensina a não usar camisa pirata nem se for de escola de samba. O Flamengo é a nossa terra, é lá onde encontramos mais prazer – o nosso maior prazer, vê-lo brilhar.

Por isso, não contive minha emoção ao ver os cavalinhos de clube de volta ao camelô na sexta-feira passada, quando voltava da creche do meu filho. O Flamengo está voltando – ou melhor, nós estamos voltando ao Flamengo, a nossa terra, onde não tem mais Palmeiras (que não tem Mundial), mas tem coqueiros, praias, lagoas e ilhas (como a de Paquetá), onde tem o nosso sangue, onde nos reconhecemos no espelho d’água.
Ver tanto futebol e não ver Flamengo é como caminhar por cidades enormes sem ver um boteco sequer, é tal como olhar para cima e não ver nem sombra do Redentor, é – como dizem os Rolling Stones – olhar para uma multidão sem rosto:

Andwhen I search a facelesscrowd
A swirlingmassofgrayand
Black andwhite
Theydon’t look real to me
In fact, they look sostrange
(Salt ofthe Earth, 1968)

O Flamengo é aquilo que mais reconhecemos em nós mesmos. É bom voltar a nós. Sejamos, todos, bem-vindos.
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Divulgação / FIFA

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Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.
 

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