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O Peçanha chega em casa, quarta-feira de noite. Teve resenha depois do trabalho, um chope ali no Arco do Teles, na Praça 15, com os amigos lá da corretora. A empresa dele vai muito bem, e isso traz um sabor especial ao chope. As dívidas estão equacionadas, as contas pagas, os salários em dia – e isso tem um valor ainda maior porque a firma sempre foi turbulenta. Entrava CEO, saía CEO, a dívida só crescia, e a empresa oscilava no ranking. Em 2009, por acaso, a empresa faturou um Best of The Year, mas nem deu para dizer que foi coisa do CEO. O pessoal do chão de fábrica, um cara da Vila Cruzeiro e um gringo, ficaram de frente, e a produção foi muito boa. Depois disso, a firma ficou um caos, é verdade. Mas logo uma nova gestão tomou as rédeas e tudo melhorou. E, ao que parece, em definitivo. Os resultados foram tão bons que fechar no azul virou parte do compliance (palavra da moda) da empresa.

Peçanha então parou de se preocupar. Voltou sua vida para a família, fez herbalife e perdeu uns quilos, até viajou para Buenos Aires e passeou na Florida. No fim do ano ele vai a Orlando, se Deus quiser. Mas nesta quarta, ele tomou uns cinco chopes, depois passou na padaria gourmet, comprou uns pães para a patroa e umas quatro garrafinhas de uma cerveja da qual ele nem sabe o nome (não conseguiu achar no rótulo). Hoje o time da firma joga. Não é nem de longe das coisas mais importantes para ele na firma – nem se compara com o Excel onde ficam as despesas do departamento médico, por exemplo. No último balanço, quando ficou azul, Peçanha abraçou os companheiros da contabilidade e chorou. “Porra, eu sabia que não precisava de tanta gaze, caralho!”, berrava, enquanto afrouxava o colarinho da gravata. Mas voltando ao presente: Peçanha resolveu dar uma força à galera que rala tanto. Meio com sono, ligou a TV, o jogo ia passar na TV. Eita firma de prestígio.

O pessoal tava todo lá, até animado. O Dieguinho da administração geral, o Réver da seção de copiadora, o René da manutenção do refeitório, o Dourado do almoxarifado. Peçanha riu e deu um tchau, involuntário, esqueceu que era só televisão. A pelada hoje era contra o time da Confeitaria Colômbia. No gol colocaram o Gringo, que não é gringo nada, é só um analista sênior que fez um estágio na Espanha. O time tava direitinho. Não era nenhuma seleção, mas tava direitinho.

Peçanha abriu a primeira cerveja. Deu um gole, achou amarga, pegou um cachorro-quente de forno, mordeu, deu outro gole e achou a cerveja menos amarga. Lembrou que o médico pediu para não comer farináceos depois das oito da noite. Paciência. Hoje tem time da firma. É legal porque essas coisas integram a firma toda, o pessoal no dia seguinte fica mais animado. O bom é que o Réver da copiadora é tipo assim uma liderança, e sempre coloca panos quentes, por isso essas peladas sempre terminam bem. Quer dizer, não com vitória, mas termina direitinho. Teve um dia em que o time da firma foi roubado, o Éverton Ribeiro lá do RH tomou uma bolada na cara, quase deu problema. Mas o Réver tava lá para dizer que é normal esses enganos, vamos em frente. Para que brigar por causa do time da firma, né? A firma tá bem.

Peçanha terminou a primeira cerveja e a mulher dele passou pelo escritório (ele gosta de ver no escritório) e perguntou “ué, tem jogo hoje?”. Ele riu, “você sabe que esse pessoal lá da firma curte um futebolzinho de vez em quando né?”.

O jogo segue, o Dourado do almoxarifado comete um pênalti. O juiz não deu, que bom, o time da firma escapou dessa. Vini, o aprendiz lá do financeiro, corre de tudo quanto é jeito, mas nada dá resultado. Nem parece que ele é do financeiro, onde mais tem isso de resultado. Peçanha parte pro segundo cachorro-quente de forno. A mulher dele, na sala, liga o Netflix para ver Suits. E falando em advogado, o dr. Juan, que gosta de jogar de terno, dá um passe tão errado que se fosse em um terreiro viraria maldição. O jogo segue sonolento. Peçanha abre outra garrafinha de cerveja gourmet com título ilegível. Pega o telefone, entra no grupo da firma e vê o que o pessoal tá falando do jogo.

“Nem sabia que o William ainda jogava”

“Que figuraça esse Diego, tá pensando que é quem?”

“Cadê o Pará? Tou com saudade dele!” (frase dita pela mesma pessoa que sente saudades do Rodinei lá da academia, que reveza com o Pará do Serviços Gerais lá no time da firma. Toda hora eles são confundidos).

O Luquinha dos transportes corre que nem um doido pela direita. Mas não chega a lugar algum. Quem tá tentando garantir tudo lá atrás é o Plata o Plomo, o colombiano da firma, que ganhou esse apelido depois da série Narcos. Mas era puro preconceito, essa mania de identificar tudo com a mazela do país.

No banco, o Barbiéri da recepção da Presidência parecia meio cansado, meio perdido, meio sem saco. Três meios, ele mesmo reconhece que matematicamente é impossível. Mas joga no 4-3-3 mesmo assim. O jogo segue. Peçanha cochila. Acorda de repente, com um chute a gol. Nem sabe de quem.
A mulher dele passa no escritório. “Benhê, vou dormir, tá?”. Ele estava cochilando de novo, desperta abruptamente e responde. “Ah, vou também”. Dá uma olhada na TV antes de desligar. O Geuvanio lá da chefia da Segurança Patrimonial roubou uma bola e fez o gol. Mas já tinha acabado o tempo. O Réver ainda deu uma reclamada, mas depois desencanou. “Gente, é só o time da firma”.

Peçanha deu uma risada depois do lance, desligou a TV e perguntou para a esposa se tinha tirado o dinheiro da faxineira; amanhã ele tinha que sair mais cedo para a firma. Não por causa do jogo, evidentemente. Tinha um balancete da compra de uns bebedouros para fechar e não queria perder esse momento.
 

Imagem destacada no post e nas redes sociais: Cruzeiro / Divulgação

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Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.
 

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