Do polêmico War in Rio aos Jogos Olímpicos Rio 2016, apresentamos o designer que comandou a atualização dos símbolos rubro-negros e a criação do Manual de Gestão de Marca do clube

Após muita espera, ansiedade e apreensão, eis que finalmente o Flamengo e a Adidas apresentaram o uniforme número um para a temporada 2018. O grafismo entre as listras mais finas concedeu ao Manto Sagrado de 2018 elegante degradê. A expectativa de muitos torcedores, no entanto, pousava sobre o novo CRF.
 

Detalhe do monograma atualizado na nova camisa. (Crédito: Adidas / Divulgação)


 
Quem comandou a reformulação da identidade visual do Flamengo foi Fabio Lopez. Designer formado na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) da UERJ e reconhecido por inúmeros trabalhos relevantes na área. Poderíamos a partir deste trecho continuar de forma convencional a apresentação da carreira do nosso entrevistado. No entanto, convidamos o leitor do MRN a voltar um pouco no tempo, não muito, o ano é 2007. Depois de passar 5 anos trabalhando na conceituada Redley, e trancar o mestrado, Lopez cria algo que literalmente ganha capa de jornal.

Explodem a violência e a vendas de DVDs piratas do filme Tropa de Elite nos camelôs. Os confrontos entre traficantes e a polícia invadem os telejornais do mundo quando, subitamente, um manifesto sarcástico começa a chamar a atenção. Um designer recria o famoso jogo de estratégia militar, rebatizado “War in Rio”. Em poucas horas Fábio recebe milhares de emails, seu telefone não para de tocar e ele começa a dar entrevistas explicando que o jogo é apenas uma representação da realidade inconcebível do Rio. O secretário de segurança pública do Governo Cabral repudia, diz que o jogo banaliza a vida e usa a lógica dos bandidos. Interpretação não era o forte do sujeito. Ao ser perguntado se o “War in Rio” seria comercializado, Lopez responde:

Não. Sem demagogia ou falso moralismo, não gostaria de saber que um assunto como esse realmente virou brinquedo, e foi absorvido pela indústria do entretenimento para tornar as pessoas ainda mais insensíveis a essa realidade. Se alguém resolver fazê-lo será em nome de sua própria consciência. Eu não posso me responsabilizar pela estupidez alheia: não sou babá de ninguém. O politicamente incorreto só tem graça quando é subversivo. Quando é cooptado e vira produto de massa, se transforma em algo degradante e perigoso.

As grandes obras são todas aquelas que sonhamos um dia, disse um poeta (ou um bêbado pedindo a terceira saideira). Colecionador de selos desde moleque, Fabio Lopez foi chamado pelos Correios para agora inventar seus próprios selos. Trabalha no lettering olímpico da Rio 2016. Cria a identidade visual do Centro Carioca de Design (CCD), torna-se palestrante, consultor, editor e professor do departamento de Artes e Design da PUC-Rio. E dá à luz o premiado projeto minirio.com.br.

 

“Guerra do tráfico no Rio vira jogo de tabuleiro”, anuncia o jornal Extra.


 
Foi diante desse currículo que Antônio Tabet, então vice-presidente de Comunicação do Flamengo, procurou Fabio Lopez para comandar o trabalho de ajustar, modernizar e reconceituar a identidade visual do Clube de Regatas do Flamengo. O MRN trocou uma ideia com este grande artista, que explicou um pouco do trabalho em si e de todas as emoções de fazer algo tão significativo para o clube de coração.


 

Diogo Almeida: Como foi o levantamento que a Comunicação do Fla fez sobre as mudanças recentes na identidade visual do clube?

Fabio Lopez: Foi mais um levantamento pra demonstrar não somente a necessidade de se manter atualizado (como todas as marcas de grandes empresas o fazem) como mostrar que TODOS os clubes já passaram por isso, inclusive o Flamengo em outros momentos. Apresentamos cases de referência na área esportiva, bons ou ruins, falando um pouco sobre cada um e porque considerávamos bons ou ruins.

DA: Você pode falar a respeito de algum desses casos estudados?

FL: O projeto da Juventus por exemplo é emblemático. Um bom projeto de design (embora eu tenha minhas críticas) mas uma ruptura inadequada para um meio tão tradicional como futebol (onde a tradição é de fato um conceito relevante). O que a Juve fez era o que a gente NÃO queria fazer. Fica ótimo pra usar em souvenir, mas desaparece no uniforme principal: listra no meio da listra, em um emblema que agora é logotipo e não tem proteção de forma como um escudo.

Do ponto de vista técnico o Boca Jr fez um bom projeto uns cinco anos atrás. O Atlético de Madrid fez um muito bom e respeitoso. A maioria dos clubes ingleses passa por isso constantemente. O redesign do Arsenal é muito bom. E aqui no Brasil… Idade Média.

O Tabet usou esses cases mais pra essa etapa inicial de construção de oportunidade, lá no conselho de gestores, bem no início. Eu entro na história a partir desse ponto. A referência principal e única pra esse projeto, de fato, é o que o Flamengo fez em seu passado e o que entendíamos que queria ser no futuro. Em momento algum nos espelhamos nesse ou naquele clube, ou projeto. Como designer eu conheço trabalhos de qualidade nessa área, mas nem faria sentido ficar olhando pro lado porque são contextos e pretextos totalmente diferentes.

DA: Em algum momento foi pensada uma mudança radical para os escudos?

FL: Eu sou flamenguista. Eu não faria. E deixei isso claro assim que cheguei no projeto. No dia que uma diretoria ganhar cinco Brasileiros seguidos, três Libertadores e dois Mundiais, quem sabe. Mas aí mesmo que não faria sentido mudar radicalmente o que é sagrado pra sua torcida.

Pode ser que um dia a gente olhe pra todo o resto e ache que tudo é antigo e que a Juve foi precursora nesse processo, estava à frente do tempo, genial. Mas hoje, em 2018, não é essa a percepção que eu tenho. Hoje eu olho e vejo um processo que parece não respeitar o que era importante pro torcedor, talvez porque tenha sido criado por uma agência, uma organização que não se relaciona com o conteúdo do projeto de forma emocional – ainda que tenham pesquisado o clube e conversado com torcedores. Mas uma agência não tem time. Não ama o que está fazendo. Não se coloca como indivíduo no projeto e no resultado. Eu antes de ser designer sou torcedor.

DA: Os emblemas ficarão mais visíveis na televisão?

FL: Possivelmente não, sobretudo no escudo de futebol, que atualmente é o que representa a instituição de maneira mais frequente, para o grande público nas transmissões. No CRF sim. Mas aí que está a questão… Esse projeto foi pensado a partir de uma demanda técnica muito mais relevante que a modernização em si. A modernização é a oportunidade, mas existia uma necessidade técnica urgente de renormatizar (organizar e melhorar muito) a gestão de marca do clube, tanto internamente como para fornecedores, parceiros etc.

O Manual de Marca que o Flamengo usava até ontem, criado em 2008 era muito fraco, falho e incompleto. E como eu descrevo no texto do Behance, havia inconsistências nos arquivos, diferenças de CRF que não cabem para um clube ou empresa do porte do Flamengo em 2018. Então o projeto nasce da urgência de se melhorar a gestão da marca.

A partir de uma observação mais específica e técnica, percebemos que os principais símbolos do clube também sofreram muito nessa transição analógico-digital, e esses arquivos eram criados ao gosto do fornecedor. Com exceção da Adidas, cada um mexeu como quis. O Flamengo nunca foi gestor desse processo. Da necessidade de atualizar e complementar o Manual de Gestão da Marca, surgiu a necessidade de se ajustar/consertar/melhorar o que já existia. E no meio desse processo, demos um passo adiante. Então a modernização é quase uma consequência positiva e natural desse processo/projeto, embora não tenha sido, de fato, o que se colocou como urgência na questão da gestão da marca. Agora, isso pro Marketing do clube, Comunicação, é muito bom.

DA: O estatuto do clube não é muito claro em relação a essas normas?

FL: A verdade é que o estatuto não descreve a forma das letras do CRF, apenas que são entrelaçadas etc. E isso acabou abrindo espaço para muitos ajustes a cada novo uniforme, talvez até mesmo sem passar pelos conselhos. Não havia um olhar tão técnico na época também.
 

 
DA: O Flamengo tem uma comissão de uniforme. Não sei exatamente quando ela foi constituída. Você chegou a se reunir com eles? Como foi a relação?

FL: Eu tive muito pouco contato com essa parte política do clube. Não tenho vinculo algum com esse grupo ou aquele, nem era conhecido do Tabet. Meu envolvimento foi puramente técnico, e obviamente sou torcedor, um apaixonado. Eu fui aprendendo sobre essas camadas políticas ao longo do projeto, sobretudo nas etapas de aprovação. Participei da apresentação pro Conselho Diretor, mas a condução interna do projeto – inclusive no Deliberativo – ficou a cargo do Tabet, que era o responsável de fato pelo projeto na instituição.

DA: Quanto tempo você ficou debruçado nesse projeto? E esse período exigiu exclusividade absoluta sua?

FL: De janeiro a maio de 2017, o projeto em si. De julho a novembro de 2017, o manual e arquivos. De janeiro 2018 até esta semana, a etapa de lançamento.

DA: Em todos estes períodos você dedicou-se exclusivamente ao projeto?

FL: Na etapa de desenvolvimento praticamente sim, muito por conta da minha obsessão pelo trabalho. Nas outras etapas, sobretudo o manual, mais longa, era possível tocar outros projetos. Sabíamos que só entraria no uniforme 1 em abril de 2018 e isso abriu esse espaço na minha agenda de projetos. O clube também tem diversas outras ações concomitantes. Então aos poucos a gente foi construindo esse documento, debatendo ele.

DA: Como foi a cooperação com a Adidas?

FL: Bom, eu não cuidei disso. Essa relação com a Adidas é do Flamengo. Único momento em que participei dessa relação foi enviando os arquivos pro Flamengo encaminhar pra Adidas no começo de junho de 2017, assim que o projeto foi aprovado pelo CoDe e estava sacramentado.

DA: Entendi. A Adidas em nenhum momento quis “se meter”.

FL: Nem tem que se meter. A marca é do Flamengo. É que essa relação fornecedor clube não era assim, sobretudo porque os clubes eram (alguns ainda são) instituições amadoras. Por isso eles cuidavam da marca.

DA: Os vazamentos atrapalharam muito?

FL: O clube teve uma gestão exemplar no que tange ao cuidado/sigilo com esse projeto. Os vazamentos ocorreram na produção. E eu fiquei louco com cada vazamento. (Risos).

DA: Pelo visto você é Flamengo fanático. Pode revelar os sentimentos que emergiram nesse processo de trabalhar em algo tão importante para o clube?

FL: Emoção enorme. Mas também muita tensão, ansiedade. É um projeto que acaba afetado (recepção e primeiro momento, pelo menos) por questões que são relacionadas ao futebol. O momento político do clube é conturbado, esportivo também poderia ser melhor. Minha relação com o Flamengo se intensificou de forma preocupante. (Risos). E aí eu sofri muito mais em cada derrota, em cada confusão. Queria como torcedor um ano mágico, e mais do que nunca, agora também pelo envolvimento com o projeto.

Tudo até aqui foi muito virtual, lançamento foi nas redes, digital. Na sexta-feira passada eu vesti a camisa pra gravar um depoimento para um hotsite do Flamengo que ainda vai ao ar, parceria com a Wix. Aí sim deu aquele gostinho de ver a coisa real, saca? Incrível. Como eu coloquei no meu Instagram, zerei o jogo.

DA: Você pode revelar os sentimentos que emergiram nesse processo, nas diferentes etapas (quando soube que seria sua tarefa, durante o desenvolvimento e no lançamento/repercussão)?

FA: Como esse projeto foi sendo construído aos poucos, e tinha toda uma escalada política pela frente, eu fui com muita calma até ele ser aprovado no CoDe, comemorando cada etapa que passava. Depois disso foi muito especial. O fato de ter que permanecer em sigilo, limitou um pouco daquela alegria que explode, de contar para os amigos. Agora está sendo muito especial e acho que vão rolar muitas etapas ainda nesse processo emocional. Ver na TV, ver ao vivo, na sede, no Ninho, no jogo, nas ruas, nos desconhecidos, ver nego tatuando, beijando, jurando amor. Ainda vai ser incrível muitas vezes.

E doloroso. Em cada derrota. Como nunca foi. Eu estou fu*&;#. Mas quem não gostaria de estar fu*&;# desse jeito? E sou um torcedor otimista. Eu desejo feliz ano novo e rumo a Tóquio em todo réveillon. Que flamenguista não é assim?

DA: Todo garoto que curte futebol e que sonha ser desenhista faz um desenho do escudo do seu clube. Contigo virou oficial! Você entrou para a história do clube do seu coração.

FL: Pois é. Porra, me fez chorar. Beleza, tem acontecido com frequência. (Risos). Eu volto lá pra minha infãncia, desenhando o escudo no caderno. No Maraca sem cadeira com os amigos nos anos 90.

Eu fiz alguns trabalhos bem importantes. Esse é sem dúvida o mais incrível, por muitos motivos. Ele divide espaço com outros três que considero importantes pra caramba na minha carreira, dentre outras coisas:

Logotipo ‘Rio 2016’, que é um projeto que entra pra história do design gráfico internacional;

War in Rio, um projeto de 2007 que foi parar na capa dos jornais e telejornais do país. uma paródia do jogo War adaptada pro Rio de Janeiro, foi criticada pelo Beltrame, fez uma bagunça enorme na época;

Mini Rio, um projeto pessoal de quase dois anos (segue crescendo) em que criei mais de 100 pictogramas da cidade do Rio, outra centena de padronagens e ilustrações, 4 fontes exclusivas que distribuo gratuitamente, quatro prêmios (três gringos), palestra pra caramba, filho querido.

Almofada com torrcida do Fla estilizada. No detalhe a bandeira com o retrato de Zico. (Crédito: Fabio Lopez)

Mas tiveram outros concursos e projetos importantes pra somar. dos sonhos profissionais por exemplo, eu colecionava selos quando moleque, depois voltei a colecionar designer e fiz alguns pros Correios. Foi uma coisa muito divertida fazer um selo postal pra minha coleção.

DA: Fabio, muito obrigado!

FL: Foi um prazer. O mais legal desse projeto é poder fazer novos amigos, estreitar contatos. Galera lá no Flamengo da Comunicação e Marketing, só gente boa. Todos com um amor enorme pelo que fazem e por onde estão.
 

Homenagem aos 100 anos do clube. Lopez tinha 16 anos quando fez o desenho em uma camiseta. Crédito: Fabio Lopez.


 

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