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Números têm a óbvia limitação de não repararem dor alguma. Este é o mais importante argumento: qualquer conta, qualquer valor, é barato.

Por Fernando Gheiner – Twitter: @toddyrj

Quase duas semanas após a maior tragédia da história do Flamengo, veio mais uma decepção: o clube recusou o acordo proposto pelo Ministério Público com as famílias. Ainda que seja impossível atribuir um valor justo a uma vida, esta é uma etapa necessária no processo de reparação às vítimas de tragédias, como infelizmente temos assistido constantemente no Brasil nos últimos anos.

Nos dias que seguem o abalo inicial, há instituições envolvidas em incidentes que apontam para negligências, e ainda assim buscam fugir ao máximo de suas responsabilidades. Outras que assumem parcela de culpa sobre o ocorrido, fazendo o possível para reduzir o custo total do dano causado, buscando um equilíbrio entre realizar uma reparação e se limitar aos parâmetros financeiros internamente projetados para o acordo. E, ainda, há aquelas que não poupam esforços para amenizar uma dor sem maior, sem cura, que é a perda da vida de um filho – grupo no qual esperava ver o Flamengo.

A expectativa se justifica pela história do clube, passada e recente: um clube que sacrifica suas finanças para contratar estrelas com frequência, para tentar construir shopping, e até na hora de demitir os jogadores e técnicos mais bem pagos sem respeitar a legislação trabalhista, não vai fazer um alto “sacrifício” financeiro após 10 jovens morrerem em suas instalações, sob sua responsabilidade?

Um acordo judicial não só evita a incerteza do resultado de um processo na justiça, como acelera o recebimento do montante a ser pago para os que sofrem. Tentar ou não fazer um acordo mostra boa-fé, e conseguir costurar um acordo e posteriormente cumpri-lo seria o ideal almejado – o que sabemos que não aconteceu com o Flamengo.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O valor que o clube se negou a pagar às 13 famílias vitimadas foi de 2 milhões de indenização e R$ 10.000 ao mês por 30 anos. Ou seja, R$ 26 milhões imediatamente, e R$ 130.000 ao mês, por 360 meses, perfazendo outros 47 milhões a valor presente. O total que o Flamengo se recusou a pagar foi de 73 milhões de reais, oferecendo uma contraproposta de valor presente total de quase R$ 7 milhões de reais. Cabe notar que no acordo e no planejamento do clube, segundo a mídia, não há previsão de indenizações para as vítimas que escaparam do fogo, e seguem com apoio psicológico e médio – sinal que há reconhecimento do impacto psicológico deixado.

Provavelmente, o leitor já tem mais argumentos e números na cabeça que eu para contestar esta “economia” de R$ 66 milhões que o Flamengo tentou fazer. Vale notar que 2/3 do valor total seriam pagamentos parcelados em 30 anos, sem juros, condições melhores que qualquer Profut. Sim, caro leitor, a negociação foi para não gastar o valor próximo ao de uma grande contratação o Flamengo, que está no banco, e que esperamos ter 1 ou 2 por ano neste porte. É, também, valor igual a 40% do superavit de 2017, de 145 milhões, que tende a aumentar ano a ano se mantido o histórico recente. Ou, ainda, R$ 66 milhões é bem menos do que um jogador desses ganharia ao longo da carreira se fosse vendido nas bases salariais, por exemplo, do Jorge – em 4 anos no Mônaco, receberá EUR 8.1 milhões e sairá com 25 anos, fora o que recebeu no Flamengo, eventuais luvas, patrocínios, e o restante de sua carreira. Se o parâmetro de comparação fosse Júlio César, Juan ou Vinicius Júnior, a banca da indenização quebrava.

Números, é claro, têm a óbvia limitação de não repararem dor alguma. Este é o mais importante argumento: qualquer conta, qualquer valor, é barato, é pouco, para uma vida, ainda mais tirada nas condições observadas por todo o mundo neste triste episódio. Em 2019, para o Flamengo, R$ 73 milhões é bem pouco para o tamanho da tragédia e para as receitas atuais do clube.

Se os torcedores cansaram de dirigentes amadores, agora é hora de vermos o lado negativo de dirigentes advindos do mundo corporativo. Ignoram multas da prefeitura, ausência de laudo dos bombeiros, e relatórios anuais de fiscalização de instalações de base contundentes do Ministério Público. Fogem de entrevistas e do diálogo com a imprensa na hora que deveriam esclarecer e trazer transparência. Contabilizam o valor da vida dos outros aos mínimos possível, efetivamente ofereceram um salário mínimo por 10 anos, até os 25 anos que seriam completos pelos jovens se estivessem vivos, apenas. Encerram negociações com as famílias sem acordo pensando no risco e retorno financeiro em primeiro lugar. E vão seguir nos decepcionando neste caso a cada nova notícia, porque já se observa um padrão de comportamento claro.

Se ano passado a preocupação maior era que entender de gestão financeira não é sinônimo de entender de futebol, agora parece claro que o problema é bem maior: entender de gestão financeira não está resolvendo as maiores questões que a entidade enfrenta hoje, pelo contrário, está cegando a diretoria frente a elas. Mais que isso, esses gestores corporativos que ocuparam o clube parecem não entender o básico da escala de valores da própria organização na qual trabalham, do potencial profissional dos jovens com avaliação de mercado possivelmente bem acima do acordo, e da perda irreparável imaterial de um dia com seu filho, um mês, um ano, uma vida que ele perdeu o direito de viver, que aparentemente nem entrou na conta. Dava para ter pago, oportunidade perdida. Aliás, na mentalidade corporativa, a conta a ser evitada era sobretudo a indenização, R$ 26 milhões em 2019, porque o restante em 30 anos é absorvido no fluxo de caixa sem dificuldades: o que são R$ 130.000 ao mês hoje na folha salarial?

Para piorar, usam como exemplo a Boate Kiss, onde ninguém recebeu reparação alguma, os responsáveis não foram julgados, e seguem soltos. Um caso de impunidade e desatenção às vítimas, é isto que se escolheu usar como parâmetro, dentro do Flamengo, para ponderar como agir com nossos garotos? A base de comparação não poderia ser mais inadequada.

Bandeira de Melo saiu sem deixar saudades, sem se eleger deputado, e entregando uma bomba armada de anos de negligência e avisos ignorados nas divisões de base, pronta para explodir. Uma era marcada por evolução nos balanços e passividade no comando que esgotou a relação da diretoria com a torcida. Landim chega e consegue em dois meses algo improvável: deixar uma péssima primeira impressão, mesmo substituindo uma figura desgastada. Teve méritos para o descrédito ao conduzir uma negociação mesquinha, desumana, que desapaixona mais o torcedor do que qualquer derrota em campo.

Perdemos na ética. Perdemos na justiça. Perdemos transparência. Perdemos oportunidade de fazer o mínimo que poderíamos. Perdemos grandeza enquanto instituição. É difícil acreditar que o plano é mesmo construir um clube vencedor em campo economizando dinheiro com famílias cujos filhos foram ceifados dentro dos alojamentos das categorias de base. Não é esse o custo da vitória, não é essa nossa única opção, pelo contrário, tudo indica ser uma escolha bem ruim. Nos resta lamentar, em alto e bom som, e lutar para tentar revertê-la.

Fernando Ghiener é apoiador do MRN.


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*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Tomaz Silva / Agência Brasil

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