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Por Leonardo Leal – Twitter: @_LeoLealC

O Flamengo precisa aprender sobre si mesmo de tempos em tempos. É do seu instinto que isso aconteça na beira do abismo.

Alguns tombos, na vida, mesmo podendo ser evitados, são necessários. É no baque que você muda a forma de agir, lidar e busca o caminho mais correto pra si. Na mudança instantânea de atitude, o resultado alcançado é o maior aprendizado que se pode ter.

O Flamengo precisa aprender sobre si mesmo de tempos em tempos. Em alguns ciclos, o flamenguismo se enfraquece, sendo necessário renová-lo em doses cavalares. E é de seu instinto que isso aconteça na beira do abismo.

Do mesmo autor: Geraldos e o desgosto profundo

Não é com uma contratação bombástica, nem uma sequência de vitórias convincentes; isso apenas o rega quando está no auge do pulsar, não o planta. O flamenguismo renasce na necessidade, no perrengue. Não é uma escolha – fosse, o coração certamente seria poupado -, é condição.

O baque veio. Num embate “fácil” e comemorado no sorteio, levamos uma fubecada bem dada e perdemos meio time por lesão. Ainda assim, tínhamos qualidade futebolística pra virar – o adversário era horroroso – mas precisávamos de algo a mais.

A torcida, que sempre está junto, precisava também jogar. O tão bem desenhado “Jogaremos juntos!” precisava ser uma promessa, não só uma frase motivacional. O Rio de Janeiro, que sempre respirou Flamengo, precisava estar ofegante. E então, os 11 escolhidos a carregar nossa camisa deveriam ser o produto, não fatores; no grito, deveríamos fazê-los entender do que se trata.

Era quinta-feira, dia seguinte à porrada, quando vi a carta de união das organizadas; sexta, papos e mais papos sobre virada e classificação; domingo, após porrar um eterno freguês, um recado: “Vamos virar, Mengo!”. Não estávamos pedindo, e sim avisando.

O flamenguismo, que andava enfraquecido, impedia este tipo de confiança.

A melancolia e o “mais do mesmo” nos convenciam que estávamos tomados pelo tal azar. Mas desta vez, de repente, pulsa-se flamenguismo em qualquer “Bom dia” às vésperas do jogo.

Ninguém o força, nem finge acreditar que podíamos pra disfarçar uma possível certeza de mais uma tragédia. Ele simplesmente acontece e nos faz crer de verdade, baseado em nós mesmos.

E quando se entende e se reaprende, todo caminho a se percorrer torna-se menor e mais divertido. Quem o percorre, está mais leve.

Foto: Alexandre Vidal / Flamengo

Dos loucos que foram de manhã montar o mosaico cadeira por cadeira, passando pelos milhares de doentes que dedicaram sua noite de quarta-feira a estar ali, até os milhões que ficaram de frente pra TV rezando por 11 homens, o Flamengo se deu uma aula sobre Flamengo. Cada um de seu jeito, como pode, de perto ou de longe. 

Ele deve ser, acima de tudo, sentido.

Rafinha, que ficou 14 anos na Europa ganhando taça atrás de taça, não se jogou no chão pra chorar; foi jogado. Da mesma forma que nosso técnico não escolheu ficar sentado de pernas cruzadas vendo o Maracanã em ebulição.

Precisamos escalar essa montanha em todo mata-mata? Não. Mas precisávamos nos resgatar pela alma, e a única forma era esse baque. Para deixar claro que, numa outra montanha, teremos totais condições de escalá-la.

Não sabemos se haverá algum efeito colateral desta dose cavalar, nem tampouco onde chegaremos. A diferença é que agora acreditamos, de verdade.

Além de Filipe Luís e as voltas de Arrasca, Everton e Rodrigo, ganhamos o maior reforço: nós mesmos.

O Flamengo é uma criação do coisa ruim, mas Papai do Céu gostou tanto que tomou pra si na marra. 

Qual seja a religião do xará do filho, qual seja seu Senhor, “… Ele é Flamengo”.
“… eu também sou”

Faltam cinco.

Saudações,
Twitter: @_LeoLealC
Insta: @leoleal_cl

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