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Na tarde de ontem o Palmeiras se sagrou campeão Brasileiro de 2018. Com uma rodada de antecedência o time quase invicto comandado por Felipão venceu o Vasco por 1 a 0 em São Januário. Mesmo vencendo o Cruzeiro no Mineirão por 2 a 0 com uma belíssima atuação de Éverton Ribeiro, autor de dois gols, o Flamengo não conseguiu adiar o inadiável.

Ao contrário do que a tabela indica, não foram cinco pontos que deixaram o Flamengo no quase. Foram dez pontos – cinco da tabela, cinco da diretoria. A postura no início do ano, refém da indecisão do então técnico Reinaldo Rueda; a efetivação de Carpegiani que havia sido contratado para ser diretor; a aposta em um auxiliar como Barbieri; a demora em trazer reforços para as posições mais carentes; e por fim, mas não menos importante, a acomodação diante dos fracassos.

Incerteza de Rueda e passividade da diretoria atrapalharam planejamento para 2018

Rueda assumiu o Flamengo no meio do ano passado. Quando chegou Rueda precisava, além de aplicar sua forma de jogar, consertar alguns problemas deixados pelo treinador Zé Ricardo. No Flamengo de Zé havia pouco padrão de jogo, muitos vícios na escalação e na forma como o time jogava e principalmente o protecionismo já característico da direção – já no time do colombiano as primeiras impressões eram boas. Cuéllar ganhava a vaga de Márcio Araújo, Willian Arão perdia espaço junto com Rafael Vaz e Geuvânio, e a dupla Paquetá-Vinicius Junior começava a ganhar tempo de jogo.

De um elenco desacreditado pela torcida devido ao fracasso na Libertadores e a má colocação no Campeonato Brasileiro, Rueda fez renascer um time forte, liberto de vícios e de jogadores que a torcida pegava no pé – chegou inclusive a duas finais de Sul-Americana e Copa do Brasil, terminou em segundo nas duas. Mas o fim do ano chegou e com ele a esperança por uma boa pré-temporada com o colombiano à frente das decisões de montagem do elenco não aconteceu. A proposta para treinar a seleção chilena foi um balde de água fria tanto na diretoria quanto na torcida. Passiva e observando de longe, a direção rubro-negra ficou refém do treinador – por vezes ambas as partes davam declarações que rumavam para a permanência do treinador. Falha grave que comprometeu um bom tempo do planejamento para 2018.

Carpegiani confirmado como técnico. Mas não era para ser diretor?

O ano de 2018 começou e o Flamengo não tinha mais Reinaldo Rueda. Após o ‘chapéu’ dado pelo treinador, a diretoria decidiu efetivar Paulo César Carpegiani que acabava de chegar ao clube para ser coordenador de futebol, cargo totalmente oposto ao de treinador – para quem pensa grande, em Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão, a decisão soou quase como amadora por parte de uma diretoria já mal vista por parte da torcida. Por mais que Carpegiani tivesse toda a competência do mundo como treinador, o foco dele no clube não era aquele. Por mais que participasse da montagem do elenco para 2019, o então ‘ex-coordenador/novo técnico’ não conhecia de perto o atual elenco – até mesmo Marlos, um dos primeiros anúncios do ano, foi indicado por Rueda, que saiu antes mesmo de Marlos vestir a camisa de treino.

Era a mistura perfeita para a confusão. O treinador campeão mundial em 1981 pelo Flamengo não conseguiu suportar a pressão e caiu após 17 jogos em menos de três meses, na derrota para o Botafogo na semifinal do Carioca. Naquela ocasião o então vice-presidente Ricardo Lomba foi o primeiro a ‘sair do padrão’ e qualificou a derrota como vergonhosa, o que criou uma espécie de pressão e colapso nos bastidores do clube. Pressionada, a diretoria resolveu trocar cargos no departamento de futebol, saía de cena, além de Carpegiani, Rodrigo Caetano, então diretor de futebol. Vale lembrar que Carpegiani, contratado para ser uma espécie de gestor, nem nos bastidores ficou após a demissão como técnico.

Diretoria perdida e efetivação de Barbieri

Comandando o Flamengo desde o fim de março, época em que Carpegiani foi demitido, Barbieri só foi efetivado no final de junho – quase três meses com um interino à frente do clube com um dos maiores poderios para investimento no Brasil. A indecisão pela efetivação ou não de Barbieri era pauta discutível, afinal seria o segundo treinador que precisaria se adaptar rapidamente a um elenco que não foi montado por ele e muito menos para ele. Apesar de ser considerado ‘estudioso e didático’, era nítido que Barbieri não tinha o estofo necessário para gerir um elenco com grandes estrelas. Diante de tudo isso, a demissão de Barbieri no final de setembro mostrou como o alto escalão do Flamengo estava perdido e de mãos atadas, afinal era o terceiro treinador em que a diretoria confiava, bancava, mas no fim demitia.

A demora para trazer reforços e setores intocáveis

Sem poder contar com Guerrero, então suspenso pela Fifa, o Flamengo precisava de um atacante. A diretoria então foi atrás do artilheiro rival, Henrique Dourado. O que parece não ter sido discutido era que Dourado tinha uma característica totalmente diferente da de Guerrero. Enquanto o peruano fazia o pivô, Dourado não conseguia segurar uma bola no ataque. E foi assim, aos trancos e contando com a estrela de Vinicius Júnior, Paquetá e Vizeu, todos garotos da base, que o Flamengo chegou à liderança antes da parada para a Copa do Mundo.

Ciente da saída de Vinicius Júnior para o Real Madrid e da saída de Vizeu para a Udinese, a diretoria demorou, e muito, para buscar soluções para o ataque rubro-negro. Uribe foi contratado, mas se assemelhava a Dourado – um atacante com lampejos, com extrema dificuldade de se adaptar ao futebol jogado no Flamengo. Durante a parada para a Copa, dezenas de nomes foram especulados para a vaga de Vinicius Júnior, o Flamengo resolveu por trazer Vitinho por R$ 43 milhões de reais às vésperas do mercado fechar, após tentativa frustrada de trazer o holandês Ryan Babel – negociação que tomou muito tempo. A indefinição pelo nome do substituto de um garoto de 18 anos custou caro. Para as laterais e para a zaga, setores também deficitários desse Flamengo, nenhum nome foi posto em pauta.

Acomodação diante dos fracassos

Por fim, a pecha de time ‘amarelão’, ‘banana’, ‘acomodado’, ‘arame liso’, entre outros termos usados pela torcida se fizeram valer. Com o maior investimento da Série A em reforços, superior ao do campeão Palmeiras, o Flamengo colecionou fracassos esse ano. A eliminação diante do Botafogo no Carioca resultou na saída de Carpegiani e Rodrigo Caetano. A eliminação na Libertadores para o Cruzeiro não gerou nenhuma atitude da então diretoria, a derrota por 2 a 0 em pleno Maracanã no jogo de ida pareceu apenas uma infelicidade. O zero a zero diante do fraco time do Corinthians no Maracanã e a derrota por 2 a 1 em Itaquera foram sinais de que o Fla errou em escolher um auxiliar recém-chegado no clube e, depois da efetivação, a demora em demiti-lo quando ficou evidente sua dificuldade em extrair mais do time. Muitos foram os sinais de corda esticada.

– Ficamos tristes pela eliminação, mas temos que enaltecer a entrega do time, com muita vontade, garra e dedicação -, declarou com resignação o vice-presidente de Futebol, Ricardo Lomba, que também é candidato a presidente pela atual Situação.

– Tomamos um gol que desarrumou o comportamento do time. Tentamos ir de qualquer jeito, ansiosos no passe. Não conseguimos o empate. Agora é buscar o Brasileiro para brigar pelo título -, analisou o capitão Réver, após nova eliminação, agora pela Copa do Brasil, apesar do favoritismo diante do fraco Corinthians.

Após a declaração do zagueiro, o time perdeu pontos nos empates Bahia, Palmeiras, São Paulo e na derrota para o Botafogo, totalizando nove pontos. Com uma rodada de antecipação, o campeão Palmeiras sagrou-se campeão com 77 pontos, cinco a mais que o Flamengo. O time não buscou também o Brasileiro.

Em resumo

Entre erros e acertos de jogadores dentro de campo, a diretoria rubro-negra tem grande parcela de culpa pela temporada ruim que o Flamengo fez. Foram R$ 65,5 milhões investidos em apenas quatro reforços, nenhum deles termina o ano como incontestável. Foram quatro competições, três eliminações e um vice-campeonato tendo um dos elencos mais caros do Brasil. As indecisões, as atitudes não tomadas, a acomodação diante do fracasso e o péssimo gerenciamento da equipe dentro e fora de campo contribuíram e muito para mais uma derrocada.
 

Créditos imagem destacada no post e redes sociais: Gilvan de Souza/Flamengo

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