Raio-X da atuação do Flamengo mostra time volúvel e dificuldade de manutenção de alto desempenho entre os jogos e mesmo durante 90 minutos

 
O preço que se paga e a quem se cobrar? São esses os questionamentos levantados após mais uma rodada válida pelo Campeonato Brasileiro, e mais dois pontos desperdiçados, agora em casa. Jogadores, Comissão Técnica, Departamento Médico. A quem se endereça oscilações tão bruscas de rendimento técnico, tático e intensidade ao longo dos últimos jogos e mesmo durante os 90 minutos de uma partida?

Para dar voz ao debate, comecemos por como os times entraram em campo. Vasco e Flamengo iniciam com esquemas semelhantes (4-2-3-1), com o Vasco iniciando em marcação alta pressionando a saída de bola e dominando os primeiros 5 minutos, o que rendeu um raro momento de contra-ataque logo no primeiro minuto, que não foi bem concluída por Henrique Dourado no que seria uma das grandes falhas do jogo deste sábado: o último passe.

O cruz-maltino veio com a proposta inicial de pressionar a saída de bola adiantando a segunda linha de marcação, preenchendo o espaço entre os volantes (Cuéllar e Paquetá) e a linha de três ofensiva (Vinicius, Diego e Éverton Ribeiro), priorizando a ocupação de espaços nas laterais (e com Desábato seguindo de perto as movimentações de Diego), devido baixa qualidade técnica apresentada por Renê e Rodinei (algo que sem dúvida continuará sendo testado contra o Flamengo, como foi contra Chapecoense e Emelec). Isso originou um recuo dos pontas para a segunda linha para auxiliar na saída de bola, configurando em certos momentos o time num 4-4-1-1. Tal movimentação adiantou a última linha vascaína, o que rendeu a possibilidade de bons passes entrelinhas, novamente desperdiçados pela falta de conclusão mais caprichada.

Após isso, o Vasco posicionou-se em um esquema mais tradicional, com duas linhas de 4 fixas e com marcação sob encaixe, com os Rios e Thiago Galhardo fazendo pressão na saída de bola. Com essa configuração, Flamengo centraliza Cuéllar, Paquetá abre à direita e Renê à esquerda como opção de passe, com Vinicius Jr e Rodinei mais à frente como pontas oferecendo amplitude. Com isso tem-se um ataque funcional que se desenvolve através das movimentações de seus jogadores, com Paquetá, Éverton Ribeiro ou Diego podendo alternar na função de primeiro passe, ora em tabelas ou triangulações, como em passes mais longos visando a amplitude oferecida pelos pontas ou laterais.

Sistema de jogo que se contrapõe ao da equipe comandada por Zé Ricardo, que pratica um jogo mais posicional, com poucas movimentações ou troca de posições, que muitas vezes ignora sua linha de volantes ou meias para construção de jogadas e saída de bola, priorizando chutões ou lançamentos de seus zagueiros para os pontas; padrão já apresentado em sua esquecível passagem pelo Flamengo em 2016-2017.

Nessa perspectiva, o Fla executa uma marcação mais fluída, com constantes botes em quem está na bola ou interceptações no espaço vazio oferecido ao adversário. Dourado tende a cair mais à direita, com Diego centralizando em uma imaginária primeira linha. Paquetá e Cuéllar alternam na função de 1° volante, com o outro fazendo constantes ataques à posse e Ribeiro fechando mais à direita, como um 3° homem de meio-campo.

Na imagem, Léo Duarte abandona momentaneamente a posição para participar da marcação sobre o jogador com a posse. Com isso, Renê e Rodinei fecham momentaneamente ao centro formando uma linha de 3 providencial.

Aqui, a movimentação que gera o gol rubro-negro: Cuellar adianta para dar combate, força passe apressado que é interceptado por Rodinei. Jogada prossegue, termina em finalização característica de Ribeiro, rebatida por Martin Silva e concluída para o fundo da rede por Vinicius Jr, aos 13’ 1° tempo.


 
Até o momento do gol, a estratégia funciona e a vantagem no placar se apresenta. E nesse cenário, o desempenho rubro-negro rui.

Vasco timidamente esboça uma reação, que é alcançada após roubar bola em falha de Rodinei ao querer sair jogando, que gera contra-ataque que quase empata a partida em desvio de Rever a própria meta. Sequência de dois escanteios, gol vem em desvio na primeira trave e Rodinei, disperso, permitir na pequena área que Wagner conclua de peixinho a jogada, aos 17’.

Nesse momento, o jogo rubro-negro entra em declínio técnico nítido. Cuéllar e Paquetá desaceleram o jogo, deixam de verticalizar as jogadas, com o garoto ainda errando duas saídas de bolas perigosas ao buscar o drible. Diego, que vinha fazendo partida de intensa movimentação até aqui, acelerando e cadenciando o jogo nos momentos certos, recua para auxiliar a saída de bola, o que não muda a velocidade de rotação da equipe, por ser um autêntico carregador de bola. A posse de bola entre as duas equipes fica mais equilibrada e o Vasco começa aos poucos a ter mais terreno, ainda que continue sem criatividade, finalizando rapidamente suas jogadas, à espera de possibilidade de alçar bolas na área, contando com faltas e escanteios como principal opção ofensiva. Constantes paralisações por faltas marcadas e bate-boca constante de jogadores e juiz, picotam a primeira etapa que acaba sem grandes riscos às metas de ambos os times.

E essa queda técnica é impulsionada pelo desgaste físico trazido pelos jogos anteriores. Réver sai lesionado, sendo substituído na volta do intervalo por Rhodolfo. Ainda que com bom princípio de 2° tempo, Diego, Vinicius Jr (melhor e mais perigoso jogador enquanto esteve em campo) e Dourado engessam e deixam de pressionar a saída de bola. Isso obriga que Paquetá e Cuéllar aumentem a frequência de botes sobre a saída de bola, o que gera ainda mais desgaste e retira completamente o vigor do meio de campo.

Vale citar Éverton Ribeiro, que ainda que com intensa movimentação, agregou mais ao setor ofensivo que defensivo, onde foi o pior jogador, com apenas uma interceptação ao longo dos 90 minutos.

Flamengo continua propondo o jogo, errando continuamente na melhor escolha ao último passe, e cedendo cada vez mais terreno aos contra-ataques vascaínos. Ao invés de tirar Diego ou Paquetá, para aumentar a rotação e vigor no meio-campo, Barbieri saca Vinicius Jr, o jogador mais perigoso à defesa vascaína ao lado de E. Ribeiro, para entrada de Marlos Moreno, que exerce em campo as mesmas funções do garoto da base e termina tendo participação nula.

A substituição seguinte é mais uma vez burocrática. Lincoln, ainda que mais móvel, pouco agrega ou altera a perspectiva do jogo, que caminha à um empate insosso que teve mais comoção em seu fim pelo barraco gerado pelos jogadores e um descontrolado juiz no uso de seus poderes, do que do futebol apresentado pela equipe.

Mas o jogo serve novamente, para se pôr em cheque qual real autoridade de Barbieri sobre o elenco. Por que sempre as mesmas mudanças burocráticas, em peças que não tem voz ou peso entre os outros jogadores? Por que medalhões continuam com vagas cativas, ainda que não tenham boa performance? Como os jogadores conseguem entregar jogo tão intenso na quarta-feira e outro tão morno ao sábado? Falha de planejamento e monitoramento da condição física dos atletas pelo Departamento Médico, que não se comunica ou não retrata à Comissão Técnica que a demanda de esforço está desgastando jogadores muito antes do aceitável do período da temporada? Ou falta de consideração do técnico e auxiliares aos avisos? Ou poderá ser descompromisso e displicência dos jogadores em jogos que não tenham “grande valor ou repercussão”?

Esses são os questionamentos que devem ser feitos e solucionados antes do início da Copa do Mundo, para que os rumos do restante de 2018 ainda sejam promissores e não o atual prenúncio de desastre.


 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04
 

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