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Todos já falaram e eu prefiro falar depois de todos: não faz mais muita diferença se vamos ganhar alguma coisa

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Por Gustavo de Almeida – Twitter: @gustones

Na série Manifest (Globoplay), uma família se divide no aeroporto de Kingston (Jamaica) para voltar a Nova York: pai, filho e tia do filho embarcam num voo alternativo com direito a bônus, enquanto o restante (avós, mãe e irmã gêmea do menino embarcado) espera pelo voo previamente marcado. Só que o voo alternativo, o 828, misteriosamente desaparece. Para os passageiros, se passaram três horas. Para os que não embarcaram, ou seja, a humanidade, passaram-se cinco anos e seis meses.  

Na noite de quarta, eu era o cara que pegou o 828 mas há 38 anos. 

Desembarquei ali no Aeroporto Santos Dumont. Eu tinha 13 anos quando desembarquei, ali por volta das 18h de quarta passada. Achei que meus pais fossem me buscar, principalmente meu velho, para ir ao jogo, pois era Libertadores. 

Mas eles não estavam lá no Santos Dumont me esperando. Ninguém me explicou por quê.

Segui adiante, sozinho, para o Maracanã. Quando entrei, vi um estádio diferente, sem a geral, mas algo permanecia: a gigantesca torcida do Flamengo, cada vez mais apaixonada. Olhei para o banco e não vi Paulo César Carpegiani, mas sim um senhor de cabelos compridos, grisalhos, esvoaçantes. 

Procurei por Zico, Adílio, Júnior, Leandro, Nunes, meu ídolo Nunes, mas não achei. 

Sentei em frente ao gol defendido por Paulo Vitor no primeiro tempo.

 No Ethos Flamengo: A fé e a nossa identidade

Vi o jogo complicado como sempre foi contra o Grêmio. Até que, não sei por quê, sem nenhum motivo racional e explicável, comecei a verter lágrimas: tinha acabado de acontecer o gol de Bruno Henrique e algo me disse, direto à mente, que estávamos na final da Libertadores. 

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Foto: Alexandre Vidal, Marcelo Cortes & Paula Reis / Flamengo

Prendi o choro, enxuguei as lágrimas que escaparam, porque elas desciam correndo tal e qual o Bruno Henrique, que ainda tropeçava tal e qual meu soluço. E pensei que o Zé estava ali perto, cheguei a ficar chateado com ele porque não foi me buscar no aeroporto. Sim, o Zé é meu pai. Aquele que a criança de 1981 não reencontrou em 2019 no aeroporto, por motivos que vocês já imaginam.

Mas eu via o Bruno Henrique e sabia que de alguma forma o Zé estava vendo.

Bastou aquele primeiro gol, maravilhoso, lendário, feito no rebote pelo mesmo jogador, pelo mesmo azougue que iniciou a jogada, com um pique alucinante capaz de transpor a melhor zaga do país. Sim: não comemorei muito os outros gols, não mais do que o previsto. 

Percebi que naqueles segundos do gol do Bruno Henrique eu era, de verdade, uma criança de 13 anos que havia saído do voo 828. E entendi o por quê das lágrimas: eu queria que o Zé estivesse ali. E eu sabia que ele estava,

Livro: 1981 – o ano rubro-negro – Eduardo Monsanto

Todos já falaram e eu prefiro falar depois de todos: não faz mais muita diferença se vamos ganhar alguma coisa. O Flamengo nunca precisou ganhar alguma coisa, jamais precisou ter mais títulos (apesar de termos o maior número de estaduais), não é nada disso.

Mas a gente sempre precisa muito ser o Flamengo: temível, devastador, explodidor de corações. Passamos anos e anos em que até ganhamos títulos, Copas do Brasil, Brasileiro de 2009, fomos felizes sim, não vamos desfazer disso. 

Só que o nosso amor é uma arte, precisa ser pintado de forma impressionista e expressionista, precisa ser cantado em sonatas para cegos feitas por surdos, precisa ser escrito em pergaminho. 

Nós somos viciados em Ser História.

E ali o menino de 13 anos sabia que era História de novo, e só por meio da História que a Saudade nos poupa a alma. 

Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos desde sua partida em 1984, partida que defino com licença poética como a de um cara que não queria ver Flamengo sem Zico, eu e o Zé “vimos” juntos o Flamengo. 

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Foto: Alexandre Vidal, Marcelo Cortes & Paula Reis / Flamengo

O Flamengo não é só sobre o futebol. É sobre os que viveram, os que vivem e os que ainda vão nascer. É sobre a memória, única coisa que nos salva da desesperança. Não, não preciso de títulos. Mas preciso viver o gol do Bruno Henrique, aquele lance em que fica à flor da pele a mania de acreditar até o fim. 

O Flamengo de Jesus é a minha resposta ao Tempo.

PS – Assistam, em janeiro, ao filme Intervenção, roteiro meu e de Rodrigo Pimentel, de Tropa de Elite 1 e 2.

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