Reflexões sobre um Flamengo à procura de rumo

Reflexões sobre um Flamengo à procura de rumo

 

Por Oldon Machado
 

Quinta-feira, 3 de agosto de 2017. Dia com o sabor amargo da ressaca moral. Com a dureza do choque de realidade. Com a frieza da ducha de água gelada de um mundo como ele é, e não como deveria ser. Vale para o Brasil, vale para o Flamengo. Falarei rapidamente sobre este segundo, cujo futuro pelo menos ainda me traz algum tipo de esperança, embora o presente exija reflexões.

O Flamengo reestruturado institucionalmente, recuperado financeiramente e incensado administrativamente passa, sim, por uma crise de identidade. Dentro e fora dos campos. Talvez uma crise menos grave que a de tempos atrás, quando as perspectivas eram desanimadoras em quase todos os níveis e áreas, mas não menos importante de ser discutida, avaliada e devidamente tratada.

Fora das quatro linhas, o problema principal passa pela transição da Era Maracanã para a Era do Estádio Próprio – neste primeiro momento representada pela casa provisória na Ilha do Governador. Como ajustar a demanda cada vez maior de um público diverso e gigantesco, como é a massa rubro-negra, às necessidades de caixa do clube? Como garantir as maiores receitas financeiras possíveis com a realização de jogos sem alijar parte do povo flamengo do seu time de coração? Essas e outras questões estão em aberto, e se colocam a cada partida jogada numa Ilha do Urubu de parcos 20 mil assentos, quase sempre não preenchidos na sua totalidade em virtude de preços praticados acima da média.

Mas a questão que mais aflige o torcedor, hoje, está situada dentro de campo, curiosamente a área na qual menos se depositava preocupação à medida em que o belo elenco que temos atualmente vinha sendo construído – ok, construído no meio da temporada, mas mesmo assim a tempo suficiente de entregar resultados. Eliminado precocemente da Libertadores e claudicando no Brasileirão, o Flamengo vive uma realidade distante das suas pretensões iniciais. Futebol débil, time em constante mutação e sem padrão tático algum, desempenho técnico sofrível dos principais nomes, insistência na escalação de nomes menos cotados, atuações regularmente fracas do conjunto, técnico demonstrando cada vez menos repertório. O lugar no G6 tem cara e jeito de meio de tabela. O viés, inegavelmente, é de baixa.

Além de discutir as pessoas – que podem e devem ser cobradas no dia a dia, especialmente quando têm todas as condições estruturais de trabalho à disposição –, talvez seja o caso de também se discutir as filosofias, no plural.

Discutir a filosofia do comando do futebol, que parece se apegar a uma profecia irrefutável a ser confirmada a qualquer custo, mesmo quando os fatos esfregam na cara de todos um quadro totalmente oposto. Arrogância típica de quem se vê como um doutrinador de teses no cargo de gestor, justamente quando a gestão mais carece de ideias arejadas. Discutir a filosofia da torcida, que viu no poderio financeiro uma porta de acesso direto às conquistas de tudo – os tais “entreguem as taças” e “Brasileiro é obrigação”. Arrogância típica de novo rico premiado na Mega-Sena, que na euforia tem a certeza de que o dinheiro tudo pode comprar, sem enxergar que valores imateriais são inegociáveis em papel moeda.

Os conflitos que circundam o Flamengo nos dias de hoje têm um quê de existenciais, de foro íntimo-institucional, e refletem, ao meu ver, um clube em mutação, saído de (muitos) anos amadorísticos e vislumbrando uma fase duradoura de liderança. A ansiedade pelos resultados crescerá à proporção em que as finanças polpudas resultarem em cifras de investimentos cada vez maiores, em um aparato infraestrutural cada vez melhor e em contratações cada vez mais midiáticas.

Lidar com a pressão é natural para quem vive diariamente o Flamengo, da arquibancada aos gabinetes, mas lidar com a obrigação do protagonismo é algo ainda a ser melhor ajustado na cabeça de dirigentes, dos membros da comissão técnica, dos jogadores e da torcida – seja o mais abastardo que pode ir a todos os jogos, seja o menos favorecido que vê e sofre de longe.

Se o virtual campeão brasileiro de 2017 se autointitula realisticamente como “o time que sabe sofrer”, o Flamengo rico, teimoso, trôpego e perdido de 2017 poderia se assumir, num ato de sincericídio, como “o time que (ainda) não sabe ganhar”.

SRN

 
Carioca, jornalista, flamenguista, cervejeiro e pai do Theo, não necessariamente nessa ordem. Siga-o no Twitter: @OldonMachado. Escreve no Blog do Oldon.

Imagem do post e destacada nas redes sociais: Staff Images / Flamengo

 


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