Há jogos e jogos. Partidas que devem ser sentidas na pele, por jogadores e torcida, que ensinam e moldam equipes vitoriosas. O jogo dessa 12° rodada do Campeonato Brasileiro 2018 é um destes. Atuar fora de casa, contra uma equipe qualificada, que possui um padrão tático e proposta de jogo claras, com jogadores cascudos e ariscos não tem preço. E, acima de tudo, sair com um bom resultado (ainda que longe do ideal, se lembrarmos dos cinco cartões amarelos e três vermelhos dados aos rubro-negros).

Escalações e disposições das equipes

Flamengo entra no seu esquema usual 4-1-4-1, mas com escalação diferente da rodada anterior, seja por lesão, suspensão ou opção tática de Barbieri. Nesta sequência de jogos pré-Copa houve poucas repetições dos XI iniciais. Nesta partida, Vizeu assumiu a titularidade barrando Dourado enquanto Jean Lucas ganhou mais uma chance com a lesão de Diego. Até aí, nenhuma surpresa.

Palmeiras vem a campo com um 4-2-3-1 de intensa marcação, sempre pressionando a saída de bola rubro-negra, agredindo quem está com a posse, com Willian mais à frente para puxada de contra-ataques, que é uma grande virtude do jogador. O comandante do ataque palestrino sabe jogar como centroavante fixo, mas ainda possui velocidade para dar opção de lançamentos e ligações diretas para Felipe Melo e Bruno Henrique – com uma linha de três composta por Hyoran-Moíses-Dudu bem móvel, com constantes flutuações à ala de ataque adversária, pressionando e buscando a retomada da bola com a vantagem numérica adquirida. Não eram raros os momentos em que Vinicius Jr, Renê e Paquetá pela esquerda e Everton Ribeiro, Rodinei e Jean Lucas pela direita estavam cercados por quatro ou cinco palmeirenses.

Flamengo, por sua vez, reage à primeira vista de forma diferente à apresentada contra o Atlético-MG, também fora de casa, tendendo uma proposta próxima da executada contra Corinthians no Maracanã: retém a bola, alterna o setor de criação, busca aproximações e a individualidade de Vinicius Jr., que logo cria a primeira chance aos 2’, quando o garoto cruza e Vizeu cabeceia com perigo.

Palmeiras tenta responder propondo o jogo com inversões da direita à esquerda, buscando a fragilidade defensiva de Rodinei (em noite sem inspiração). O lateral rubro-negro torna o de abertura uma jogada telegrafada: aos 4’, Bruno Henrique recua para Felipe Melo que aciona imediatamente o apoio pela esquerda de Victor Luís. Desprovido de qualquer pressão por parte do lateral-direito adversário, cruza bola venenosa para cabeçada de manual de Willian, com excelente defesa de Diego Alves, mostrando já nos primeiros minutos o porquê do protagonismo apresentado no resultado final da partida.

Aos 6’, inversão de Marcos Rocha buscando a infiltração de Dudu pelo “lado fraco” do ataque palmeirense. Rodinei, em mais uma péssima tomada de decisão, corta a bola de forma fraca, deixando-a nos pés de Dudu, que não perdoa e faz inversão rasante à área buscando a penetração de dois palestrinos. Moisés bloqueia a movimentação de Léo Duarte, que fica vendido na jogada, assim como Renê, mal posicionado, e a pelota passa por cima, chegando para Bruno Henrique. Diante do pouco ângulo para a finalização, o jogador prefere cabeceá-la para o meio da área, onde está Willian. Com Diego Alves vencido, o atacante tem apenas o trabalho de empurrar a bola já em cima da linha para o fundo das redes.

Um balde de água fria é jogado na estratégia rubro-negra. Com a desvantagem no placar, precisa tomar as rédeas da partida sem deixar espaços para contra-ataques mortais dos donos da casa. Soma-se isso a uma partida ruim de Paquetá, errando quase todas as iniciativas de ditar o ritmo das jogadas. Defensivamente o meia teve boa participação nos 90 minutos ao bloquear 1 chute, interceptar 2 passes e desarmar 3 vezes, já com a bola nos pés foi disperso, perdeu a posse da pelota em zonas perigosas da defesa (6 no total), gerando oportunidades que só não são convertidas em mais gols pelas tomadas decisões equivocadas dos donos da casa.

Aos 9’, mais uma inversão direita-esquerda buscando as costas de Rodinei, agora de Hyoran para Dudu, que recua para Victor Luis e oferece amplitude na base da jogada ao recebe-la novamente. Os desmarques simultâneos de Victor Luis e Moisés obrigam cobertura de Jean Lucas e Cuéllar, que, aliado à desatenção de Renê e de certa parte do colombiano também, abrem um buraco à frente da grande área, proporcionando espaço para domínio e posterior finalização de Willian.

Muitos passes errados, principalmente na saída de bola rubro-negra, dão vantagem territorial e controle do tempo para os donos da casa. Nessa situação adversa, cresce a presença de Thuler e Léo Duarte, que, em mais uma partida sólida da dupla, negam passes entrelinhas e cobrem as subidas dos laterais. Mesmo sentindo o gol, mostraram personalidade e foram cruciais para a manutenção da desvantagem por apenas um gol de diferença. Thuler, com vigor físico e presença de área defensiva e ofensiva, e Léo Duarte com calma e segurança na saída de bola – com aproveitamento de 93% nos passes, com 27 certos – foram a base defensiva da equipe.

Palmeiras busca as saídas ofensivas com a solidez de seu lado direito. Dudu é o típico jogador que se “ama odiar”. Raçudo, ranzinza, reclamão, técnico, tático. Constantemente acionado, teve boa partida, com destaque aos 7 de 9 dribles certos, 4 passes decisivos, 2 de 3 cruzamentos certos e 13 de 20 duelos vencidos.

Flamengo sofre para se adaptar a saída de bola qualificada de Felipe Melo e Bruno Henrique, párea à desenvolvida por Jean Lucas e Cuéllar. Pelos donos da casa, 8 de 10 bolas longas realizadas com sucesso pela dupla. Já pelos visitantes, os volantes tivera, êxito nas 10 tentativas. Fica evidente a qualidade técnica dos jogadores de ambas as equipes, assim como os desmarques feitos com competência. Faltaram entrar nesse embate pelo domínio da zona central Paquetá, Moisés e Hyoran, com atuações discretas.

A recuperação do jogo rubro-negro vem justamente com Cuéllar e Jean Lucas. O primeiro, sempre sólido na proteção à zaga, ainda que com deslizes e excessos de força nas entradas, é também opção segura à saída sustentada, o que traz aos poucos o jogo para os visitantes, que recuam após intensos primeiros 15 minutos de pressing e a vantagem no placar. Já o jovem traz lucidez a um meio-campo perdido em como armar seus contra-ataques, com Everton Ribeiro disperso e Paquetá cada vez mais errático perdido por excessos de toques na bola e dribles extravagantes. Jean desarma, acelera, dribla, aciona Rodinei e Everton Ribeiro pela direita, dando sentido e objetivo à transição ofensiva de sua equipe. Ainda tende a se infiltrar pelas beiradas, evitando a área. Tem bom chute à médio-longa distância, logo, potencial recurso a ser explorado para próximas partidas.

(Fonte: SofaScore)

Nesse panorama, Palmeiras fecha sua zona central com Henrique e Melo, obrigando o Flamengo a buscar as beiradas para criação. Com Vinicius Jr e E. Ribeiro aos poucos engrenando na partida, os cariocas têm bons momentos, ainda que desperdiçados pelo péssimo rendimento da equipe no quesito cruzamentos. É inadmissível que Rodinei continue cobrando todos os escanteios, ainda que com rendimento pífio ao longo dos jogos. Nesta rodada, apenas 2 de 10 cruzamentos certos.

Aos 30’, é necessário frisar a performance do árbitro (não que nas outras rodadas fossem bons, longe disso). Não errou apenas em inverter faltas, ou ter dificuldade de manter critério nas decisões quanto às entradas e divididas. Ao picotar o jogo, quebrando o ritmo com constantes marcações de falta na origem da transição ofensiva/defensiva, além da falta de bom senso de não saber ser contrariado, exibindo cartões a quem discordasse, aflorou os nervos em campo e foi um dos responsáveis pelos acontecimentos dos minutos finais.

O Flamengo, já mostrando superioridade em campo, aos 32′ surge boa chance para o time da Gávea. Jean Lucas cruza, Jaílson sai do gol, mas não afasta a bola com força suficiente. Ela sobra na entrada da área para Vinicius Jr, mas, por preciosismo, perde excelente oportunidade batendo por cobertura. Aos 33’, agora é a vez de Cuéllar cruzar, mas o cabeceio de Vizeu sai muito fraco e fica fácil para o guarda-redes.

Nesse momento é necessário falar de Vinicius Jr. O que infelizmente pode ser a última vez nestas analises táticas rubro-negras. Raro talento, rara personalidade. Pode errar, mas não deixa de tentar. Apanha, mas não deixa de partir para cima de seus adversários. Dono de dribles desconcertantes, mas ainda assim objetivos. Não precisa estar em seus melhores dias para ser assustador a seus marcadores, como aos 36’, quando sofre entrada forte de Marcos Rocha, que não recebe cartão (e curiosamente o vai receber apenas aos 35’ do 2° Tempo após outras tantas jogadas similares no garoto. O “curioso” é que o jovem foi advertido com um cartão amarelo por ter reclamado de apanhar com permissão da arbitragem). O ponta-esquerda Acertou 4 passes decisivos em meio aos seus 19 certos que lhe dá um aproveitamento de 90%. Não foi protagonista como pode, mas foi importante. Teve duas chances claras de se consagrar na possível partida final, porém perdidas por preciosismo. Poderia ter sido assistente do gol de empate em cruzamento para cabeçada de manual, agora por Everton Ribeiro, parada ótima defesa de Jaílson.

O último lance de perigo da primeira etapa foi aos 46’, em contra-ataque que termina em assistência de Everton Ribeiro para finalização rasteira e fraca de Rodinei. Os visitantes terminam o primeiro tempo dono das melhores oportunidades dos minutos finais, com melhores números nas estatísticas coletivas principais (posse de bola, passes certos, quantidade de passes, finalizações à gol, finalizações dentro da área, jogo aéreo).

As equipes voltaram para a segunda etapa sem alterações. Palmeiras inicia investindo pela esquerda, esbarrando nos predicados defensivos de Renê, ainda que levando sustos com arremessos laterais para dentro da área por Marcos Rocha.

Aos 3’, triangulações pela ala direita do ataque rubro-negra termina em cruzamento de Jean Lucas que Vizeu apara para Paquetá, que finge o chute e passa em excelentes condições para o camisa 47 marcar. Porém, a falta de ritmo e de trato com a bola o faz perder o timing e a oportunidade de finalização. Em contra-ataque imediato, Moisés lança Dudu em velocidade. O ponta carrega para o meio atraindo a marcação e passando para ultrapassagem de Moisés, que dá um corte seco no marcador e cruza rasteiro para trás para Willian. O atacante endireita o corpo e tem chute interceptado por carrinho milagroso do atento Léo Duarte. Jogo franco de duas equipes dispostas a alcançar a vitória.

Aos 5’, ótima defesa de Diego Alves em chute de Willian após disputa ganha pelo alto por Moisés. No rebote, chute para fora de Dudu da meia-lua. Pressão dos donos da casa que retomam a marcação alta com intensa pressão nos zagueiros e Cuéllar. Aos 7’, em cobrança de escanteio desviada na primeira trave, Vizeu falha em cortar a bola, que sobra na outra trave para finalização de peixinho de Edu Dracena e mais uma defesa de alto nível de Diego Alves.

Entretanto, mesmo com a forte pressão imposta pelo Palmeiras, a equipe comandada por Barbieri permanece fiel à sua proposta de jogo. Diante do espaço reduzido e ocupado por palmeirenses, busca a saída com troca de passes e com velocidade de movimentações de seus jogadores. Manter seu padrão, independente do adversário.

Um lance em três atos. As opções na base da jogada possíveis após saída de bola por baixo em marcação alta ocupacional de 3 palmeirenses na ala esquerda. Após a fuga da primeira zona, liberdade para atacar espaços ou ultrapassagem de laterais e mesmo a amplitude de Everton Ribeiro pela ponta.

E justo no momento de maior controle palmeirense, sai o gol de empate. Após lambança de Victor Luís, Rodinei alça a bola à área, aos 9’, onde Thuler mais à segunda trave sobe até o quinto andar para testar alto, consciente, no contrapé de Jaílson. Palmeiras 1 x 1 Flamengo.

O gol muda o roteiro da partida até o presente momento. Flamengo cresce e busca a virada. Logo aos 11’, Paquetá ganha disputa pelo alto na intermediária, a bola cai aos pés de Vinicius, que imediatamente acelera pela ala-esquerda. Vizeu faz o movimento correto de projeção, recebe passe vertical perfeito de Vinicius Jr, mas tem sua finalização defendida por Jaílson. No rebote, Vinicius chuta rasteiro no meio do gol, que é interceptado pela defesa.

Aos 12’, entrada criminosa de Felipe Melo em contra-ataque conduzido por Vinicius Jr (sempre ele) é punido apenas com cartão amarelo. O volante recebe apenas amarelo após levantar, propor briga e desafiar a todos os jogadores adversários presentes. A partir desse momento, a partida vai cada vez mais aumentando em faltas duras e brutas, poi além da contribuição de alguns atletas,a arbitragem também já perdido o controle pela evidente falta de critério.

Lucas Lima entra em campo com Roger buscando a supremacia do meio-campo, com o visível desgaste da linha de 4 meias e Cuéllar. Aos poucos, com o meio revigorado, Palmeiras passa a ditar as ações e Flamengo começa a forçar passes mais longos para correria de Vinicius Jr. Aos 26’, chute da entrada da área de Ribeiro leva perigo à meta palmeirense.

A entrada de Arão visa as mudanças positivas do jogo anterior. Opção de infiltração mais na grande área com aumento do poder nas jogadas aéreas da equipe. Infelizmente, tal alteração no panorama não sucede a não ser em um lance similar ao segundo gol contra o Paraná, aos 36’. Nesse, falta gás a Vizeu para chegar inteiro e finalização.

Palmeiras tem outras chances de alcançar a vitória, desperdiçadas pelos pés descalibrados de Bruno Henrique e Lucas Lima, com chutes de fora da área aos 38’ e 40’. Flamengo perde, por outro lado, por preciosismo de seus jovens. As mudanças seguintes pouco agregam a configuração tática do jogo, que, após dividida entre Cuéllar e Dudu, termina em uma briga generalizada um show de horrores decorrente de mais uma péssima arbitragem do ano.

De válido do jogo o bom resultado, tirando pontos de um adversário direto, a imposição e manutenção da proposta de jogo, mesmo sob pressão e situações adversas, e a esperança que contratações venham para reforçar o elenco e sanar posições carentes de mais opções e qualidade técnica.
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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