Para os rubro-negros mais antigos, um dos Carnavais mais felizes foi o de 1959. Numa sexta-feira de folia como hoje, também no início de fevereiro, o Flamengo conquistava um grande título, pelos adversários tradicionais que enfrentou e pelas condições adversas que teve de superar. Injustamente pouco lembrado, o Torneio Hexagonal de Lima merece ter sua história contada e recontada.

O torneio foi anunciado no fim de dezembro de 1958, pouco depois do Natal, como parte de uma temporada de jogos internacionais a ser realizada na virada do ano na capital peruana. Ainda impressionados com as grandes exibições do Fla em Lima no início daquele ano, os cartolas logo trataram de confirmar a participação rubro-negra no certame, que também contaria com os uruguaios do Peñarol, os argentinos do River Plate e os chilenos do Colo Colo, além da dupla local Alianza e Universitario.

Na ocasião, o Flamengo ainda disputava a reta final do Campeonato Carioca, que se estenderia até 17 de janeiro. Ao fim dos pontos corridos, houve um empate triplo entre os rubro-negros, o Vasco e o Botafogo (ainda que o Fla terminasse com o melhor ataque e a melhor defesa do torneio, os números não foram considerados para efeito de desempate), obrigando a realização de um triangular, chamado de “supercampeonato”, que também terminou igual. Foi preciso então um segundo triangular, o “supersupercampeonato”, encerrado com o título dos cruzmaltinos.

Essas etapas extras decisivas provocaram, além do desgaste físico e mental dos jogadores rubro-negros, a necessidade de adiar a entrada do Flamengo no Hexagonal de Lima. O pedido de adiamento foi aceito pela organização, e o time embarcou no Galeão no dia 21 de janeiro, enquanto o torneio já estava em andamento na capital peruana. Com a tabela remarcada, a primeira partida do Fla, que seria contra o Universitario peruano, passou a ser contra o fortíssimo Peñarol, campeão uruguaio, e que no ano seguinte venceria a primeira edição da Taça Libertadores da América.

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A estreia, na sexta-feira, dia 23, não foi muito favorável aos rubro-negros, ainda se ressentindo do cansaço causado pela maratona da reta final do Carioca. Ainda que o time até fizesse boa partida, especialmente com Moacir no setor de criação, foram os uruguaios abriram o placar na etapa final com Cuccinello, aos 17 minutos e confirmaram a vitória com tento de Borges aos 44. Para piorar, ainda no primeiro tempo o volante e capitão Dequinha, esteio do meio-campo rubro-negro, lesionou-se e teve que deixar o campo substituído pelo zagueiro Pavão (que vinha sendo poupado), passando Milton Copolilo para o meio.

Ataque do Flamengo 1959

Para a partida seguinte, agora sim contra o Universitario, uma das forças do futebol peruano, Fleitas Solich mexeu no time. A saída de Dequinha manteve no time titular a alteração feita durante o jogo com o Peñarol, com a entrada de Pavão na zaga e a passagem de Milton Copolilo para o meio. Além disso, Dida seria enfim lançado desde o início na ponta de lança, passando Luís Carlos para o lado direito do ataque no lugar de Othon. Um pouco mais descansado e aclimatado, e sem se intimidar com a torcida do time da casa, o Fla matou o jogo logo no primeiro tempo, com Milton Copolilo marcando o primeiro, concluindo jogada de Moacir e Babá, e depois Dida anotando o segundo, após passe de Moacir.

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O Colo Colo, adversário seguinte no dia 28, vinha decepcionando no torneio (apanhara de 5 a 0 do Peñarol em seu jogo anterior) e pretendia reagir diante do Fla, contando com a experiência do goleiro Escuti e do atacante Jorge Robledo. O azar dos chilenos foi que os rubro-negros começaram arrasadores. Em 22 minutos, Escuti já havia buscado a bola no fundo de suas redes por quatro vezes. Luís Carlos marcou aos cinco minutos, Moacir aos 10 e Babá aos 16 e 22. Na etapa final, com o Flamengo já cansado, o adversário descontou para 4 a 2 com Hormazábal e Rodriguez. Com o time alcançando a liderança do torneio, os jogadores teriam enfim alguns dias de descanso, voltando ao campo do Estádio Nacional de Lima somente dali a seis dias para enfrentar o River Plate, em jogo isolado.

Os Millonarios já viviam o segundo ano do que seria seu maior jejum de todos os tempos (campeões em 1957, só voltariam a comemorar em 1975, 18 anos depois), mais ainda reuniam um bom punhado de ótimos jogadores, remanescentes da equipe tricampeã nacional em 1955-56-57, que ficou conhecida como “La Maquinita”. Eram os casos do goleiro Carrizo, do zagueiro Ramos Delgado (que mais tarde jogaria no Santos), o lateral Vairo, o meia De Bourgoing (que depois de defender a seleção argentina, migraria para a França, atuando pela seleção de lá na Copa de 1966), o centroavante Menéndez e o ponta Zárate. O técnico era outro nome histórico do futebol platino, José Maria Minella.

Nenhum destes craques, entretanto, conseguiu conter a atuação espetacular do Flamengo, que começou a se desenhar perto do fim do primeiro tempo, quando primeiro Luís Carlos aos 42 e depois Henrique aos 44, em escapadas pelas pontas e chutes cruzados, levaram os rubro-negros em vantagem para o intervalo. Na etapa final, o River ensaiou reação quando Menéndez descontou aos 16. Mas logo no reinício do jogo, Henrique passou a Moacir, que lançou Babá e este devolveu a Henrique para bater e marcar o terceiro gol rubro-negro. E aos 24, Babá fechou a goleada depois de um drible desmoralizante em seu marcador.

Após a “vitória justa, insofismável e sem apelação”, que consagrou o “domínio técnico, tático e territorial” do Flamengo sobre o River Plate, segundo a crônica do Jornal dos Sports, o time enfim chegou à liderança isolada do hexagonal, com seis pontos ganhos, contra cinco do Peñarol e do próprio River (que já encerrara sua participação) e quatro da dupla peruana Universitario e Alianza. Na última rodada, dia 6 de fevereiro, sexta-feira de Carnaval no Rio, Peñarol e Universitario disputariam a preliminar, enquanto o Flamengo – com Dequinha de volta, mas agora desfalcado de Dida – fecharia o torneio encarando o Alianza, clube mais popular do Peru, no Estádio Nacional de Lima.

O empate em 2 a 2 no jogo de abertura levou temporariamente o Peñarol aos mesmos seis pontos do Flamengo, que passou a precisar de pelo menos a igualdade diante do Alianza. Entretanto, empurrados por sua torcida que lotou o estádio, os jogadores peruanos foram para cima e marcaram logo aos sete minutos, numa falha do goleiro Fernando. O Fla tentava reagir e dominava as ações ofensivas, mas esbarrava na defesa peruana. E ainda sofreria o segundo gol, pouco antes do intervalo. Na etapa final, antes dos dez minutos, o Alianza já chegava a incríveis 3 a 0, para o delírio do público local.

Talvez neste momento os deuses do futebol tenham enfim achado que o placar já era absurdo e injusto demais para o que se desenrolava dentro de campo. E decidiram virar a sorte do avesso: Manoelzinho, o reserva de Dida que por muito pouco sequer teria sido incluído na delegação que embarcou para Lima, recebeu de Babá e descontou um minuto depois do terceiro gol peruano. Mais cinco minutos e outra vez Manoelzinho balança as redes, escorando de cabeça um escanteio. Aos 16, outra vez o pequenino Babá, jogando uma enormidade, passa a Manoelzinho, que empata o jogo e silencia o Estádio Nacional.

O ataque rubro-negro troca de posição incessantemente, atordoando a defesa do Alianza. E apenas um minuto depois do empate, Manoelzinho solta uma bomba que o goleiro Bazán não consegue segurar e dá rebote. Henrique, com a valentia de sempre, fuzila de primeira, com a canhota, e completa a virada inacreditável do Flamengo. Em menos de dez minutos, o time sai de um 3 a 0 contra para uma vantagem de 4 a 3 na casa do adversário, com estádio lotado. Ainda petrificada com a rápida reação rubro-negra, a torcida limenha apenas assiste ao Fla trocar passes e dar olé pelo resto do jogo. E ao apito final, sai do transe hipnótico para aplaudir a formidável exibição dos cariocas no segundo tempo.

Ao fim do torneio, o conceituado jornalista francês Gabriel Hanot, um dos idealizadores da Copa dos Campeões (atual Liga dos Campeões) europeia, escreveu para o famoso diário “L’Equipe” suas impressões a respeito do torneio que assistira in loco em Lima. Sobre o Flamengo, comentou que embora os rubro-negros não estreassem com o pé direito, “fartaram-se de jogar com objetividade, animados por um estilo incontrolável. Apresentaram-se visivelmente cansados. Bastou, no entanto, que se refizessem, para transporem as dificuldades surgidas. É uma equipe possuidora de excepcional espírito de luta, desconcertante na sua agilidade física e mental”, destacou Hanot.

A delegação rubro-negra desembarcou no Rio no dia seguinte à decisão, um sábado de Carnaval. Junto à torcida em êxtase, os jogadores curtiram a folia como campeões.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.

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