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Por Lucas Lubrial – Twitter: @Lubrial
 

Ser Flamengo é uma condição especial, algo inexplicável. É difícil achar palavras pra esse sentimento que a gente se entrega de corpo e alma…

Sou soteropolitano, com imenso orgulho e amo muito minha cidade. Aqui temos uma cultura futebolística muito forte, o baiano é um povo muito apaixonado pelo esporte.

Nas cidades do interior, como Vitória da Conquista, Juazeiro, Itabuna, Brumado, entre tantas outras das 417 que compõem o território do maior estado nordestino, é uma maravilha. Geralmente o Mais Querido é o time escolhida da maioria da população desses municípios, e podemos comprovar isso com as grandes embaixadas que existem nessas cidades. Quando o Mengão é campeão, acontecem festas com direito a carreatas de comemoração e mobilizações para a exaltação rubro-negra.

Veja aqui dezenas de vídeos de carreatas rubro-negras na Bahia

Já em Salvador não é das tarefas mais fáceis. Quando rola aquela perguntinha (que nem no filme “Ó pai, Ó”) “você é  Bahia ou é Vitória, afro?”, sou firme e respondo: Sou Flamengo.

Ser Flamengo aqui é para os fortes. Temos dois grandes clubes, Bahia e Vitória, ambos atualmente na série A. Muitos torcedores do Vitória que simpatizam (ou simpatizavam) com o Flamengo, até pelas cores e uniformes parecidos, hoje são mal vistos, conhecidos como “mistos”. Existe uma grande força preconceituosa, em minha opinião, de que quem nasce no Nordeste tem que torcer por times da região. Estamos em 2018, e penso que cada um ama o que quiser, come o que quiser e torce pra quem o coração escolher. Se baiano tivesse que valorizar apenas o que é da região, jamais poderia comer um hambúrguer. Seria acarajé e abará todos os dias. Música? Só axé e pagodão.

A primeira vez que fui ao estádio, aos 12 anos, era 20 de novembro de 1993. Quadrangular final do Brasileirão aquele ano. O Vitória ganhou de 1×0, gol de Roberto Cavalo de pênalti. Naquele jogo, meu falecido tio Valmir, torcedor do Vitória, queria ir para a torcida do seu time, mas acatou meu pedido e assistimos na antiga zona mista da Fonte Nova. Queria ficar onde tivessem flamenguistas, pois estava devidamente vestido com o manto. O resultado foi ruim, fiquei triste, mas foi um dia sensacional e inesquecível.

Depois desse jogo fui a absolutamente todos aos quais o Flamengo esteve aqui em Salvador.

Piadas, brincadeiras e gozação sempre existiram e baiano faz isso muito bem. Porém, em 2008, fiquei bem incomodado com a tal faixa “Vergonha do Nordeste”, colocada no Barradão numa partida contra o Vitória, com uma seta apontando para a torcida do Flamengo. Não apenas eu, mas toda a nação e a instituição também, inclusive o Flamengo se posicionou na época.

Xenofobia: torcida do Vitória estende faixa apontando para torcida do Flamengo no Barradão. Foto Reprodução

Infelizmente isso deu início a um movimento que gera um comportamento mais hostil das torcidas adversárias com quem nasce em Salvador e que não torça para a dupla BAVI. Tabaréu, paraibaca, paga-pau de sulista, filho da Globo, entre outros pejorativos são direcionados aos torcedores do Flamengo.

O pior momento pra mim foi em 2014, numa partida do Flamengo contra o Bahia na Arena Fonte Nova. Em jogos em Salvador reunimos embaixadas do Nordeste e fazemos um evento pra receber todo o pessoal. Depois vamos de ônibus com escolta para o estádio. Naquele dia a escolta atrasou, chegamos no estádio muito próximo do horário da partida. Eu estava com uns instrumentos, e como tem um protocolo de vistoria antes de entrar, desci do ônibus com mais dois amigos antes de chegar ao estádio, já que estava engarrafado e queríamos adiantar o processo. A BAMOR, torcida organizada do Bahia, estava suspensa, mas mesmo assim membros à paisana estavam misturados aos torcedores comuns. Ao perceberem que o instrumento tinha adesivo de uma torcida organizada do Flamengo, correram atrás da gente, desferindo socos, pontapés e roubaram os materiais. Nada de mais grave aconteceu, a PM prendeu os elementos e recuperaram os instrumentos. Mas foi um grande susto.

Faço parte da FLABAHIA, embaixada do Flamengo aqui em Salvador desde 2007, que é um grupo de amigos e hoje em dia uma grande família, que se reúne pra assistir os jogos do Flamengo em algum bar, nos estádios aqui em Salvador, no Nordeste ou até no Rio de Janeiro mesmo.

Apesar das dificuldades, não abrimos mão do direito de torcer e elevar o nome do clube em todas as situações. Sofremos com o preconceito por não torcermos pelos times locais, por não termos a possibilidade de estar no estádio em todos os jogos, mas mesmo assim vale a pena, essa é nossa missão. Não recebemos absolutamente nada em troca, apenas temos o desejo de ver nossa paixão correspondida. Como falei no início, nos entregamos de corpo e alma.


Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Staff Imagens / Flamengo

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Raony Furtado é mais um cearense apaixonado pelo Mengão. Além de ser rubro-negro matuto, é professor de educação física e treinador (e massagista, psicólogo, preparador físico etc.) do gigante Marechal FC, do município de Mauriti. Siga-o no Twitter: @UrubuMatuto

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