Ser Flamengo, nossa única opção

Ser Flamengo, nossa única opção

“The way things going/they’re gonna crucify me”
(John Lennon em “The Ballad of John & Yoko)

 

Caros confrades flamengos,

Na coluna da semana passada fiz uma constatação que causou incômodo em alguns companheiros de batalha: a de que falta um je ne sais quois ao time do Flamengo para enfrentar o clima de “estado de natureza” que permeia uma competição como a Libertadores da América – muito, mas muito mais difícil que a Champions League, considerando que no nutelíssimo certame europeu não há em nenhum momento partidas disputadas a 3 mil metros de altitude ou sob a guarda de carabineros como aconteceu com o Flamengo em 1981 diante do Cobreloa.

Até me esqueci de dizer isso: talvez nosso time fosse longe na Champions League. Talvez até campeão – embora eu considere que o time que tenha o portuga é sempre mais candidato a levar a taça. Sim: o Flamengo tem bons jogadores (não nas laterais e não no comando do ataque) e dentro de um ambiente em que árbitros arbitram, confederações são federativas e conselhos desportivos dão conselhos, como parece ser a copinha lá da UEFA, esse time até poderia ir longe.

No entanto, estamos falando, sempre, de Conmebol – e pela arbitragem da nossa estreia na Liberta os torcedores mais novos já puderam entender isso (me refiro àqueles de oito anos de idade que por acaso estejam lendo esse texto). Quem por acaso ler o livro “Da Glória à Vergonha”, do consultor de crises Mário Rosa, vai ver o episódio em que Julio Grondona e o então presidente da CBF articulam um horário de jogo para Brasil x Argentina com a intenção de atacar uma emissora de TV e com fins escusos – e sem nenhuma Conmebol para arbitrar ou reclamar. Desnecessário mencionar o caso do torcedor boliviano morto em partida daquele time de São Paulo.

Mas quero me retratar caso eu tenha transbordado desesperança – é o efeito pós-emputecimento, pós-empate idiota, pós-frango inacreditável do Diego Alves. São efeitos a que nenhum torcedor do Flamengo está imune. Uma febre vermelha e preta para a qual não existe vacina ou outro tipo de imunização. Como torcedore de um time de duas cores, me permito, sim, ser bipolar (com o devido respeito e desculpas aos que sofrem deste transtorno e que com efeito não merecem vê-lo sendo usado como metáfora): creio no Flamengo todo-poderoso, sim. Parafraseando o dito Herbalife: sou Flamengo, pergunte-me como.

Nosso ambiente no futebol não vai bem – mas dizer que o Flamengo só venceu até hoje nos momentos em que Pet, Edilson e Beto jogavam adedanha, nas horas em que Rondinelli, Adílio e Leandro Peixe Frito brincavam de escravos-de-jó com os pratos na concentração ou Luizão e Obina curtiam as fotos um do outro no instagram, bem, isso é uma falácia das mais tolas. Citando mais uma vez Arthur Muhlemberg (sempre lembrando que minha conta bancária não recebe visitas de cheques com esse nome), Flamengo é perrengue. Quer paz e harmonia vai torcer para nado sincronizado. Quer segurança vai torcer pro time do presídio. Quer certeza de vitórias vai torcer pro Real Madrid e consagre sua vida ao nutelismo esclarecido – algo que demandará atirar sua camisa rubro-negra à fogueira.

Quando digo que venceremos o Emelec, há sempre um prócer da objetividade ao meu lado dizendo “este time já chega à quinta rodada eliminado”. Na verdade, eu mesmo disse isso, nas horas que se seguiram ao malogrado empate contra o River. Mas no dia seguinte já desdisse. Por mais que as coisas estejam realmente desanimadoras, com o elenco parecendo (apenas parecendo, como vi nas comemorações recentes) dividido entre meninos e adultos (sendo Diego e ER7 no primeiro grupo e Paquetá no segundo), não se pode esquecer que entre suas obrigações cívicas, militares, eleitorais e morais está a de torcer pro Flamengo. Não há outra alternativa a não ser continuar Flamengo– e garanto, não digo isso com ufanismo, orgulho besta ou excitação. Digo isso com resignação e estupefação, até porque é um fato tão óbvio que cabe a mim sentir vergonha um segundo depois de descrevê-lo.

Claro que no início da temporada, após a goleada não-válida para o Fluminense e após o empate contra o Botafogo, há quem busque crucificar alguém. Zagueiros, meias, laterais, atacantes e até mesmo este colunista aqui. Nada de espanto – até mesmo Lennon, em sua Balada de John e Yoko, manifestou o temor de ser pregado na cruz como exemplo. Mas podem me crucificar pela minha bipolaridade? Talvez sim. Só que até o fim manterei o meu dito: sou Flamengo, pergunte-me como. E ouça a resposta, que é longa e demora a eternidade – se reparar bem, no Novo Testamento há um momento entre Jesus

Cristo e Pôncio Pilatos no qual este pergunta ao futuro crucificado: “E o que é a verdade?”. Cristo, segundo a descrição bíblica, se prepara para responder, mas Pilatos lhe dá as costas, deixando a todos nós sem saber o que é, afinal, a verdade.

Prefiro então que sejamos todos Pilatos: ser Flamengo não é para ser descrito ou explanado. Ou é como jazz: “se é preciso explicar, é porque você não vai entender” (é uma definição que é atribuída a Miles Davis, mas confesso que não tenho certeza do autor).

Deixo meu palpite de 2 a 1 para nós com a alma mais tranquila do mundo. Venceremos, sim. Esta é a única previsão que posso fazer. Fora aquela de sempre: continuaremos, cada vez mais, Flamengo. Porque não há outra alternativa.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Diego Haliasz / River Plate


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.


 


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