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Ao longo da história, Flamengo e River Plate se enfrentaram 15 vezes e apenas uma partida aconteceu em campo neutro: logo o primeiro confronto, válido pelo Torneio Hexagonal de Lima de 1959 (cuja história foi contada aqui há duas semanas) e que terminou em goleada rubro-negra por 4 a 1. Nas demais, foram oito duelos na Argentina (todos no Monumental de Nuñez) e seis no Brasil (todos no Maracanã). A história destes jogos aqui, tendo o Fla como mandante – a exemplo do que ocorrerá na próxima quarta, na estreia de ambas as equipes na atual edição da Taça Libertadores da América –, é a que abordaremos nesta coluna.

1959

O primeiro confronto no Rio veio pouco menos de 11 meses depois da partida em Lima. Num amistoso disputado a dois dias do Natal de 1959, o Fla venceu o River por 2 a 1 e promoveu duas estreias de garotos bastante talentosos no time principal: um era o meia Gerson, de fabulosa habilidade com a canhota, escalado naquela noite como substituto de Dida. Outro era o ponteiro Germano, irmão mais velho de Fio Maravilha, e que dentro de poucos anos chegaria à Seleção e seria vendido ao Milan. No River, por ironia, atuava um ex-rubro-negro: o meia-atacante Paulinho, lançado na Gávea pelo técnico Fleitas Solich em 1954 e que deixaria seu nome marcado no lendário segundo tri carioca (1953-54-55) ao marcar o gol do título do segundo campeonato e terminar como artilheiro do terceiro.

O Flamengo teve domínio total no primeiro tempo, mas só abriu o placar aos 38 minutos, com Henrique recebendo de Luís Carlos e tirando três defensores do lance com um drible antes de finalizar. Na etapa final, o Fla ampliou aos 10, com outra grande jogada individual de Henrique, antes de passar a Gerson, que fuzilou o goleiro Carrizo. Com a vantagem o jogo ficou morno, e o River aproveitou para descontar aos 18 numa jogada iniciada pelo ex-rubro-negro Paulinho (que entrara durante a partida) e terminada com chute de Menéndez. Mauro, goleiro rubro-negro, pulou atrasado e não conseguiu evitar que a bola entrasse.

1982

O segundo confronto no Maracanã veio na única ocasião anterior em que as equipes estiveram frente a frente pela Libertadores, no triangular semifinal da edição de 1982. Atual campeão, o Fla estreou perdendo por 1 a 0 para o Peñarol em Montevidéu, mas se reabilitou batendo o River por 3 a 0 dentro do Monumental de Nuñez. A vitória sobre os Millonarios no Maracanã (numa terça-feira, feriado de Finados, 2 de novembro de 1982) era fundamental para manter vivo o sonho do bi continental.

O Fla abriu o placar aos 28 minutos, quando Tita interceptou uma saída errada de Olarticoechea e encobriu o goleiro Puentedura. Um golaço. Na etapa final, aos seis minutos, uma troca de passes espetacular entre Junior, Lico e Zico terminou com a finalização do lateral na saída do goleiro, ampliando para 2 a 0. O River descontou numa jogada de sorte de Alzamendi (ponta uruguaio que andou cobiçado pelo próprio Fla), que chutou em cima de Marinho no primeiro lance, mas a bola voltou para ele, que bateu rasteiro, cruzado.

Mas o Fla reagiu logo no minuto seguinte, com Junior cruzando para a cabeçada inapelável de Zico, fazendo o terceiro. O River voltou a descontar aos 31, outra vez com sorte: o chute de Bulleri desviou em Figueiredo e enganou Cantarele. Mas no fim, Adílio fez grande jogada pela ponta esquerda, driblou seu marcador, tirou o goleiro e chutou para o gol. A bola ainda desviou no centroavante Ronaldo Marques antes de entrar.

1991

Nove anos depois, os dois clubes voltaram a se enfrentar por uma competição sul-americana – agora a Supercopa dos Campeões da Libertadores. Na primeira fase o Fla havia despachado o Estudiantes. Nas quartas de final, fora derrotado pelo River Plate, dirigido pelo ex-zagueiro Daniel Passarella, por 1 a 0 no jogo de ida, no Monumental de Nuñez. Precisava, portanto, vencer. Por um gol de diferença para levar a decisão aos pênaltis, ou por dois ou mais para se classificar direto.

Poderia ter aberto vantagem ainda no primeiro tempo caso o árbitro chileno Enrique Marín não deixasse de marcar dois pênaltis claros: um quando Claut puxou a camisa de Gaúcho e outro quando o zagueiro Guillermo Rivarola cortou com o braço um cruzamento de Charles Guerreiro. Mas logo no início da etapa final, de modo arrasador, balançou as redes duas vezes. Primeiro a um minuto, na tradicional e certeira jogada de linha de fundo com Piá cruzando para a cabeçada de Gaúcho. Depois aos 11, com o centroavante tocando de cobertura após receber lançamento de Zinho.
O erro foi recuar para garantir a classificação. Aos 27 minutos, Toresani – o mesmo jogador que havia marcado o gol argentino na partida de ida – percebeu um clarão no meio da defesa rubro-negra e chutou no canto de Gilmar, descontando. A decisão foi para os pênaltis (na época, um trauma para clubes e seleções brasileiras). E o Flamengo não fugiu à regra: Uidemar chutou fraco para a defesa de Comisso e Junior isolou sua cobrança por cima do travessão. E o River venceu por 4 a 3.

1993

O troco viria dois anos depois, na mesma competição, na mesma fase e do mesmo modo. Até os placares se repetiram, mas agora com os vencedores invertidos. Na ida, no Monumental de Nunez, o River venceu por 2 a 1, com o zagueiro Rogério marcando o gol rubro-negro. Na volta, o Fla venceu por 1 a 0 com outro tento de Rogério, cabeceando um cruzamento de Marcelinho da linha de fundo pelo lado direito aos 38 minutos de jogo. Antes da decisão nos pênaltis, entretanto, muita coisa aconteceu.

O árbitro da partida era o uruguaio Ernesto Filippi, de amarga memória para os rubro-negros desde que garfou o Fla na eliminação para o Boca Juniors nas quartas de final da Taça Libertadores de 1991. Naquela noite de 27 de outubro de 1993, ele voltou a aprontar das suas. Logo aos 50 segundos da etapa final, Filippi expulsou o atacante Edu Lima. Depois, aos quatro minutos, deixou passar um pênalti claro em Casagrande. O Fla ainda ficaria com nove depois que Marcos Adriano também foi expulso juntamente com Ariel Ortega.

O que se seguiu foi uma decisão maluca e angustiante nos pênaltis: depois de convertidas as duas primeiras cobranças para cada lado, o jovem atacante Magno perdeu o seu para o Fla, mas Gilmar compensou ao parar o chute de Silvani. Só que o volante Éder Lopes também desperdiçou sua cobrança. Para a sorte do Fla, Hernan Díaz chutou no travessão e perdeu a chance de colocar o River em vantagem. Depois que até os dois goleiros cobraram (e converteram), Gélson Baresi fez o sexto gol rubro-negro em oito cobranças e, em seguida, Gilmar foi herói outra vez ao defender o chute de Corti, dando a vitória e a vaga ao Fla.

2000

As duas últimas vezes em que Flamengo e River Plate se enfrentaram por aqui não trazem boas lembranças. Depois de quatro vitórias em quatro confrontos, os rubro-negros foram derrotados duas vezes em casa no mesmo ano pela mesma competição, a Copa Mercosul de 2000. O primeiro duelo foi em agosto, pela fase de grupos. A partida de estreia do time naquela edição do torneio foi também a primeira do recém-contratado atacante Edílson pelo Flamengo. Mas não houve o que comemorar.

Partindo para cima desde o início, mas deixando a defesa muito vulnerável aos contragolpes do River, o Fla saiu atrás no marcador logo aos 12 minutos, depois que o zagueiro paraguaio Sarabia pegou a sobra de uma jogada ridiculamente confusa na área. O time de Carlinhos seguiu apertando, e o estreante Edílson carimbou o travessão. Mas o gol de empate não saía, com os argentinos fechados na defesa. Até que aos 11 minutos da etapa final, Petkovic apanhou o rebote de uma falta que ele mesmo havia cobrado e bateu seco, no canto do goleiro Bonano. Com o empate, o time foi ainda mais para cima, buscando a virada.

Só que, mais uma vez, deixou a defesa descoberta. E num contra-ataque após bola perdida no meio-campo, aos 23 minutos, Cardetti apareceu livre no lado direito da defesa rubro-negra e, quase sem ser incomodado, avançou até a área, batendo na saída de Julio César, dando a vitória aos visitantes. Depois daquele jogo, no entanto, o Fla se recuperou e fez boa campanha naquele Grupo A (incluindo um empate em 0 a 0 com o mesmo River no Monumental de Nuñez), garantindo sem sustos a classificação como o melhor dos três segundos colocados que avançavam.

E quem seria o adversário do Fla logo nas quartas de final? De novo, o River Plate. De lá para cá, algumas mudanças: após uma sequência de derrotas pelo Campeonato Brasileiro, Carlinhos deu lugar a Zagallo, que estreou em grande estilo, comandando um inesquecível 4 a 0 sobre o Vasco. A goleada no clássico foi inebriante. Mas a ressaca chegaria quatro dias depois. A euforia começaria a se transformar em irritação com o atraso de meia hora do River para entrar em campo. Frio, o Fla fez primeiro tempo sonolento.

Na etapa final, logo aos seis minutos, Aimar achou Saviola se infiltrando na defesa, e o atacante tocou na saída de Julio César. Mesmo confuso em campo, o Fla conseguiu empatar aos 20, quando Juan, na segunda trave, cabeceou decidido um escanteio fechado cobrado por Petkovic. Só que aos 38, numa bola quase perdida, que aparentemente sairia pela lateral ou pela linha de fundo, Zapata correu mais que Maurinho e cruzou para Ortega concluir de primeira e dar nova vitória aos Millonarios.

No jogo de volta, o Flamengo chegou a estar três vezes à frente no marcador e vencia por 3 a 2 até os 44 minutos do segundo tempo, e com nove homens em campo, num resultado que levaria a definição para os pênaltis. Mas o River ainda conseguiu o empate e a virada, selando a classificação no último confronto entre as duas equipes até o da próxima quarta-feira.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.

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