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Entre as muitas obras fantásticas de Alfred Hitchcock, aprecio muito o filme “O Terceiro Tiro”, que foge completamente do habitual do diretor – fazer filmes com dúvidas atrozes, suspenses insuportáveis e ângulos inusitados e angustiantes. A terrível interrogação de “Shadow of a doubt”, o suspense do ônibus em movimento de “Torn curtain” e a escada sendo subida lentamente em “Psycho” passam muito longe de “O terceiro tiro”, no original, “The trouble with Harry”. O grande plot do filme é: Harry está morto e precisamos dar um jeito em seu corpo.

A comparação que faço pode ser muito criticada, mas deixo claro que não comparo, de forma alguma, a torcida do Flamengo das classes C, D e E a um cadáver. Pelo contrário. São partes muito vivas de um todo, são fundamentos desta gigantesca e centenária instituição Flamengo. Mas não só pelo que aconteceu na tragédia da Sul-Americana, como também pelo histórico da discussão Ingressos caros x Sustentabilidade financeira, é possível dizer que todos (clube e autoridades) estão “tentando descobrir o que fazer com Harry”.

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E pior: tal e qual os personagens de Hitchcock, cada um se acha o responsável pela “morte”. Sim, no filme citado, quatro habitantes de uma pequena cidade americana “disputam” a culpa da morte de Harry: um tiro que na verdade matou um coelho, uma garrafada de leite, o salto fino de um sapato de mulher. E essa discussão sobre a autoria do assassinato é realizada durante a busca pelo melhor local para se livrar do corpo.

A esta altura você percebeu que em vez de mais um suspense, o mestre produziu a sua grande comédia.

A torcida do Flamengo não está e nunca esteve morta. Mas não há como negar que, no processo de criar experiências que se paguem, tornou-se inviável ter espetáculos com preços acessíveis. Um brasileiro que ganha 1200 reais não pode dar 10% do salário por um ingresso – fora a água, a cerveja e o hot-dog enganação.

E como fazer esse brasileiro deixar uma herança, ou seja, passar o bom hábito para os filhos? Como exigir que o sujeito gaste 300 contos com uma ida ao estádio? Quem é esse cidadão que pode arcar com isto? Certamente não o das classes C, D e E.

E “o que fazer com Harry?”. “Futebol não é para pobre”, disse ao El País um dirigente atleticano das Alterosas. “Precisamos achar um local no Maracanã que possa custar 20 reais”, sugere outro dirigente, alhures.

Em 2001, entrevistei o executivo Alexandre Loures para o diário LANCE!, onde trabalhei. E em uma entrevista extremamente lúcida, Loures falou da evolução dos custos do esporte (arenas, salários de jogadores que atraiam a torcida, centros de treinamento), das novas fontes de custeio (a TV, já sedimentada desde 1987), e do perfil do futuro torcedor. Loures me dizia, já naquele tempo, que em 15 ou 20 anos a ida ao estádio se tornaria mais cara, porém com uma experiência mais atraente – lojas, quiosques, outras fontes de lazer, venda de camisas nas arenas etc. Para o executivo, era inevitável o bilhete encarecer, por causa dos altíssimos custos de aluguel de uma arena.

Tal tendência se verificava nos estádios europeus, todos com ingressos caríssimos. Mas isto em sociedades em que a renda é acima de tudo, gerada. Não adianta falar em distribuição de renda sem gerar riqueza – na Europa se gera e, assim, é possível ter patamares de preços em que a aquisição do ingresso não é necessariamente excludente pelo bolso – e sim pela esperteza: quem entra no site e compra primeiro, leva.

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Assim, quando o modelo brasileiro de sustentabilidade financeira entrou em cena – não por culpa do Flamengo, dos azuis, amarelos, verdes ou roxos – é claro que haveria uma consequência natural. É assim que “achamos o corpo de Harry”, ou seja, o corpo do poder aquisitivo de grande parte da massa que compõe o Ethos Flamengo.

“É a economia, estúpido”, diria James Carville, marqueteiro de Clinton. Costuma usar pouco essa frase, e em poucos casos, porque considero a questão cultural uma causa da econômica. Mas neste caso é simples: o Flamengo precisa pagar seus boletos. Não há como discutir isso.

Mas de que será composto, de que caldeirão de culturas se define este Flamengo com boletos pagos mas sem o desdentado segurando Mengo tu é o maior na capa da Placar de junho de 1980? Que identidade queremos?

Na final da Sul-Americana, alguém tentou “esconder o corpo de Harry” – e, com o discurso da diretoria excludente e ingressos caros, despertou nos rubro-negros legítimos mas sem dinheiro a revolta meio bolchevique: sócio-invasão é algo com um mote irresistível. Coloque-se no lugar deste torcedor: “Eu vinha quatro vezes por mês ao Maraca torcer pelo Flamengo, e com esse preço não dá para eu ir nenhuma. A diretoria só tem playboy, milionário, querem me excluir porque têm vergonha de mim. Vou lá invadir porque tenho poder”. Está pronto, não o sócio-invasão, mas o sócio-militante.

Só que nesse caso, tal e qual acontece no filme, Harry é enterrado no meio da sala, trazendo perigo para todos: para o clube, institucionalmente, no noticiário por causa de confusões. Para o sócio-torcedor, que decide cancelar por medo de novos tumultos. Para os outros torcedores que tinham como pagar e nada têm a ver com isso.

Essa dinâmica tende a se repetir. Porque acima de tudo é muito fácil insuflar a revolta de pessoas que são alijadas subitamente de um hábito tão arraigado quanto o de torcer para o Maior do Mundo.

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O Flamengo precisa descobrir como lidar com os filhos que não têm mais conseguido carregar (na verdade, são filhos que sempre carregaram o Flamengo). Esta questão de sustentabilidade pode afetar todos os clubes – mas por sua enorme massa, afeta mais ao Flamengo. É urgente encontrar soluções para a Experiência Estádio (não vender ingresso no local em hipótese alguma, bloqueios, formas de subvenção por patrocinadores).

Sobre o último típico deste parêntese, vou mais além: deveríamos quem sabe criar uma categoria patrocinada para o Sócio-Torcedor. Empresas teriam sua marca em camisas, cartão e visibilidade nas mídias rubro-negras em troca de bancar integralmente, digamos, 120 mil ingressos ao mês. Que seriam distribuídos mediante um cadastro feito de acordo com a situação social do torcedor. Se tem um clube que precisa, pode e deve entrar na questão das subvenções sociais, este clube é o Flamengo.

“Harry” não morreu, e não vai morrer. Precisamos parar de buscar as razões de sua “morte”, parar de tentar escondê-lo e buscar uma forma de reintegrá-lo, com objetividade, sustentabilidade e sem demagogias populistas e paternalistas. O Flamengo precisa.


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.


 

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