Rueda terá uma semana para estudar melhor o Independiente

 

Há uma rota clara para o gol do Flamengo. Não precisa de GPS, pois todo mundo conhece. A Avenida Pará é um pouco mais cosgestionada, mas chega ao destino. Na Autoestrada Miguel Trauco, por outro lado, o trânsito flui sempre sem grandes dificuldades.

Há um motivo técnico, claro, para os momentos de calafrio que a torcida passa quando o adversário chega pelos lados. Pará tem suas limitações, e Trauco tem enormes dificuldades para fechar a defesa. Se posiciona mal, demora para reagir, não consegue antecipar o movimento do adversário e é fraco tanto no bote quanto na recuperação.

Mas, além de tudo isso, há também um motivo tático. E é esse lado que vamos olhar.

Antes e depois de Rueda

Se há um setor que sofreu uma reviravolta com a saída de Zé Ricardo e a chegada de Rueda, foi a linha defensiva. Rafael Vaz e Márcio Araújo foram trocados por Juan e Cuellar, possivelmente os melhores do time nos últimos meses, mas o posicionamento também mudou bastante.

Com Zé Ricardo, o Flamengo iniciava a marcação no meio-campo, avançando algumas vezes para o campo de ataque, principalmente na tentativa de ceder pouco tempo na bola aos laterais adversários. Com isso, a linha de defesa também era obrigada a se adiantar, mantendo o time em um bloco razoavelmente sólido.

Primeiro sofremos com os cruzamentos. A defesa mal posicionada, correndo de costas, não conseguia neutralizar esse tipo de jogada. Caímos na Libertadores tomando sete gols em seis jogo, todos eles em cruzamentos. O treinador conseguiu corrigir o problema colando os nossos laterais nos pontas adversários e fazendo pressão na origem do cruzamento. Com isso, se iniciou a era dos gols por trás da defesa. Contra Palmeiras, Cruzeiro e Coritiba levamos quatro gols iguais, sempre entre o lateral e o zagueiro.

Rueda chegou e logo mudou a filosofia. Passou a jogar com uma linha de defesa muito recuada, quase sempre dentro da própria área. Minimizou assim os problemas gerados pela lentidão dos zagueiros, aproveitando o bom posicionamento e potência aérea deles.

Além disso, diminuiu a distância entre as linhas. Antes, mesmo com a defesa jogando adiantada, ainda havia muito espaço entre os zagueiros e os meias, demandando uma cobertura constante. Essa inclusive sempre foi a justificativa de Zé Ricardo para manter Márcio Araújo no time. Rueda então espremeu as duas linhas. Quando o time perde a bola, o meio-campo corre para trás, fixando uma segunda linha poucos metros à frente da defesa.  O Flamengo entrega muito terreno ao adversário em troca de anular qualquer espaço para jogar por trás dos volantes.

Por último, o treinador montou uma linha de defesa estreita, diminuindo a distância entre um lateral e outro. Em geral, Trauco e Pará ficam a uma distância equivalente à largura da grande área, com Juan e Rever entre eles. Assim, não há bola enfiada pelo meio da defesa.

Os laterais não desmontam esse posicionamento nem quando há um ponta aberto em condições de receber a bola. A marcação só acontece quando o jogador de fato recebe, pois a prioridade é fechar a casinha.

Mas futebol é um jogo de cobertor curto. Não tem jeito. Quando o time cobre um lado, necessariamente deixa outro frágil.

O mapa da mina

Com o miolo congestionado, sem opção de pivô e com um bloqueio na entrada da área, resta ao adversário explorar os corredores.

Os laterais do Flamengo marcam mal, é verdade, mas parte do desespero é culpa do posicionamento. Por precisarem manter uma defesa estreita o tempo todo, Pará e Trauco só partem para o enfrentamento dos pontas quando o adversário já tem a bola sob controle e, por isso, muitas vezes já chegam levemente vendidos no lance.

É importante notar que apesar do bumba-meu-boi causado pelos lados, o Flamengo só perdeu a disputa de um cruzamento na área uma vez: quando Gigliotti furou na cara do gol e Pará travou bravamente o rebote na marca do pênalti. Exatamente como a estratégia de Rueda prevê. O torcedor pode concordar com ela ou não, mas é importante identificar as ideias por trás do jogo do Flamengo.

Quando os argentinos tinham a bola

Mas o Independiente, diferentemente do Barranquilla, também encontrou uma alternativa para atacar o Flamengo pelo meio.

A única situação que não pode acontecer de jeito nenhum na defesa do Flamengo é um dois-contra-um pelo lado, portanto Éverton Ribeiro e Paquetá têm a obrigação de vigiar os laterais adversários bem de perto. O time argentino abriu muito não só seus pontas, mas também seus laterais, que jogavam colados nas linhas de lado, esticando o campo de jogo. Nossos pontas precisavam, então, fechar esse corredor, se afastando muito da zona central, e esgarçando a segunda linha de marcação. Arão e Cuellar tinham muito campo para cobrir, e a subida de um dos volantes deles causava problemas por ali.

Para aumentar essa sobrecarga sobre os volantes do Flamengo, Gastón Silva, teoricamente o zagueiro pela esquerda, passou a fazer corridas constantes pelo meio no início do segundo tempo, criando muitos problemas. Antes do segundo gol, que saiu aos sete minutos, Silva finalizou duas vezes.

O segundo gol aconteceu justamente pelo posicionamento de Silva. O cruzamento não chegou na área, onde Juan e Rever eram soberanos pelo alto. Quando Barco fez o drible em Éverton Ribeiro e Arão, Cuellar ficou na dúvida se deveria manter a marcação em Meza ou fazer a cobertura da ultrapassagem de Silva, que vinha entrando na área pela esquerda. A indecisão deixou o volante no meio do caminho e o resto da história já conhecemos.

Jogo da volta

O confronto está aberto. Rueda definiu uma estratégia, com seus pontos fortes e fracos que Ariel Holan soube explorar. O jogo do Maracanã será provavelmente muito diferente, com um Independiente muito mais fechado e apostando nos contra-ataques, provavelmente nas costas de Pará e Trauco, mas sem tanta posse de bola e sem desbalancear tanto o meio-campo do Flamengo.

Será um duelo tático interessante. Às vezes parece que o futebol se define apenas pela atuação individual de cada jogador: Trauco foi mal, Arão também. Mas normalmente há motivos mais sutis para isso.

Rueda terá uma semana para estudar melhor o Independiente, bloquear as avenidas pelos lados explorando também a fragilidade deles. Se futebol é mesmo cobertor curto, os argentinos terão que fazer escolhas e ficarão também vulneráveis. Como o Flamengo vai aproveitar?

Afinal, é vencer ou vencer.


Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb