Eu tinha um amigo que sempre depois de tomar uns fogos nessas noites quentes desses nossos trópicos repetia, à medida que alguém na mesa se afastasse do objetivo da conversa, o bordão do Brás Cubas; “sim, sim, sim mas… ‘voltemos ao emplastro’”. O Brasileirão, em ano de Copa, é nosso emplastro Brás Cubas, sempre nos lembrando da dura realidade após um mês de padrão FIFA; com gerações belgas e negros maravilhosos. É nossa cachaça amarga que forja o caráter do torcedor brasileiro e mais precisamente, dos milhões de homens e mulheres ornados com o Manto Sagrado. Pra nós, rubro negros e rubro negras, chegou a hora do reencontro com a realidade, ainda bem…

Claro que a copa apresentou alguns certames de primeira linha, como o ensandecido Portugal e Espanha ou Argentina e França, com o desabrochar de Mbappé – o Marlos Moreno dos franceses. Fato é que a Copa da Rússia foi bonita e joiada, com bons jogos, duelos de países com novas gerações de bons jogadores e expondo ao mundo que a capital do futebol de alto nível técnico é a Europa e não nuestrasudaméricaque sucumbiu deixando apenas os retratos melancólicos de craques mimados, gênios envelhecidos e uma falsa esperança na garra charrua dos bravos uruguaios, só.

Depois desse passeio no paraíso, voltamos ao emplastro, e diante de um monte de rubro negros sempre vestidos com as melhores cores desse meus pais, o Flamengo quedou diante da retranca do pessoal do tietê que, convenhamos, ajudou e muito na péssima qualidade do espetáculo, “peladiou” o certame com muita porrada e uma proposta de jogo de time pequeno, mas se temos desígnios maiores nesse ano, é preciso atropelar essa turma. O jogo de ontem foi um choque de realidade, como depois das férias, quando lembramos dos boletos à serem pagos, dos trabalhos acumulados, dos textos emperrados, da vida, miúda e cruel, que todo brasileiro tem que vencer cotidianamente. O Fla ontem deu um tapa em nossa cara e disse: acordem, seus putos!

Depois de uma porrada de dias parado, esperávamos, no mínimo, a mesma organização e certa consideração ao público que encheu o Maracanã, porém o time, sem a ajuda de luxo do onipresente Cuellar, ficou dependente da astúcia do Rômulo na intermediária. O ex vascaíno não encontrou o fuso horário desde que voltou da Europa e é dotado de uma vagareza aflitiva que consumia, passe a passe, as unhas e cabelos dos mais agastados. A atuação descontextualizada da realidade que o Rômulo fez ontem deixou até os mais letrados na bola com saudades do Jonas e isso é sério. Das coisas mais interessantes que o Flamengo pré copa apresentava, o meio-campo, sem dúvida, era uma delas, eu já sonhava com o Cuellar desarmando Modric e Paquetá rabiscando pra cima do Casemiro. Mas Nenê e Diego Souza foram suficientes pra deixar o nosso volante mais perdido que azeitona em pão doce.

O substituto do Vini está longe de convencer, apesar de voluntarioso o Marlos Moreno não trabalha e nem dá trabalho pra gente, é passável, inclusive dá uma certa pena dele, parece ter na cara um pedido de desculpas eterno por alguma coisa que não sabemos o que é. Corre, se esforça, tenta dribles óbvios e, vez por outra se dribla a ponto de enganar ele e o marcador e, apesar de todo esforço e correria ele contribui pouco na marcação e deixa mais claro a necessidade de contratar alguém para aquele lado. A saída do Vinícius deixou o time sem a possibilidade do brilho, já que o guri, mesmo quando errava, movimentava o jogo, tinha um certo protagonismo, comoum solista do Jazz, como Oscar Peterson. Saca?

Vale ressaltar que voltamos aos solos desafinados do Guerrero. O atacante peruano esteve pouco inspirado e retornou aquele estado de enfadonha solidão. Um amigo, de forma tenaz, sugere que os acadêmicos de plantão trabalhem a questão ontológica que reside na solidão do peruano no time do Flamengo. Cabe muita coisa aí. Inclusive a questão desse indivíduo junto ao grupo do qual faz parte, afinal, com esse time jogando no toque de bola refinado esperávamos que o peruano rendesse mais com a bola rodando nos pés da turma mais erudita. O que não aconteceu ontem. O time estava desregulado, desafinado; Paquetá, diante do mistifório que se passava na cabecinha do nosso volante não sabia se voltava, se atacava, se marcava, se driblava e isso contagiou o grupo, Diego incorporou, novamente, o modo enceradeira, ER7 não acertava os passes e Réver, mais exposto que o francês peladão, passou por momentos constrangedores diante do Rojas.

Barbieri não esteve bem, essa aposta insólita no Trauco não fez sentido, será que o Peru, na copa, não foi suficiente para desistirmos dessa parceria Trauco e Guerrero? Sabemos que não dá certo, nem aqui, nem na Rússia. Matheus Sávio, vindo de uma nave alienígena, entrou em campo e nada fez, como se esperava.

Mas nem tudo deu errado, Léo Duarte, nosso zagueiro rápido, foi determinante em muitos lances; desarmou, saiu jogando bem e foi preciso na maior parte dos lances aéreos; talvez tenha pecado, levemente, no lance do gol, mas naquele balaio de gato o Renê roubou todo o protagonismo apresentando um solilóquio de trapalhadas de doer o fígado. Outro ponto positivo, na minha humilde avaliação foi o Uribe, o colombiano se posiciona muito bem e só não teve melhor destino porque sofreu, como todos os outros, com os erros técnicos e ouso dizer que se não fosse o gol do ex poderíamos ter tido outra sorte no jogo.

O que fica de esperança é o clássico rural contra o Botafogo e uma urgência, por parte dos dirigentes do Flamengo, em contratar jogadores que possam afinar a orquestra; precisamos de laterais – sobretudo esquerdo – volante, meia esquerdo e zagueiro. Urge! Senão não alcançaremos a celebridade com o emplastro.

 


Imagem destacada: Gilvan de Souza/Flamengo

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Alexandre Greco é jornalista, escrevinhador e rubro negro, especialista em nanohistórias e contação de mentiras. Saravá! Siga-o no Twitter: @alexandregrecco.

 

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