A primeira Taça Guanabara, para lembrar e nunca esquecer

A primeira Taça Guanabara, para lembrar e nunca esquecer

Muitos torcedores não sabem, mas a Taça Guanabara já foi, em seu início, um campeonato à parte do Estadual. Entre 1965 – ano de sua primeira disputa, em comemoração ao Quarto Centenário de fundação da cidade do Rio de Janeiro – e 1971 (com uma breve volta ao formato no ano de 1980), a competição era disputada ora antes, ora depois do torneio principal, quase sempre num modelo de tiro curto, com seis ou até oito participantes, durando cerca de um mês. A exceção à essa regra aconteceu em 1970 – justamente na primeira edição vencida pelo Flamengo, cuja história contamos agora.

No blog: Carnaval Rubro-Negro com taça internacional

Era ano de Copa do Mundo, abrindo uma fenda de pouco mais de 20 dias bem no meio de um calendário o qual nos últimos anos já vinha comportando o Campeonato Estadual e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, além da própria Taça Guanabara. A preparação cuidadosa por parte da Seleção Brasileira para enfrentar a altitude e o desgaste físico do Mundial no México também implicava em desfalcar alguns dos grandes clubes de seus principais craques. Dessa forma, esses clubes não aceitariam jogar um Estadual – competição ainda de enorme relevância na época – mutilados de seus astros.

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A solução foi passar a Taça Guanabara para o primeiro semestre, espichando-a como nunca se havia feito antes, enquanto Campeonato Carioca e Robertão seriam ensanduichados a partir do período pós-Copa, até dezembro. O resultado foi aquela que pode ser considerada, sem exagero, a maior edição do torneio em todos os tempos. Com início marcado para 3 de março e a decisão para 31 de maio, sua duração chegou a superar a do próprio Carioca (90 dias contra 86), disputado do fim de junho a meados de setembro.

Naquele ano, pela primeira vez, todas as 12 equipes que participavam do campeonato do então estado da Guanabara disputariam o torneio “aperitivo”. A tabela dividia os clubes em dois grupos, que jogariam entre si no primeiro turno, com os quatro melhores de cada seguindo adiante. No segundo, com a pontuação novamente zerada, os quatro de uma chave enfrentariam os da outra. O pior seria eliminado, e o turno final teria seis times, jogando todos contra todos, novamente com os pontos contados do zero. Em vez de ser um turno, a Taça Guanabara teria três turnos. Seria um campeonato de fôlego.

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E fôlego parecia não faltar ao Flamengo, que havia acabado de conquistar o Torneio Internacional de Verão do Rio de Janeiro, superando o Vasco (2 a 0), o Independiente argentino (6 a 1) e a seleção da Romênia (4 a 1) com um futebol de marcação adiantada, pressão na saída de bola e luta incessante em todos os setores do campo. Tanta bravura e dedicação demonstrada pelos devotados comandados de Yustrich – técnico extremamente rígido, mas também paternalista – tinham um preço, no entanto.

Em parte pela intensa carga de treinamentos, em parte pela violência dos adversários, o elenco passou a sofrer sucessivas baixas. Na estreia na Taça – 0 a 0 com o Botafogo em autêntica batalha campal – o Fla perdeu por lesão os zagueiros Washington (atingido no calcanhar pelo centroavante alvinegro Roberto Miranda) e Tinho, mais o atacante Dionísio (seu artilheiro até então, cobiçado pelo Corinthians). Depois perderia o argentino Doval, também contundido, e o atacante Nei, que operaria o joelho, além do jovem ponta-esquerda Arílson convocado por Zagallo para a preparação da Seleção para a Copa. Sem falar no experiente zagueiro Brito, já ausente do time pelo mesmo motivo desde janeiro.

A primeira crise

Aos poucos, o treinador rubro-negro fazia um trabalho de reposição de peças. Lançava garotos (como o centroavante Adãozinho), aproveitava ex-juvenis (casos de Zanata, Tinteiro e Ademir) e utilizava atletas que ele mesmo havia trazido do futebol mineiro, como o goleiro Adão e o ponta-esquerda Caldeira. Assim, o time fazia o possível, na base da luta, garra e disposição, para não deixar cair o ritmo. O que vinha conseguindo, até a primeira derrota: 1 a 0 para o America, em 29 de março, num jogo em que o Flamengo teve Murilo e Caldeira expulsos. A este tropeço seguiu-se outro: 1 a 0 para o Bonsucesso (ainda haveria um terceiro, ao perder para o Coritiba em amistoso na capital paranaense). E as mesmas vozes que exaltavam Yustrich como revigorador do time passaram a condenar seus métodos.

taça gb 1970 - faixas

Mas a sequência de maus resultados parou por aí. O Fla perdeu quando pôde e saiu do princípio de crise com vitória pelo placar mínimo, sobre um bom time do Olaria, na abertura do segundo turno. E pareceu embalar de vez em um triunfo redentor sobre o Fluminense com gol de Adãozinho, em 19 de abril, em partida na qual brilhou um jogador que no começo do ano esteve até para deixar a Gávea – mas, felizmente para os rubro-negros, não apareceram interessados em seu passe: o paraguaio Reyes, meia de origem, mas que se reinventou como zagueiro durante a excursão de um time misto rubro-negro ao Japão.

Reyes, no entanto, se envolveria em lance pitoresco que entrou para o folclore do futebol carioca no jogo seguinte, contra o Bangu. Com a bola dominada, o zagueiro era observado à distância pelo atacante banguense Dé, que chupava uma pedra de gelo para amenizar o forte calor que fazia naquele 25 de abril. Para o espanto geral, o “Aranha” atirou a pedra contra a bola, tirando-a do controle de Reyes, e marcou o segundo para os alvirrubros numa surpreendente goleada de 4 a 0.

Deixou chegar

Apesar do vexame, não houve maiores dramas. Um empate sem gols com o Vasco na última rodada serviu para garantir o Fla no turno final. E aí não houve mais quem segurasse, em um velho exemplo da mística do “deixou chegar”.

O time estreou batendo o mesmo Cruzmaltino por 2 a 0, dois gols de Fio no segundo tempo, quando o time já jogava com um a menos – Tinho fora expulso aos 35 minutos da etapa inicial. Depois, vingou-se do Bangu, fazendo 3 a 1, com dois de Arílson – de volta após ter sido cortado da lista final dos 22 de Zagallo – e outro do futuro “Maravilha”. Na terceira rodada, foi a vez do Botafogo: 2 a 1, gols de Zanata cobrando pênalti e Doval. A próxima vítima foi o America, em nova vingança: 2 a 0, gols de Ademir e Rodrigues Neto, no resultado que permitiu ao Flamengo jogar pelo empate contra o Fluminense, na última rodada, para levantar o caneco pela primeira vez.

E, diante de mais de 106 mil torcedores, ele veio: 1 a 1. Os rubro-negros saíram na frente com Fio aos 43 do primeiro tempo. Permitiram a igualdade tricolor com Jair, aos três da etapa final. Perderam Ademir e Arílson lesionados. Mas com raça, fibra e espírito de luta, bem ao estilo Yustrich, garantiram o resultado e conquistaram a primeira Taça Guanabara da história do clube. A massa vibrou. O treinador – rígido quando necessário, mas emotivo na mesma medida – chorou.

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Outras 19 conquistas da taça viriam depois, tornando o Flamengo o maior vencedor do torneio, disparado. Acumularam-se também histórias memoráveis, como o show de Caio “Cambalhota” nos 5 a 2 sobre o Fluminense em 1972; os gols decisivos de Adílio contra o Vasco em 1982 e de novo contra o Flu em 1984; o dia em que o zagueiro botafoguense Márcio Teodoro virou “Teadoro” em 1995; o pênalti espírita de Cássio contra os tricolores em 2001; a virada com “chororô” alvinegro em 2008… Neste domingo, o time enfrenta o Boavista – batido na decisão de 2011 – de olho no 21ª triunfo.

O jogo do título da primeira Taça Guanabara rubro-negra:
FLAMENGO 1 x 1 FLUMINENSE
Taça Guanabara – turno final – última rodada
Data: 31 de maio de 1970
Local: Maracanã
Público: 106.515 pagantes
Renda: Cr$ 568.746,50
Árbitro: José Mário Vinhas.
Gols: Fio aos 43 do 1º tempo (1-0); Jair aos 3 do 2º tempo (1-1).

Flamengo: Adão – Murilo, Washington, Reyes e Paulo Henrique – Liminha e Zanata – Ademir (Rodrigues Neto), Adãozinho, Fio e Arílson (Caldeira). Técnico: Yustrich.

Fluminense: Jairo – Oliveira, Galhardo, Assis e Toninho – Denílson e Didi – Cafuringa, Flávio, Jair e Lula. Técnico: Paulo Amaral.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.

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