“Não deu para entender essa substituição do Rueda. De uma vez só, mexeu em três posições.”

Esse foi o veredicto dos comentaristas a respeito da primeira mexida do treinador rubro-negro, colocando Vinicius Junior no lugar de Rodinei aos 14 minutos do segundo tempo. Com a troca, Pará foi jogar na lateral direita e Everton passou à lateral esquerda.

Fico imaginando o que eles diriam se assistissem às mexidas de Wenger no Arsenal ou Guardiola no Manchester City. Seriam considerados gênios ou confusos pelos nossos comentaristas? O que Rueda fez não teve nada demais: passou Pará à sua posição natural, Everton a uma posição que já exerceu dezenas de vezes (foi inclusive campeão brasileiro há oito anos jogando ali) e colocou Vinicius onde mais gosta de jogar. A ideia, absolutamente correta, tinha um impacto bastante específico em mente.

O falso 9

Sem Guerrero e Vizeu, Rueda escolheu Paquetá para jogar no comando do ataque. Não é mistério para ninguém que o jovem meia tem características completamente diferentes dos centroavantes rubro-negros e, jogando ali, atua como “falso 9”. Mas o que isso significa de fato? E como esse tipo de atacante se encaixa no jogo do Flamengo?

O falso 9 é um atacante que serve como ponto referência no ataque quando o time tem a bola atrás, jogando entre os zagueiros. Porém, quando a bola se aproxima do terço final do campo, esse jogador se desloca em direção ao meio-campo, recuando de sua posição ofigial. Sua principal função é criar uma decisão difícil para os zagueiros: se eles o acompanharem, podem deixar um espaço muito grande às suas costas, facilitando a infiltração de outro jogador; mas se não fizerem a perseguição, permitirão que o adversário tenha superioridade numérica no meio-campo.

A difícil decisão dos zagueiros

Para entender exatamente o que isso quer dizer, basta assistir aos melhores momentos de Barcelona 5-0 Real Madrid em 2010 e ver como Messi na função de falso 9 simplesmente destruiu a defesa do Real. Preste atenção na confusão dos zagueiros merengues a todo momento.

Infiltração

O que aconteceu, então?

Os zagueiros do Cruzeiro decidiram fazer a perseguição a Paquetá, sabendo que isso mataria tanto a bola longa (afinal, Paquetá não tem o domínio e a imposição física de Guerrero), quanto congestionaria o meio-campo.

O Flamengo não conseguiu aproveitar melhor esse espaço criado por causa do perfil dos seus pontas. Tanto Everton quanto Berrío jogam “por fora”, ou seja, um canhoto que joga na esquerda e um destro na direita, que têm a característica de buscar o fundo, não fazer o facão por dentro. Com isso, a única opção de infiltração era Arão.

Como foi e como deveria ser

De fato, o camisa 5 apareceu bem dentro da área em alguns momentos, mas com tanto campo para cobrir, é natural que não conseguisse ser uma opção constante. Isso explica, inclusive, o alto número de cruzamentos (33, disparado o maior desde a chegada de Rueda) e o baixo aproveitamento nesse quesito, com várias bolas sendo cruzadas “para ninguém”. Seria necessário esperar pela chegada de Arão e, convenhamos, paciência não é a principal virtude dos nossos pontas.

A entrada de Vinicius visava justamente criar um estreitamento no ataque do Flamengo, com um jogador que está acostumado a jogar em diagonal. O impacto no jogo não foi direto, pois o Flamengo não criou nenhuma chance dessa forma, mas os zagueiros cruzeirenses deixaram de fazer a perseguição a Paquetá, que passou a participar mais do jogo, aumentando a pressão. A entrada de Gabriel, é claro, destruiu essa ideia.

O Flamengo foi melhor, mas faltou criar mais alternativas, variar as opções de ataque. A defesa do Cruzeiro não parecia muito incomodada com a ideia de receber diversos cruzamentos, mesmo perdendo recorrentemente a segunda bola, como bem apontado por Luiz Portugal em conversa que tivemos no Twitter. Nosso time poderia ter, por exemplo, forçado um pouco mais a tabela pelo meio, jogada que quase deu certo em combinação entre Arão e Paquetá, que Léo salvou.


Cruzeiro

O Cruzeiro é o segundo time que mais chuta no Campeonato Brasileiro e também o segundo time que mais chuta de longe. Claramente, a ideia na final era se valer disso. Muito se falou sobre a escolha de Mano Menezes por Rafael Sóbis, barrando Raniel, e me parece que a opção do treinador se deu justamente por essa característica.

Com Robinho, Thiago Neves e Sóbis, o Cruzeiro tinha um grande poder de fogo de longa distância e queria aproveitá-lo, até pela situação vivida pelos goleiros do Flamengo. Não deu certo e Mano mudou a estratégia, fazendo substituições no sentido de aumentar a mobilidade e poder de infiltração. Por ironia do destino, foi justamente em em chute livre de fora da área que o Cruzeiro empatou, contando com contribuição generosa de Thiago.

É possível que esse também tenha sido o motivo que levou Rueda a escalar Márcio Araújo em detrimento de Cuellar. O camisa 8 tem vários defeitos (e atrapalhou muito o início da construção das jogadas quando o Flamengo tinha a bola), mas tem mobilidade e pode chegar a tempo de abafar esses chutes da entrada da área, além de cometer pouquíssimas faltas. Prefiro Cuellar para o jogo do Mineirão, não me surpreenderia se Márcio Araújo começasse a partida com a mesma ideia.

Conclusões

Foi um jogo estudado e equilibrado, com as duas equipes forçando erros do adversário. As duas defesas pareciam confortáveis com as estratégias adotadas pelos ataques rivais, o que resultou em um jogo de pouquíssimas chances.

Mano Menezes adora trancar o jogo e conseguiu fazer isso com razoável sucesso. O Flamengo pressionou, mas jogando em casa precisava fazer mais, criar mais, inventar mais. Os mineiros vieram para buscar o empate e, apesar da partida burocrátiva, conseguiram o resultado, com ou sem falha do goleiro.

Individualmente, podemos esperar mais de Diego, mas ele precisa jogar mais próximo à área. Já é claro que a presença de Márcio Araújo o prejudica na criação das jogadas e que a falta de infiltração em diagonal dos pontas também não cria situações favoráveis para o craque do time, mas é ele que precisa decidir. Everton e Vinicius também podem aparecer mais.

Juan e Arão fizeram ótima partida, com atuações sólidas e conscientes. Pará, Rodinei, Berrío e Paquetá cumpriram seus papéis – este último tendo nas costas uma tarefa dificílima. O ponto negativo fica por conta de Thiago, é claro, mas já é hora de superar.

A decisão está aberta. O Mineirão nos espera!
 

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb
 


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