O mês de janeiro foi, para o torcedor rubro-negro, uma espécie de “idos de março” – a expressão consagrada pelo episódio histórico em que o imperador de Roma Júlio César é assassinado a facadas na Cúria dentro do Senado romano. Um adivinho teria dito a César que tomasse cuidado com os idos de março, e ele ignorou – consta na História que momentos antes de entrar no local do qual não sairia vivo (e sim carregado cadáver de volta para casa por servos), ele chegou a receber um último aviso, igualmente ignorado.

A expressão passou a ser usada na política – no Brasil, principalmente, já que março historicamente é um mês intenso: já foi a posse dos presidentes da República, é depois do Carnaval, é quando “começa o ano de verdade” segundo a maioria dos brasileiros, é quando as águas são despejadas dos céus “fechando o verão” como na monumental e inesquecível obra de Tom Jobim. É pau, pedra, o fim do caminho.

Desta forma, vimos o pânico com o Rueda nos deixando (rei morto, rei posto), sentimos o terror com as questões dos reforços que não aparecem, e corremos a lembrar que Paulo César Carpegiani, o Homem de Erechim, não ganha nada importante há 36 anos e que seu último clube foi o Bahia e que este fez uma campanha irrelevante. Pronto. Tudo estava perdido já em janeiro, melhor pular logo para 2019.

No blog: The trouble with Flamengo

Antes de prosseguir, cabe esclarecer aqui que esta argumentação não se dirige a quem milita pela oposição rubro-negra – por incrível que pareça, este não é um artigo político, tampouco é dirigido a defender este ou aquele dirigente. Nem tenho a intenção de, escrevendo, agradar governantes – pois ficaria preso à regra proposta por Ben Disraeli, primeiro-ministro britânico no século 19 (acredito que é a ele que o Cream se referiu ao lançar “Disraeli Gears”, mas confesso que não sei): “Minha ideia de pessoa agradável é aquela que concorda comigo”. Não, passar a escrever artigos que apenas defendam a diretoria rubro-negra é tarefa inglória e a meu ver pouco afeita a torcedores – no máximo a quem está cavando uma vaga ou coisa do tipo.

Mas já que falamos no imperador romano, é preciso dar a César o que é de César. Nem bem a metade de janeiro chegava e a diretoria rubro-negra já era espinafrada, espezinhada, com todos os xingamentos nas redes sociais (me espanta, aliás, o quando eles se importam com redes sociais), acusada de levar o clube ao rebaixamento, de causar a eliminação do Brasil da Copa do Qatar e de implementar o crescimento de todos os anões de circo num raio de 20 mil quilômetros.

...

O momento supremo deste pânico foi no dia 17 de janeiro, quando Carpegiani escalou um time de juniores, contra um Volta Redonda “treinando desde dezembro” e “com Vinicius Pacheco”. Era a estreia do Estadual. “Os garotos vão levar uma sapecada”, escreveu-se alhures. E o que aconteceu, incrivelmente, foi um BANHO DE BOLA, com dribles, passes, piques, carrinhos, e ainda divididas com uma virilidade que eu não via desde que Manguito parou de jogar. Mas como?

O leitor enfastiado com a longa argumentação há de ter mais paciência, porque é aqui que chegamos ao ponto em que realmente queria chegar. Para tanto, invoco uma expressão criada pelo escritor libano-americano Nassim Nicholas Taleb: o Cisne Negro. A teoria de Taleb é desenvolvida no livro A Lógica do Cisne Negro, em 464 páginas nas quais o autor escreve uma prosa agradável, teorizando sobre acontecimentos históricos e contando sobre sua própria vida no Levante. O Cisne Negro de Taleb é o acontecimento para o qual ninguém tinha nenhuma previsão, mas que depois de ocorrido é explicado com facilidade.

O autor criou um Terceto da Opacidade para explicar como a mente humana é atingida diante dos fatos históricos:

...

1- Ilusão da Compreensão – quando todos acham que sabem o que está acontecendo, em um mundo infinitamente mais complicado do que podem perceber;
2- Distorção Retrospectiva – a capacidade humana de abordar o assunto como em um espelho retrovisor, com tudo parecendo mais claro e organizado do que realmente é;
3- Supervalorização da informação factual – este mal se associa a outro dado, que é a deficiência de pessoas com conhecimentos profundos e muito estudo. “Particularmente quando criam categorias — quando ‘platonificam’”.

Assim, todos acham que sabem que Carpegiani não será boa escolha, mas junto com ele vem uma equipe técnica que poucos conhecem, além de novos planos. O item 2 também: o assunto Juniores é abordado com espelho retrovisor e com base nisso julgamos que um time só de juniores dará errado. E supervalorizamos informações factuais, como a de que se o Rueda for embora o planejamento é abalado.

O Cisne Negro é um acontecimento de muita raridade, reconheçamos. Taleb cita como exemplos o 11 de setembro e o Google (para ficar nos exemplos que todos conhecemos). Ninguém podia prever, em 10 de setembro de 2001, que no dia seguinte o maior centro financeiro do mundo fosse destruído completamente por dois aviões lotados de passageiros. Mas depois do fato, refizemos as pegadas, analisamos fatores e motivações e concluímos que houve omissão da CIA, FBI, George W.Bush ou Bandeira de Mello que não previram o atentado. Quando o Google surgiu, era apenas uma marca de buscador de Internet, ao lado de Yahoo, Cadê e AltaVista. Hoje, é uma espécie de Grande Irmão, que grava nossas conversas, sabe tudo o que consumimos e tem todos nossos dados. O Google é um Cisne Negro. O surgimento de um império Google nos impacta do mesmo jeito que um cisne negro impactou o primeiro viajante ocidental a atingir a Austrália, como nos conta Taleb no primeiro parágrafo do livro:

“Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Antigo Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. Esta era uma crença inquestionável por ser absolutamente confirmada por evidências empíricas. Deparar-se com o primeiro cisne negro pode ter sido uma surpresa interessante para alguns ornitólogos (e outras pessoas extremamente preocupadas com a coloração dos pássaros), mas não é aí que está a importância dessa história. Ela simplesmente ilustra uma limitação severa no aprendizado por meio de observações ou experiências e a fragilidade de nosso conhecimento. Uma única observação pode invalidar uma afirmação originada pela existência de milhões de cisnes brancos. Tudo que se precisa é de um único pássaro negro.”

Leia também: O primeiro de muitos

Desta forma, a partir das ideias de Taleb, eu quero propor uma teoria. A Teoria do Cisne Rubro-Negro. Trata-se de entender que acima de tudo, basicamente, há regras que só valem para o Flamengo, seja contra ou a favor deles. O lendário Oswaldo Tinhorão, defendia, por exemplo, a teoria de que o Flamengo só voltará a ser campeão da Libertadores se ganhasse o Campeonato Brasileiro antes. Em 2009, ganhamos, mas fomos mal na Libertadores – Tinhorão vaticinou que a regra não dizia que ganharíamos a Liberta sempre que ganhássemos o Brasileiro, e sim que sempre que ganhássemos a Libertadores haveria a conquista do Brasileiro no ano anterior. Classificar sendo sexto colocado, por Copa do Brasil ou Sul-Americana seriam “portas dos fundos” para o Flamengo – e apenas para o Flamengo.

Assim, finalmente concluindo, para alívio dos que conseguiram chegar até aqui, peço calma aos irmãos da imensa Congregação Rubro-Negra: saída de Rueda, Carpegiani, Marlos Moreno, times de juniores, tudo isso, em outro clube qualquer, poderia significar até o rebaixamento para a série C (ainda que no ano seguinte se montasse uma primeira divisão para convidar o clube a jogar). Mas no caso do Flamengo, lembrai-vos do Cisne Rubro-Negro: há coisas que o Flamengo precisa cumprir, outras que só não dão certo no Flamengo (tipo Deivid) e outras que quando acontecem no Flamengo podem ter um significado completamente oposto ao que estamos acostumados. Não se trata de uma paráfrase do famoso “coisas que só acontecem ao Botafogo”, e sim de um mandamento: o caminho do Flamengo é único e intransferível, e cheio de provações que ninguém mais tem.

Como diriam na minha Igreja, este é o mistério da Fé Rubro-Negra.

Uma boa semana a todos.


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.


 

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