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Paul Krugman ganhou em 2008 um Nobel de Economia muito por conta de suas pesquisas em Teoria da Localização, um estudo que alia a Geografia à Economia. A tese central é de que o sucesso de um empreendimento deriva bastante da localização de sua atividade produtiva, contribuindo para a formação de clusters produtivos (economia de aglomeração), onde de forma colaborativa empresas prosperam juntas apenas por compartilharem o mesmo espaço, porque trocam entre si suas respectivas eficiências.

O Flamengo não se tornou o maior clube do Brasil porque São Judas Tadeu o abençoou. Nossa força original vem do fato de ter nascido na então capital federal e chegar aos 4 cantos do país pelas ondas curtas das rádios Nacional e Tupi.

Já se vão quase 60 anos que Juscelino Kubitschek transferiu a capital para Brasília. Desde então o Rio de Janeiro foi lentamente se esvaziando e o Brasil, caso raro no mundo, passou a ter 3 “capitais” : a capital propriamente dita, concentrando o eixo do poder, São Paulo, a capital dos negócios e da produção, restando ao Rio de Janeiro o honroso título de capital cultural, por ser a terra das produções artísticas e a cidade brasileira mais conhecida no exterior. Não vou dizer que é o Rio é também a cidade brasileira mais bonita porque é falso, o Rio é a cidade mais bonita do mundo, como qualquer pessoa que já a visitou está cansada de saber.

O drama é que o Rio de Janeiro vive um processo de degradação e esvaziamento que se era lento em décadas passadas, foi acelerado nos últimos anos. Mas é nesse Rio de Janeiro maltratado e entregue à sorte (ou melhor, ao azar), que o Clube de Regatas do Flamengo reside, vítima, portanto, de tudo o que acontece ao seu redor, porque afinal o clube não é uma bolha, já que a prosperidade, como dizia Paul Krugman, tem muito a ver com a geografia.

A ironia é que o Flamengo conseguiu seus maiores avanços institucionais justamente no período em que seus rivais locais experimentam suas crises mais agudas. A partir das análises de Amir Somoggi, vou discorrer um pequeno comparativo entre os desempenhos financeiros do Flamengo e seus rivais cariocas, para que que fique explícito o desalinhamento completo entre as nossas perspectivas e as deles. Lembro que todos os números estão em milhões de reais.

Começando pelas Receitas. O Flamengo, sozinho, fatura o mesmo que os outros 3 clubes somados.

Outro indicador relevante é o investimento no elenco, isto é, o quanto “vale” o plantel de cada clube, mas não por especulações de sites como Transfermarket e sim pelo efetivamente contabilizado no ativo intangível de cada balanço. O Flamengo é o 5º maior investimento do país – atrás, pela ordem, de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Cruzeiro -, mas nada de braçada em comparação aos vizinhos:

A análise de ambos os gráficos prova uma correlação direta entre a arrecadação e o investimento no elenco, especialmente no caso do Flamengo, que mantém uma proporcionalidade perfeita entre seus rivais: fatura sozinho metade do bolo, detém sozinho metade da soma dos valores dos elencos cariocas.

Quanto à dívida, vou me basear nos números apurados pelo Amir Somoggi e estabelecer um comparativo entre a dívida em 2012 e em 2017, que compreende os 5 anos de gestão do presidente Bandeira de Mello:

Observem que o Flamengo, que costumava liderar o ranking nacional de devedores (hoje ocupa a 10ª posição), agora é o clube carioca com a menor dívida, que caiu mais da metade em 5 anos. Nesse período dedicado à reconstrução financeira, o Flamengo conquistou 1 Copa do Brasil e se classificou 2 vezes para a Libertadores via campeonato brasileiro. Seus rivais, ainda que Vasco e Botafogo também tenham conquistado o direito de disputar a Libertadores em 1 edição, colecionaram vexames: o Botafogo foi rebaixado 1 vez, o Vasco foi rebaixado 2 vezes e o Fluminense, embora não tenha caído (e em 2013 só por obra do rolo da Portuguesa), ficou entre a 13ª e a 15ª posição em 4 das 5 edições, sendo a sua melhor colocação um sexto lugar.

Porém, muito mais importante do que a dívida em si é a relação proporcional entre a dívida e a capacidade de pagamento – afinal, se uma dívida de R$ 10 mil é um problemão para mim e quase irrelevante para o Marcelo Odebrecht, o mesmo acontece com um clube, importa menos o quanto você efetivamente deve e mais o quanto essa dívida representa dos seus ganhos. A tabela seguinte mostra essa dimensão.

Logo, enquanto a dívida total do Flamengo representa cerca de metade de 1 ano de sua existência, seus vizinhos devem cerca de mais de 2 anos e meio do que conseguem arrecadar.

Outro comparativo interessante é conferir a arrecadação de bilheteria, um tema muito sensível e que sempre origina debates acalorados. O próximo gráfico mostra a imensa dificuldade dos rivais de acompanharem a capacidade do Flamengo em gerar receita a partir da presença de público:

Cada vez que os “zé-planilhas” levantam esses números sempre aparece alguém para lembrar: ok, parabéns, mas e o futebol? Quando essa pujança financeira vai se traduzir em resultados esportivos?
Pois a melhor resposta vem justamente do comparativo com os rivais cariocas: a distância financeira que o Flamengo tem em relação aos demais já é sentida de forma muito nítida dentro do campo.

E não apenas pela percepção empírica de que enquanto o Flamengo entra no Brasileiro, Copa do Brasil, Sulamericana e Libertadores para disputar, os demais têm aspirações bem mais modestas. É porque os resultados do Brasileiro nas últimas cinco temporadas demonstram que o Flamengo começa a reproduzir, em campo, a mesma superioridade que ostenta nos balanços quando a comparação é com os vizinhos. A tabela abaixo lista a pontuação e os números de vitórias acumulados nos últimos 5 campeonatos:

Agora, um dado curioso. Na memória do torcedor rubro-negro, os 5 anos anteriores teriam sido muito mais favoráveis, uma vez que o time conquistou o Hexacampeonato e em outras 2 edições se classificou para a Libertadores. A frieza dos números mostra uma pequena quantidade de pontos a mais (4,8%) e 3 vitórias a menos. Ou seja, uma campanha bastante parecida. Porém, há um equilíbrio muito maior entre o desempenho dos times cariocas e o Flamengo não foi o melhor deles:

Ou seja, é possível concluir que, ao menos em relação aos times cariocas, a diferença financeira existente entre o Flamengo e os rivais produziu resultados desportivos consistentes e reposiciona o Flamengo em um patamar bem acima dos conterrâneos.

E essa diferença tende a aumentar. Fluminense e Vasco vivem situações caóticas, tanto que tiveram dificuldades até para apresentarem seus números (o Fluminense perdeu o prazo para publicar o balanço e o Vasco não teve o balanço auditado), além de turbulências e incertezas políticas. O Botafogo é mais ajuizado, organizado e pacificado, mas tem contra si o fato de aparentar ser o clube com menor potencial de geração de receitas dentre os 4, agravado pelo fato de ter a maior dívida.

Há dezenas de outros indicadores capazes de revelar o abismo que está aberto entre o Flamengo e os conterrâneos, mas já parece desnecessário. A miséria financeira em que Vasco, Fluminense e Botafogo se enfiaram (e, repito, sem qualquer ganho esportivo) é ainda mais dramática quando a gente lembra que ela foi construída em um período em que os clubes brasileiros foram agraciados com 2 grandes benefícios, a edição do PROFUT parar refinanciar as dívidas de impostos e a assinatura do novo contrato com a TV, que rendeu luvas generosas.

O que importa, de fato, é concluir. E há ao menos 2 constatações óbvias:

a) O Flamengo, em 2018, é um clube de uma dimensão estrutural completamente diferente daquela possuída pelos que foram criados junto com ele. E essa não é uma situação momentânea. Ao contrário, é uma condição que deve perdurar por muitos anos, talvez até para sempre, caso os rivais sigam insistindo em dar as costas para as boas práticas de gestão, que custaram imensos sacrifícios ao Flamengo enquanto eles se esbaldavam em Freds, Seedorfs e Nenês;

b) O torcedor do Flamengo, diante da evolução que o clube alcançou na competição com seus rivais locais, precisa reposicionar seus sentimentos de rivalidade. Em um cenário onde o campeonato estadual perde relevância a cada ano, é preciso compreender de uma vez por todas que os competidores reais do Flamengo daqui para frente estão fora do Rio de Janeiro.

Finalmente, uma conclusão não tão óbvia: a desgraça dos conterrâneos pode ser divertida para animar conversas de botequim, mas é péssima para o Flamengo. O melhor cenário seria ter competidores locais mais ou menos do nosso tamanho, porque isso facilita a atração de investimentos, dá visibilidade e reparte entre todos as respectivas eficiências, como ensina a Teoria da Localização.
Como isso não vai ocorrer no curto prazo, o Flamengo se coloca em posição de risco. Seus competidores enfraquecidos podem se unir para criar toda a sorte de embaraços no ambiente regulatório – no caso, a famigerada FERJ. Vai ser preciso, daqui para a frente, saber lidar com a fragilidade dos rivais.


Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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Walter Monteiro é advogado com MBA em Administração. Membro das Comissões de Finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do Clube de Regatas do Flamengo. Escreve sobre o Flamengo desde 2009, em diferentes espaços.
 

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