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Confrades Flamengos, esta foi uma semana típica de janeiro: reforços chegando e torcida nas redes sociais dividida entre reclamar e ter esperanças.

 
Desnecessário dizer que ter esperanças é algo que desde que me entendo por Flamengo sempre fez parte do mindset Flamengo. Tivemos esperanças frustradas em 1977, quando Tita perdeu o pênalti contra o Vasco, tivemos esperanças frustradas em 1979, quando o time tricampeão carioca perdeu de 4 a 1 pro Palmeiras no Maracanã, tivemos esperanças frustradas em várias edições da Libertadores pós-1981.

E claro, todos nossos triunfos e momentos flamengos (independentemente de terem sido triunfos ou não) são calcados na Esperança, do mesmo jeito que o livro Os Irmãos Karamazov, de Dostoiéviski, é fundamentado no Ressentimento, que a música de George Harrison é baseada na Espiritualidade, e por aí vai. Nós somos Esperança. Não confundir com sentimentos derrotistas de torcedores de clubes condenáveis (royalties para Arthur Muhlemberg) – e defina-se “clube condenável” como todo aquele que não se chama Clube de Regatas do Flamengo. Não confundam expectativa com Esperança, que é algo maior.

No blog: Considerações sobre o DCF

Isto posto, passemos ao assunto que mais pegou fogo na semana, que foi retorno do goleiro Júlio César, efetivamente e definitivamente um herói do inesquecível tricampeonato consolidado em 27 de maio 2001. Vocês lembram: naquela tarde carioca de outono, em pleno racionamento de energia (o que fez o jogo começar às 15h), Petkovic cobrou uma falta de forma magistral e fez o mundo explodir aos 43 minutos. No entanto, pouco antes disso JC fez uma defesa salvando um gol certo de Euller que teria inviabilizado nosso resultado final. E ao longo do jogo, sua atuação foi consagradora.

Há outra “conquista” de JC indiscutível: nos anos que se seguiram ao tricampeonato: suas defesas garantiram algumas permanências na Primeira Divisão.

Mas a questão é que, além de estar com uma idade meio avançada (em tese, pois tivemos vários grandes goleiros passando dos 40 – o próprio Manga foi campeão brasileiro em 1976 pelo Internacional aos 41 anos de idade) há um sentimento de que ele teria se “despegado” do Flamenguismo, de que teria rejeitado o clube em outros tempos. Esta, claro, é uma lógica ultrapassada. Pensamos o futebol de hoje com padrões dos tempos da Paixão: quem hoje imaginaria que Zico ficaria de 1972 a 1983 no futebol profissional do Flamengo? Onze anos! Alguém cogita que Neymar passaria ONZE anos no profissional do Santos? Só no tempo do Zico.

A questão crucial mesmo é que o Flamengo PARECE ter feito esta contratação, temporária, com salário EM TESE simbólico (não, R$ 15 mil não é “simbólico”, por mais que pareça pouco pra jogador), movido por uma motivação apenas: a de que Júlio César é ídolo Flamengo.

Esta decisão causa confusão, porque nos últimos anos vínhamos alimentando o conceito de que o Flamengo da chapa azul é focado em gestão, resultados, equilibrio financeiro e desempenho. Sendo assim, ficaria realmente contraditório: temos hoje quatro goleiros que podem entrar (Diego Alves, que deve estar bem em março, César, Thiago e Gabriel) e a gestão traz mais um. Por quê? Em que essa decisão é baseada?

Vale a pena citar Eisenhower, presidente dos EUA, autor da frase que levou o escritor Stephen Covey a construir sua obra “Os sete hábitos das pessoas realmente eficazes”. É do velho general Dwight, 34º presidente americano, a frase “O que é importante é raramente urgente, e o que é urgente é raramente importante”. Claro, há quem diga que não é dele, e eu sou obrigado a aceitar esta contestação.

Covey, em cima da frase de Eisenhower, entendeu que na gestão do tempo em uma empresa há coisas importantes e não importantes, as quais, ambas, podem ser urgentes e não-urgentes. E vice-versa. Digamos, por exemplo, que contratar um bom zagueiro para o Flamengo hoje é importante. Mas não urgente, pois pelo menos até o meio do ano ainda temos o Juan, ou até o fim do ano. Contratar um meia para ser o 10? Não importante e nem urgente. Ter um bom centroavante? Urgente. Nem tão importante, já que temos o Lincoln, mas é urgente porque só teremos Guerrero depois da Copa (e cá pra nós, esse não é nenhum homem-gol).

Leia também: 1989-1990: paralelos que a história rubro-negra insiste em querer ensinar

Trazer o Júlio César, com efeito, não é urgente. De forma alguma. Mas é importante. À parte a fanfic criada pela Suzana Werner, sua chegada foi revestida e plena em valores flamengos, em herança rubro-negra, e isso é preciso respeitar. Tradições são como faróis nos conduzindo pela vida afora – e o que seria de nós sem um Natal (3 de março) para comemorar, sem o 13 de dezembro, sem as liturgias próprias do rubro-negrismo (como o DCF e a síndrome do gol de ex-jogador). Só o momento da chegada de JC já justificou sua vinda – e se for decidido que sua função é apenas ser um coordenador (o famoso COPONE), por mim já está excelente. Particularmente, não acho que ele tenha condições hoje de tomar a vaga do excelente Diego Alves. Mas sua presença Flamenga mantém a bandeira tremulando, fincada e com raízes profundas. Daí a importância. Há que se ter um apego a esse simbolismo, mesmo nas melhores gestões. Não será por causa de gestão que a Coca-Cola deixará de exibir seus ursos no Natal, não é em função do desempenho de A ou B que um presidente americano deixará de fazer seu famoso State of the Union (que é justamente sobre desempenho!), não é por causa de falta de combustível que o Vaticano deixará de expelir fumaça branca quando um novo Papa é alçado a essa condição de líder supremo da igreja de Pedro.

Há gestos, atitudes e liturgias que precisam ser cumpridas, pois dão sustentação a sentimentos, espíritos e procedimentos que fazem, coletivamente, a máquina funcionar. A metafísica Flamenga precisa ser mais bem entendida – e não se tornar apenas assunto de ano eleitoral. Que seja, então, bem-vindo Júlio César. Bem que andaram dizendo por aí que o Imperador iria voltar.

Uma boa semana a todos.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo
 


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.


 

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