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Por Fernando Gheiner

Em uma noite de sexta feira atípica ao futebol, um jogo marcado para 21:30 da noite da seleção de Tite contra a Bolívia pela abertura da Copa América fez do Morumbi palco de novo recorde nacional: R$ 22,4 milhões de arrecadação, com preço médio do ingresso a R$ 460. Leva-se algum tempo até digerir estes números.

Meio salário mínimo por pessoa, um salário por casal, dois salários em 2 horas se for uma família de quatro, fora transporte, alimentação e tudo mais. Em termos de bilheteria, foi 55% de toda renda bruta do Flamengo em 2018 de R$ 38 milhões, superou a receita de clubes como Internacional, Vasco, Fluminense, Bahia e Athletico-PR. É mais que o dobro da arrecadação que obtiveram Atlético-MG, Santos e Ceará, e 4 vezes o que venderam em ingressos Botafogo e Sport no ano passado.

Em primeiro lugar, é preciso observar o sucesso da política de elitização dos estádios, curiosamente atingindo seu auge na casa do São Paulo, que se recusou a adotar o padrão Fifa e ficou de fora da Copa do Mundo de 2014. Hoje sabe-se que os maiores beneficiários de obras desnecessárias foram esquemas fraudulentos entre empreiteiras e políticos. O resultado prático para o amante das quatro linhas foi a gentrificação de patrimônios históricos nacionais, templos do futebol descaracterizados, sem setores populares, com maiores custos operacionais e consequentemente ingressos mais caros. Torcidas que pagam mais, no Brasil, parece que apoiam menos. Sai a paixão, entra o consumidor insatisfeito.

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Em segundo lugar e mais relevante, dentro do contexto do Flamengo e do seus torcedor enquanto representatividades, vem a reflexão expressa em questionamentos: o ponto foi “fora da curva” esperada de arrecadação? O Flamengo pode ter pontos de altíssima receita de forma análoga? Se sim, quais? Como o clube pode utilizar isto a seu favor sem prejuízo ao torcedor regular?

Considerando que estamos em 2019, o ponto foge à normalidade. Em 2013, a final do Atlético-MG na Libertadores superou R$ 14 milhões de arrecadação, e a final da Copa do Brasil rendeu ao Flamengo quase R$ 10 milhões apenas em seu jogo como mandante. Em 2018, a final da mesma copa do Brasil fez o Corinthians vender R$ 5 milhões e o Cruzeiro R$ 4 milhões – ou seja, menos que um jogo de 2013, sem atualização monetária. Nem é preciso citar horário e adversário, foi uma receita monstruosa fosse contra a Argentina num domingo no tradicional horário das 18:00.

Ingresso caro para ver o Brasil de Philippe Coutinho. Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Enquanto Flamengo, as políticas de elevação de preços nos anos anteriores foram questionadas e desfeitas em 2018. Pacotes de jogos até o final do Campeonato Brasileiro foram vendidos ainda no primeiro semestre deste ano, garantindo preços baixos mesmo se o Flamengo estiver na briga do título para os torcedores assíduos. Boa estratégia, estádio cheio deixa a festa mais bonita e empurra o time para decisões e títulos. Em outro acerto, o torcedor presente neste pacote de jogos terá prioridade na compra de jogos decisivos de outros torneios, mesmo se assinantes de planos inferiores do ST – um bônus justo, comum na Europa como o carnê anual de jogos.

Do outro lado, a desproporcional demanda por ingressos em fases decisivas da Libertadores e Copa do Brasil tensionam a diretoria a elevar preços e obter melhores arrecadações para o clube, o que exclui torcedores de menor renda que apoiam a equipe nas fases anteriores – mesmo com prioridade de compra, o preço de uma semi final ou final pode ser proibitivo pra quem pagar R$ 20 por jogo até o fim do Brasileirão. As questões deste tipo de jogo e estratégia, a final cara, são: 1) não há garantia que se avançará sempre até fases decisivas que permitam receitas enormes; 2) chegando e cobrando caro no ingresso, acaba-se aplicando um filtro de maior renda na torcida, o torcedor regular dá lugar ao torcedor-consumidor.

Leia também do mesmo autor: Como assim, não teve acordo?

Uma solução possível o Flamengo está encaminhando, que é a recriação de setores populares no Maracanã, sem cadeiras e com ingressos acessíveis. A grande receita do jogo entre Brasil e Bolívia, porém, pode indicar outros caminhos, a partir de algumas observações:

– Existe uma grande torcida festiva, disposta a pagar caro para ver um bom espetáculo, ou algo bem organizado;

– No futebol a garantia de bom jogo, à priori, não existe, com raras exceções;

– Não precisa ser do seu time do coração, uma Seleção Brasileira sem brilho e com rival irrelevante foi suficiente;

– Esta torcida compra ingressos com antecedência, passagem aérea, hotel. Está em todo Brasil, boa parte no interior do país, em cidades médias e pequenas;

– Pelo esforço e custo, exigem um bom padrão de atendimento, reclamam de filas;

– Estão dispostos a gastar bem dentro do estádio – o que infelizmente leva a um modelo de preços absurdos pelos produtos de sempre e não a serviços diferenciados e alimentos e bebidas de maior valor agregado.

Juntando as peças fica o devaneio: o Flamengo ter ao menos uma grande arrecadação anual em jogo festivo, onde a torcida empurrar o time seja menos relevante que o espetáculo e o resultado financeiro.

Não é fácil ter atrativo para isto, talvez seja necessário investir parte significativa da receita esperada para trazer um grande time europeu para enfrentar o Flamengo. Ou atuar como organizador, propondo um jogo claramente festivos como seleção Rio x SP (tendo o Palmeiras como parceiro principal, dá pra fazer uma ida e volta arrecadando bem). Pensando ainda na organização, por que não a Copa Mickey virar a Corcovado Cup em 2021, trazendo times de peso?

Certamente há profissionais capacitados para pensar em espetáculos mais interessantes e viáveis. A proposta, no seu cerne, é que jogos festivos e raros entrem no calendário pensando em impactar as receitas de forma substancial e dar suporte a políticas de estádio cheio e preços menores nos torneios relevantes e jogos decisivos.

É só um devaneio, mas será que vender R$ 22 milhões em ingressos contra a Bolívia igualmente não foi um devaneio que virou realidade?

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