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Uma declaração do ex-jogador e atual comentarista Juninho Pernambucano tornou-se a grande polêmica a se arrastar pelos dias que se seguiram à eliminação do Flamengo no Campeonato Carioca de 2018. Ao atrelar a saída do lateral piauiense Renê do time titular para o clássico ao preconceito existente contra nordestinos que perpassa não só o futebol, mas a sociedade brasileira, dividiu até mesmo rubro-negros.

Uns concordaram com o comentarista, chamando a atenção para a necessidade de reflexão para uma questão maior, que transcendia o jogo. Outros acreditaram que ele, como ídolo vascaíno e por seu recente envolvimento em outra polêmica com torcedores do Fla, quis apenas destilar ódio e rancor ao desviar o foco de uma questão técnica para envolver o clube numa acusação infundada e improcedente.

No blog: Nos 60 anos de Tita, alguns momentos em que ele honrou o Manto

Independentemente do lado em que o leitor (ou mesmo o blogueiro) se posicione, é importante lembrar a longa tradição de jogadores nordestinos que vestiram e honraram o Manto. Alguns torcedores citaram a recente idolatria ao zagueiro cearense Ronaldo Angelim. O Memória Rubro Negra, no entanto, prefere se ater a um momento bastante particular do futebol rubro-negro, no qual os craques daquela região tinham presença expressiva no elenco, talvez a maior em um clube fora do Nordeste em todos os tempos.

Era o Flamengo de meados dos anos 50, presidido por Gilberto Cardoso e treinado pelo paraguaio Manuel Fleitas Solich. Um Flamengo vencedor, tricampeão carioca de futebol (e decacampeão no basquete, dirigido pelo paraibano Togo Renan Soares, o Kanela), que arrastava multidões ao Maracanã, e cujos feitos eram transmitidos a todo o Brasil pelas ondas potentes do rádio. Uma equipe que arrebanhou milhões de novos rubro-negros – muitos deles nordestinos, como os sete craques que apresentamos a seguir.

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O primeiro da turma a chegar foi Aluísio Francisco da Luz, o ÍNDIO, paraibano de Cabedelo. Fez seu primeiro jogo no time de cima aos 18 anos, em 1949, mas só começou a despontar mesmo na temporada de 1951. Atacante inteligente, podia atuar tanto como centroavante, abrindo espaço nas defesas adversárias, quanto como ponta-de-lança, vindo de trás. Era também exímio cabeceador.

No tri, foi titular nas três campanhas vitoriosas, além de artilheiro do time na conquista de 1954. Gostava dos clássicos: marcou ao todo 34 gols em 64 jogos contra Vasco, Fluminense, Botafogo e America. Foi ainda o autor do gol da vitória de virada (2 a 1) que quebrou um jejum rubro-negro de mais de seis anos sem derrotar os cruzmaltinos. Convocado para a Copa do Mundo de 1954, atuou apenas contra a Hungria.

Três anos depois, no entanto, foi fundamental para a classificação do Brasil para o Mundial da Suécia, no qual o time canarinho levantaria seu primeiro título: nas Eliminatórias contra o Peru, marcou o gol brasileiro no empate em 1 a 1 em Lima e sofreu a falta que, em cobrança de Didi, deu a vitória por 1 a 0 e a classificação ao Brasil. Logo depois daqueles jogos, porém, foi negociado com o Corinthians.

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Para descrever o futebol de José Mendonça dos Santos, o DEQUINHA, basta citar que este potiguar de Mossoró, que chegou ao Flamengo em 1950 vindo do América do Recife, foi referência declarada para o eterno Carlinhos “Violino”, tanto como centromédio (hoje volante) quanto no estilo de técnica refinada, marcando sem recorrer a pontapés e distribuindo o jogo com passes de precisão milimétrica. É, sem sombra de dúvida, um dos maiores (para alguns, o maior) da posição na história do Flamengo.

Tímido fora de campo, transformava-se em líder dentro das quatro linhas. Capitão do time no segundo e terceiro títulos do tricampeonato, entrava em campo com a bola debaixo do braço. Além da sutileza para desarmar, tinha um bom chute de longa distância (arma bastante usada contra times pequenos e suas defesas retrancadas) e era mestre em distribuir chapéus, levantando a torcida rubro-negra no Maracanã.

Outro dado impressionante é que ele foi o único jogador a atuar em todas as 84 partidas do tricampeonato – e sempre como titular, já que na época não eram permitidas as substituições. A exemplo de Índio, Dequinha foi convocado para a Copa do Mundo de 1954, mas preterido no time do técnico Zezé Moreira (também treinador do Fluminense) por Brandãozinho, da Portuguesa, jogador de maior porte físico. Mas ganharia sua chance na Seleção dois anos depois, em excursão à Europa.

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Terceiro a aparecer, o ponta-esquerda Mário Jorge Lobo ZAGALLO, alagoano de Maceió, veio dos juvenis do America (o carioca mesmo) para a Gávea, e já vinha atuando esporadicamente pelo time rubro-negro desde os idos de 1951. No entanto, só se tornaria titular mesmo na campanha do título de 1954, substituindo o já veterano – e nortista, de Belém do Pará – Esquerdinha.

Parte importante do esquema do técnico Fleitas Solich pela versatilidade, ajudava a compor o meio-campo e a fazer a cobertura pelo seu lado sem deixar de lado a ofensividade. Foi jogando esse futebol inteligente e disciplinado taticamente que chegou à Seleção, em 1958, e à Copa do Mundo da Suécia no mesmo ano como jogador rubro-negro. Após o Mundial, seria vendido ao Botafogo. Mas voltaria mais tarde como treinador, tendo várias passagens e conquistando títulos.

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TOMIRES de Souza Galvão, alagoano de Barra de Santo Antônio, começou a carreira no CRB, vindo depois para o América do Recife, onde foi vice-campeão pernambucano. Sua primeira experiência no futebol do Sudeste aconteceu no futebol paulista, na Portuguesa em 1953. Mas logo no início do ano seguinte, já aportava no Flamengo, que já comemorava o primeiro título do tricampeonato. Na segunda conquista, Tomires já ganhara a titularidade da lateral-direita do veterano Marinho Rodrigues.

Jogador vigoroso e raçudo, Tomires chegou a jogar pelo Flamengo com um corte profundo na cabeça, com o nariz quebrado e por duas vezes com a clavícula fraturada. Apelidado de “Cangaceiro”, chegou a posar paramentado para uma revista da época. Porém, acabou estigmatizado – sem ter tido chance de defesa, diga-se – como um jogador violento pelo incidente ocorrido na decisão do tri carioca, em abril de 1956, quando entrou duro, mas na bola, no atacante Alarcón, do America, que quebrou a perna no lance.

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O meia-direita DUCA, nascido Adrualdo Barbosa da Silva no Recife, era o representante pernambucano do grupo. Estreou no time rubro-negro aos 19 anos, em fevereiro de 1954, participando em seguida da excursão europeia do clube e do Torneio Rio-São Paulo daquele ano. Mas só entraria em campo pela primeira vez no Carioca – o filé da temporada na época – na reta final do torneio de 1955. Na melhor de três decisiva contra o America, entrou no time no lugar do lesionado Índio e esteve à altura da missão.

Seus outros grandes momentos no Flamengo vieram no Rio-São Paulo. Na edição de 1957, marcou duas vezes na goleada de 4 a 1 sobre o Botafogo de Garrincha e Nilton Santos. Já no ano seguinte, fez um gol antológico, de fora da área, que valeu o triunfo de virada no último minuto sobre o Santos de Pelé dentro do Pacaembu. O meia ficou no Fla até o fim de 1958, quando foi vendido ao Zaragoza espanhol.

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Se Dequinha era o modelo para Carlinhos, o alagoano de Maceió Edvaldo Alves de Santa Rosa, o DIDA, foi nada menos que o ídolo de Zico. Descoberto por uma equipe rubro-negra de vôlei em excursão enquanto atuava por um combinado de sua terra natal, foi prontamente levado à Gávea, onde recebeu preparo físico adequado e passou a defender a equipe de aspirantes.

Sua estreia no time de cima, contra o Vasco pelo Carioca de 1954, foi impactante. Não fez gol na vitória por 2 a 1. Mas infernizou a defesa adversária, liderada pelo parrudo e intimidador Eli do Amparo. O duelo mereceu até um comentário eternizado, escrito pelo jornalista Luiz Mendes na crônica do jogo para a revista Esporte Ilustrado: “Como se fosse desconhecedor do nome e do prestígio do médio do Vasco, Dida prosseguiu passando por Eli como se Eli não existisse”.

Dida voltaria a escrever seu nome na história rubro-negra na reta final do Carioca de 1955. Trazido de volta ao time para a terceira e decisiva partida da melhor de três contra o America, demoliu o time tijucano marcando os quatro gols da vitória por 4 a 1. Embora franzino, era rápido, tinha drible malicioso e faro de gol. Tornaria-se o maior artilheiro do Flamengo (264 gols em 358 jogos) até ser ultrapassado por Zico.

Depois do tricampeonato, ainda levantaria títulos importantes, como o Hexagonal de Lima (em 1959), o Torneio Rio-São Paulo e o Octogonal de Verão (ambos em 1961), além de participar de mais uma conquista do Carioca, em 1963. Seria também campeão do mundo com a Seleção Brasileira em 1958, na Suécia.

Na Copa, teve boa atuação na única partida que disputou, contra a Áustria, mesmo lesionado e com o pé enrolado em esparadrapos. Mas foi barrado para a entrada, mais tarde, de um garoto chamado Pelé. E voltou da Copa com a injusta acusação de que tinha “tremido”, o que absolutamente não era de seu feitio.

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O ponta-esquerda Mario Braga Gadelha, o BABÁ, cearense de Aracati, chamava a atenção primeiro pela estatura: apenas 1,54m. Dentro de campo, com a bola nos pés, é que se notava sua impressionante velocidade e suas estonteantes fintas. Revelado pelo Ceará, chegou ao Fla em 1954 atuando inicialmente nos aspirantes. Foi escalado como titular pela primeira vez no mesmo jogo contra o Vasco em que estreou Dida. A ideia do técnico Fleitas Solich era aproveitar o entrosamento da ala esquerda do time de base.

Babá entrou e saiu do time durante a campanha do tri, devido às constantes alterações na equipe promovidas por Solich. Mas se converteu em titular absoluto com a saída de Zagallo, vendido ao Botafogo após a Copa de 1958. Antes, em 1956, marcou um dos gols mais antológicos da história dos Fla-Flus, o único da vitória rubro-negra pelo returno do Carioca, arrancando num contra-ataque e encobrindo o goleiro Castilho com um chute da intermediária.

Campeão do Torneio Rio-São Paulo e do Octogonal de Verão em 1961, chegou também pela única vez à Seleção Brasileira naquela temporada, num amistoso contra o Paraguai. No começo do ano seguinte, após impressionar numa excursão rubro-negra pelo México, foi negociado com a UNAM local.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.

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