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A cabeça dói.

Lateja pulsando em ondas que dardejam o mais recôndito âmago da minha existência, ensaiando estilhaçar minha testa em minúsculos fragmentos de dor. Uma sensação insuportável, que faz rebentarem laivos de angustiante e surdo desespero.

Estou de ressaca.

Recorro aos comprimidos de praxe, ingiro corredeiras de água e resolvo sair, colocar-me em movimento, a despeito da ofuscante saudação de um sol que denuncia o adiantado de uma manhã que já se encaminha para a habitual e protocolar saída de cena. É o que se chama de “espairecer”.

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Vou andando e tentando pôr alguns pensamentos em ordem. Soube que o Flamengo enfiou 3-0, o que, evidentemente, estampou-me não tão leve sorriso de canto de boca. Não vi a escovada, pois deliberadamente resolvi me afastar um pouco da depressiva tormenta de frustrações que tem permeado a vida do rubro-negro desde que uma “junta de notáveis” arrogou-se a prerrogativa de “salvar” o clube e colocá-lo na rota dos “anos mágicos” que, seis anos depois, resumem-se a dois Estaduais, uma Copa do Brasil e um festival de taças e ilusões perdidas. Depois da última decepção, resolvi dar um tempo. Não me arrependi. O Flamengo melhorou e eu também.

Começo a transpirar. A dor passa. Os remédios parecem ter dado resultado. Tenho sede, afogo-me com mais litros de água. Sigo pensando. Já me afastei do Mengão antes. Ironicamente, dessa vez o time não é ruim. Mas, para usar jargão em voga, “não representa”. E isso é pior do que contar com uma choldra de caneludos. Talvez esteja sendo exigente demais. Ou não. Não, definitivamente não.

Eu sei, vivemos tempos estranhos.

Tempos de recortes extremistas que pontuam cada elemento que compõe nossa realidade, nosso contexto. Tempos em que soa proibido ponderar, racionalizar ou mesmo relativizar. Tempos em que somos instados a entoar cânticos de seitas e a embotar nossa visão crítica com o cabresto e a focinheira da beligerância. A reivindicar o monopólio da virtude e a marginalizar quem não dele comunga.

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Tenho fome. Chego perto de um desses restaurantes de “prato do dia”, resolvo entrar. Há duas opções. Moela e dobradinha. A moela já conheço e não gosto. A dobradinha sei que me fará mal. Cresci asfixiado pelo fedor sufocante e nauseabundo de uma panela de dobradinha, e sua simples recordação me faz emergirem ímpetos de vômito. Olho pra moela, que já comi várias vezes. Está lá, com a mesma cara, o mesmo aspecto que me suscita a entediante repulsa própria das gororobas. A dobradinha parece seduzir o público, que por ela faz fila. Incomoda-me a perspectiva de escolher um dos pratos. Transtorna-me a ideia de pautar meu almoço pelo exercício agônico de meramente repelir uma das opções. Desnorteia-me o simples pensamento de que, afinal de contas, se estou em um restaurante, forçosamente terei que consumir um dos pratos. A fugidia enxaqueca ameaça voltar.

Resolvo que a fome, afinal, não é premente. Pode esperar um pouco. E, com ela, a decisão.

Saio do restaurante tentando pensar em coisas agradáveis. Por algum motivo, um episódio agora me vem à mente. Transporto-me a vinte anos atrás, em específico às bordas do Natal de 1998. Maracanãzinho completamente lotado. Gente pendurada no teto, para a Final do Campeonato Estadual de Basquete, entre Flamengo e Vasco. Um jogo que não tem absolutamente nada de prosaico. Que vale, mais do que uma taça, a honra e o orgulho de uma instituição.

Vou recordando que 1998 terá sido um ano difícil. O rival no auge, Campeão da Libertadores, Vice das Américas e Vice Mundial. Que dispara um plano de estabelecer insuperável hegemonia no cenário olímpico brasileiro, através de maciços investimentos do seu patrocinador (e que, lembro, viverá seu auge dali a dois anos, com a “chuva de prata” nas Olimpíadas de Sydney, recorde absoluto de vice-campeonatos olímpicos do Brasil, marca aliás ainda não igualada até hoje). Projeto que ostenta em um de seus vértices um forte time de basquete. Equipe que chega à final com uma campanha lisinha, branquinha, invicta, irretocável. E que, por isso mesmo, é vestida com um favoritismo quase incontestável.

O Flamengo, enquanto isso, rememoro, vive um momento complicadíssimo. Dois anos sem título algum, naufrágio no Estadual, um Brasileiro em que chegou a conviver com a ameaça do rebaixamento, recuperou-se, ensaiou arrancada e que viu uma amarga eliminação ser recebida com indiferentes batucadas e pagodes comandados por alguns jogadores no jogo de volta. Aliás, alguns dos dirigentes da época andam hoje em dia querendo o “verdadeiro Flamengo” de volta. Estranho, penso. Mas volto ao caso. O torcedor flamengo espezinhado com a péssima fase do time e com os títulos e vices do rival, uma falta de ânimo, de tesão, de vontade, e súbito aparece essa final do basquete, os caras do Vasco falando em fechar o play-off em três jogos, em desfilar na frente da Gávea, essas coisas. Até porque o Flamengo vem de campanha acidentada, três derrotas, time bem menos badalado e tal.

E o Flamengo resiste. Perde a primeira apertado. Ganha a segunda e quebra a invencibilidade do adversário. Perde a terceira, também placar duro. No que seria o “jogo do título”, passa por cima do Vasco. E empata a série em 2-2. Agora, é só um jogo. Sem delongas. Perdeu, rua. Ganhou, taça.

As duas torcidas superlotam o enorme ginásio. Trazem pra dentro da quadra o clima do Maracanã. Para o Vasco, a chance de coroar o ano com a chance de derrotar o maior rival (o que, ironicamente, não conseguiu no gramado). Para o Flamengo, um meio de resgatar a dignidade. A camisa. A honra.

E não dá outra. Endemoninhado pelo mesmo élan de 1923, aquele punhado de jogadores revive o jogo das pás de remo e faz misérias dentro da quadra. Há um baixinho chamado Ratto. Esse camarada passa pelo lado, por fora, por dentro e por baixo dos vascaínos, fazendo sumir a bola com seus malabarismos e peripécias. É o dono da partida. O veterano Pipoka parece um adolescente brigando por um prato de sopa. Tem uns americanos que resolvem jogar o que não jogaram ainda no ano. O Vasco até começa na frente, mas depois o Flamengo vira o placar, abre dois, três, seis, dez pontos. E sua torcida canta, dança, grita a alegria de ser rubro-negro, às palmas, enquanto jogadores vascaínos saem na porrada, a organizada dos caras joga morteiro na quadra, o treinador Bial berra, urra e dá cambalhota, mas não consegue fazer seu time funcionar. O Flamengo ganha de 93-80. A massa invade e festeja a imposição, a superação, a força e a glória de um Flamengo que, esse sim, sem dúvidas foi Flamengo. Mais do que uma simples vitória, é um jogo que sinaliza um presságio. Traz um aviso. A alvorada da reviravolta.

Às vezes, os sinais surgem onde e quando menos se espera.

Chego em casa. Revigorado, vou curtir com a família o resto do dia.

 


Adriano Melo escreve seus Alfarrábios todas as quartas-feiras aqui no MRN e também no Buteco do Flamengo. Siga-o no Twitter: @Adrianomelo72
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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