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Acordo, são 7 da manhã. Levanto puto, pois o projeto era estar de pé às 5h. Tomo aquele banho sinuca e vou pro Maraca tentar a sorte. Não tinha ainda o ingresso, nem a certeza de que estaria lá aquela noite.

Chego na fila e espero. Ali ocorrem situações engraçadas pra aliviar a ansiedade de quem ainda luta por um lugar no templo. Um cidadão tem o carro rebocado do outro lado e ri, o mesmo leva um fora de uma cidadã ignorante que pedia informação sobre o Mundial de Judô, que rolava no Maracanãzinho, um PM dava carteirada em cambista pra comprar a preço de bilheteria. Aliás, cambista é uma das piores raças existentes na humanidade.

– Que dia hein, irmão. Relaxa que o Mengão vai compensar mais tarde.

Minha vez. Não tem Norte, só Leste (chamado de Centro Superior na época). Que se dane, tenho que estar lá mesmo que seja pendurado no teto. Vamo que vamo.

Ingresso na mão, tô garantido. Volto a meu lugar preferido depois de três anos. E a última vez foi traumatizante: derrota pra La U na Libertadores.

Parto pro estágio. A cabeça está longe. Nem tanto, alguns quilômetros só, estou no Centro do Rio. Produzo menos que o ataque Dimba & Marcos Denner. Só quero saber se o Elias vai estar em condições.

Ih, é aniversário da mamãe!

– Alô, mãe? Parabéns! Felicidades, tudo de bom, blá blá blá blá, te amo. Beijos!

Hora de ir embora. Vou pra casa ainda, em Nova Iguaçu. A ideia é tirar um cochilo antes de ir pro jogo, já que dormi pouco à noite. Desço do prédio e minha então namorada me liga desesperada:

– MEU DEUS, QUE HOUVE?

(Algum relato de tanta utilidade quanto o Léo Medeiros na lateral esquerda)

– PORRA, FERNANDA! QUE SUSTO!

Segue o jogo.

Pego o metrô, desço na Pavuna, esbarro com uma amiga que conhecia só de Internet. Porra, é a Isa! Que doideira, logo tu aqui. Logo hoje!

Descendo a rampa, um menino me entrega um panfleto e me chama de “moço”. Sim, um moleque de 18 anos, sem qualquer projeto de barba na cara, virou um moço. Que dia imprevisível.

Tchau Isa, oi vó, tô em casa. Tem encomenda pra mim, nem lembro o que é.

Ah não! É a camisa do Botafogo que comprei pro Breder, de aniversário. Não vou deixar esse antro de maldição debaixo do teto de uma casa que respira Flamengo logo hoje. Esquece o projeto cochilo, vou levar essa merda lá na casa dele.

É perto, mas é chão. A distância é como se fosse do Maracanã até a Praça da Bandeira, mas subindo e descendo uns dois morrinhos.

– Tá em casa, mano?

– Tô, mas ocupado.

– Tenho que levar uma parada aí.

– Amanhã tu traz.

– Seu rabo. Tô indo levar agora e pronto. Para o que estiver fazendo.

Ele não sabia do que se tratava. E o menino ficou felizão com a surpresa, até por ser uma época rara em que o time dele deu esperança (e só) de alguma coisa.

Banho mais elaborado, manto no corpo, partiu. Agora sim começou o dia, ou pelo menos, o que interessa dele.

Viniço, Nilson, Nilson pai do Nilson, carona esperta, ninguém segura. Nem o Cruzeiro.

No caminho, começa Voz do Brasil no rádio.

– Programa chato, troca a estação aí.

O Nilson Filho trocou mesmo. Burrão.

Meu irmão, que saudade de avistar o logo da Golden Gross naquele prédio nas redondezas. Aquela sensação de que realmente chegamos. Abro o vidro e ouço o coro do “Vamos, Flamengo”, cantado na rua.

O Cruzeiro não vai aguentar essa pressão. Não vai!

Entramos. Aquele misto de “tô de volta”, “ficou lindo” e “que porra que fizeram com o meu Maraca?”. Não importa, hoje a causa é outra, seja ali ou no Conselheiro Galvão.

E o Elias hein? Vai jogar ou não? Que agonia!

Hora da escalação. Wallace! Meu Deus! O que o Mano tá fazendo? Nem passa pela minha cabeça que será a melhor atuação do cidadão com a camisa do Flamengo.

Elias! Porra! É isso!

Toda honra e memória a Marcos Lima.

Bola rolando. Primeiro lance, Dedé se embola e joga pra lateral de qualquer jeito. Ali, a certeza:

Se borraram! Esse Maracanã lotado os assustou. É possível, Flamengo!

João Paulo em cima da linha, Felipe catando borboleta numa bola rasteira, Wallace aparecendo na área como centroavante, André Santos tentando letra, pé do Marcelo Moreno passando a centímetros, contusão do Cáceres… Nada.

Rafinha, Paulinho, Elias… Luiz Penido explica melhor que eu.

A rede balançou. E hoje ela pode ser quadrada, ninguém liga.

Não precisa do véu, basta a noiva. Nosso casório com o Maraca estava refeito. Quem ama volta.

Os segundos após o gol são a única parte do dia que não lembro. A embriaguez rubro-negra é um estado tão raro que nem a memória ousa registrar. Provavelmente, eu devo ter criado um grau momentâneo de parentesco com qualquer um que estivesse à minha volta.

Conseguimos. E na hora da alegria, o “eu avisei” não se torna oportunista. Meus amigos que me aturem na volta relembrando 2 em 2 minutos todas as vezes que falei que o jogo estava com cara de ser épico.

Ligo pra Fernanda:

– Tá tudo bem aí?

– Sim, por quê?

– Porque hoje é o dia mais feliz da minha vida. Só pra avisar que tô vivo.

– Aff.

Ligo pro Breder:

– Me espera nas quartas, otário!

– Time cagão da porra.

Eu estava no Maraca no gol do Angelim e também na própria final em 2013. Inesquecíveis. Mas ainda não tive um dia de Flamengo que se equivalesse a este que vos conto.

Elias não é um ídolo meu, embora esteja na minha seleção do século no Flamengo. Nem peço mais sua volta. Mas ele me proporcionou o dia mais feliz da minha vida.

Hoje é dia 28 de agosto. Faz cinco anos. Eu voltaria no tempo quantas vezes fosse possível pra viver tudo aquilo novamente.

Amanhã é dia 29 de agosto. Daqui a cinco anos, quero ter essa mesma vontade.

O 28 de agosto de 2013 me faz crer no 29 de agosto de 2018.

É possível, Flamengo!

Saudações,
 


Léo Leal escreve no MRN e participa do programa Mesa Rubro-Negro no YouTube. Siga-o no Twitter: @_LeoLealC

 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Reprodução

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