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Por Arthur Muhlenberg

Gente velha é um saco, tem dificuldade pra se adaptar aos novos tempos. Eu, por exemplo, não consigo me acostumar com o Flamengo jogando aos sábados. Quando o Flamengo não joga como Deus manda, domingo às 17 horas, bagunça minha rotina, minha programação de leitura, teatro, boate, cinema e, consequentemente, meu relógio biológico. Se eu for com tudo hoje à noite não me garanto de estar de pé amanhã na hora do prélio.

Na minha juventude jamais perderia a oportunidade de sair pra esbórnia violenta em uma noite especial para quebrar espelhos, cruzar caminhos com legiões de gatos pretos e passar por baixo de todas as escadas possíveis numa sexta-feira 13 de Lua cheia. Traz até uma certa melancolia me lembrar que na ultima vez que isso aconteceu, em outubro de 2000, eu tava em São Paulo trabalhando como um corno, e pensar que na próxima, em agosto de 2049, eu talvez não esteja com a mesma disposição pro reggae.

Fazer o quê? Como aprendi com Van Damme na Legião Estrangeira, marche ou crève, arrombée! Diante das opções oferecidas sempre optei por marchar, o que hoje significa ficar quietinho no meu cafofo, colando figurinhas no álbum do Mengão, curtindo alguma pornografia e contando as horas pro apito inicial do Flamengo x Santos de amanhã.

Do mesmo autor: Urubu Cinquentão

Será o primeiro jogo em que o Flamengo defenderá sua liderança no Brasileiro em 2019. E logo contra o segundo colocado que, de acordo com as ameaças divulgadas pela ínclita e imparcial imprensa esportiva paulista, vem em busca da vitória no Maracanã. Ui, que meda. Se tem uma coisa que aprendi no meu tempo sobre essa rocha esférica girando a 1.675 mil km por hora em torno do Sol é que o jogo é jogado e o lambari é pescado. Recado de jornalista não vale nada.

Só acho que um grande jogo como esse merecia ser jogado no horário nobre e não servir de argumento irresistível de venda pro pay-per-view. O Santos é um adversário digno, com história e camisa. Aliás, é a segunda camisa de time brasileiro mais conhecida no exterior, só perdendo em reconhecimento pro imaculado Manto Sagrado rubro-negro.

Ainda por cima, os alvinegros praianos, à semelhança do Flamengo, tão jogando um futebol moderno e ofensivo, bem diferente do anacrônico futebol de resultado que ainda se pratica na maior parte dos grandes sertões veredas do Brasileirão. Será que tem algo a ver com a nacionalidade dos seus treinadores?

É lógico que tem. Se não fossem esses dois gringos e suas maluquices ainda estaríamos prestando vassalagem às retrancas, ferrolhos e catenaccios que nos últimos anos foram elevados à última bolacha do pacote tático pela preguiçosa e subserviente comunidade boleira nacional.

Falo isso com tranquilidade, sou preguiçoso há muitos anos e reconheço meus iguais só pelo jeito deles amarrarem os cadarços da chuteira. Jorge Jesus e Sampaoli bagunçaram tudo, modificaram hábitos e acabaram com a rotina de muitos gatos mestres de armazém que agora precisam se mexer pra encontrar um saco onde possam dormir em cima. Está sendo muito bom ver com que agilidade e malemolência de uma hora pra outra todo mundo virou entusiasta e propagandista do futebol ofensivo e prafrentex.

O que é ótimo, principalmente pros outros times brasileiros, que tem aumentadas suas chances de, com algum atraso, sair do século XX. Todo mundo sabe que quem bate esquece, mas quem apanha não. Levando pisas, tundas e sapeca-iá-iás do Flamengo em quase todas as rodadas esses times que ainda vivem sob a sombra retranqueira dos Helenio Herrera da Grande Matão vão acabar aprendendo. Ganha o futebol brasileiro.

Velho ou não, de ressaca ou não, só sei que o último jogo do Flamengo no turno do Brasileiro tem tudo pra ser um grande espetáculo. Dos nossos jogadores nem precisamos comentar, os caras estão jogando o fino. Com confiança e seriedade, sem perder a ousadia que é característica comum aos grandes times. Do Santos, que não acompanho com muita assiduidade, só posso dizer que não estão mortos. A chance de termos um 0x0 amarrado e sem graça no Maracanã é praticamente nula.

A entidade beneficente sem fins lucrativos torcida do Flamengo está fazendo um admirável esforço, mesmo sem necessidade, pra segurar a onda e manter os pés firmemente apertados no sapatinho frenético dos humildes de ocasião. Mas nós somos o que somos. Ainda era o século XVII quando o filósofo polímata Leibniz disse que a natureza não dá saltos. Não existe uma varinha de condão que separou os rubro-negros primitivos da sua origem miserável e sua marra indomável, dos atuais rubro-negros afluentes e conscientes de que nada ainda está ganho. Ainda faltam 20 rodadas.

O que é verdadeiro em relação a nós é verdadeiro em relação à natureza. Se nós temos consciência, como nossa espécie rubro-negra parece ter passado a ter, então a natureza tem consciência. A natureza se torna consciente em nós para observar a si mesma. Porque não existe nada mais foda do que ver o Flamengo ganhar no Maracanã para ver o show da torcida. E aplaudir e comemorar a nossa mera existência.

Por isso que essa noite em vou ficar em casa, mas calçando meu sapato de ir no samba. Quem for pra night não esqueça de olhar pro céu e bater palmas pra Lua. Lembrem do papo das 10 virgens. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora (Mateus 25:13).

Mengão Sempre

Em ‘Hexagerado’, Arthur Muhlenberg narra a história da conquista do Campeonato Brasileiro de 2009 pelo Flamengo, jogo a jogo.
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