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“Não vai, não. Eu não quero mais ir pro Corinthians”. A declaração inapelável do jogador quase é comemorada como um gol pelos presentes.

Por Thauan Rocha – Twitter: @thauan_r

“Mas você tem que sair mesmo daqui?”

“Sim. Ir para um centro maior será importante pra minha ascensão profissional.”

A decisão, comunicada à consorte, já está tomada. É o momento de deixar o clube que o projetou e onde se tornou ídolo, líder, referência, campeão. Os anos de relação desgastaram a convivência com a diretoria, com outros jogadores (alguns roídos de ciúmes com seu status diferenciado) e mesmo com pequena parte da torcida. Em que pese siga como o principal atleta do elenco, é o momento de buscar novos desafios. Conquistar novas torcidas. Alçar voos mais ousados.

“Vou pro Rio ou pra São Paulo, e de lá pro exterior.”

Não demora para surgirem os primeiros interessados. Após um punhado de sondagens, as conversas com o Corinthians evoluem de forma mais sólida. O alvinegro paulista acena com um bom salário e a perspectiva, prevista em contrato, de não dificultar eventual saída para o exterior a qualquer momento que surgir uma proposta. Parece justo. Principalmente para o agente do jogador, que vê na transação uma oportunidade valiosa para auferir gordos rendimentos. A negociação é tão vantajosa que, ansioso por seu desfecho (que agora depende das tratativas entre o Corinthians e o clube detentor do passe do atleta), o agente, sem a menor cerimônia, tranca-se com o seu cliente em um hotel de luxo na capital paulista, com ordens expressas para que a telefonista não transmita nenhuma ligação sem identificação prévia. Estão, literalmente, incomunicáveis.

Evidentemente, a informação de que o jogador está sendo negociado logo chega ao Flamengo. Como esperado, sua diretoria se assanha em polvorosa, por dois motivos: o primeiro, por se tratar de posição de fato carente no plantel (talvez a sua maior lacuna, aliás). O segundo, por se tratar de jogador com quem o rubro-negro já andara flertando um par de anos antes, flerte que chegara a “criar um clima” de um desfecho positivo. Mas, ali, ainda não era o momento. Eis que surge a chance. E o clube não deixará o cavalo passar selado.

“Vamos atrás dele. Será nosso.”

Após a palavra de ordem, os dirigentes montam uma operação de guerra nos salões refrigerados da Gávea. Toda a cúpula do futebol se reúne, traçando estratégias, acionando empresas, fornecedores, amigos, enfim, até conseguir formar uma rede de recursos capaz de cobrir a vultosa operação, entre salários e a compra do passe. O presidente do clube detentor dos direitos do jogador, que nutre boa relação com o Flamengo, concorda com os termos propostos, mas, antes de encerrar o telefonema, avisa:

“Vender, nós vendemos. O problema será vocês acharem ele. Está apalavrado com o Corinthians. Só que os paulistas não nos procuraram ainda.”

Uma força-tarefa é destacada para localizar o jogador. Família, amigos, colegas, dirigentes, jornalistas, todos são acionados e ninguém faz a mais remota ideia de seu paradeiro. Tensa, a diretoria chega a recorrer a jogadores do próprio elenco do Flamengo para ajudar nas “buscas”. Sem sucesso. As horas vão passando e nada indica o mais pálido indício de êxito. Os ânimos de alguns insinuam fenecer.

Até que alguém “estala” a ideia, que soa de uma obviedade desconcertante.

“Oras, se o jogador está indo pra São Paulo, algum agente de lá deve estar por dentro da coisa. Vamos falar com o Milton.”

Milton é, de fato, o nome perfeito. Um dos mais renomados e reconhecidos empresários em atividade no mercado nacional, cultiva vasta rede de relações e ótima relação com a diretoria do Flamengo. Instado, rapidamente acede em fornecer uma ajuda profissional, algo usual no meio.

“Claro que sei quem é o agente dele. É o Satrustegui. Esperem que vou dar uns telefonemas.”

Em pouco mais que um cacho de minutos, o telefone da Gávea estrila com novidades.

“Ele está no Sheraton.”

“No Sheraton? Maravilha! Sei de alguém que trabalha lá. Deixe comigo agora. Eu lhe mantenho informado.”

O vice-presidente de Futebol agora assume o comando das ações. Manda ligar pro Sheraton. Quer falar com seu contato no hotel.

“Por favor, o Irará?”

“Desculpe, Senhor?”

“Irará. Ele trabalha aí. Eu quero falar com ele.”

“Desculpe, Senhor. Como gerente, posso lhe assegurar enfaticamente que não temos ou tivemos nenhum colaborador trabalhando conosco com esse nome.”

“Não pode ser, deve estar havendo algum engano.”

“O Senhor tem certeza que está procurando na cidade certa? Talvez seja o caso de perguntar à unidade de São Paulo.”

“…”

“É do Sheraton São Paulo?”

“Sim, pois não, Senhor? Em que podemos ajudá-lo?”

“Por favor, procuro por um funcionário de nome Irará”

“Um momento”

“Sr. Irará?”

“Pois não, Senhor.”

“Aqui é do CR Flamengo. Vai chegar um representante nosso daqui a pouco. Preciso que você lhe abra passagem e o encaminhe ao quarto onde estão o Sr. Satrustegui e o cliente dele.”

“Assim o Senhor vai me complicar…”

“Complicado você ficará se barrar a entrada dele e tiver que responder por cumplicidade ao crime de sequestro e manutenção em cárcere privado. Sabemos seu nome e onde mora. Acho prudente colaborar conosco.”

Quinze minutos depois, Milton chega ao hotel, e bate direto na porta do agente Satrustegui. O tom é de uma tensa cordialidade que não aceita réplica.

Quem é?” A porta se entreabre.

“Sou o presidente do Flamengo.”

Reprodução / Autor Desconhecido

“Perdón, mas o señor não é el Presidente de Flamengo.”

“Mas é como se fosse. Tenho procuração dele. Abra.”

Segue-se uma breve reunião a três, em que o jogador, pessoalmente, ouve a proposta do Flamengo. O rubro-negro oferece um salário notavelmente superior ao dos corintianos, além de um contrato mais prolongado. Termos que seduzem o atleta, que ademais já nutre pelo clube carioca um certo fascínio. Atração essa já demonstrada quando chegara a balançar diante da negociação de anos antes.

“Satrustegui, vamos para o Rio. Quero detalhar melhor isso com o Flamengo.”

E, a contragosto do agente, os três embarcam na próxima ponte-aérea, instruídos a se encontrarem com a diretoria do rubro-negro no Copacabana Palace. E assim se faz. No entanto, quando entra no quarto reservado para a reunião, o agente Satrustegui leva um susto. Lá estão o VP de Futebol, o VP do Jurídico, o secretário-executivo do presidente, um procurador (responsável por avalizar as fontes de recursos da contratação) e até um amigo pessoal do jogador. Uma verdadeira entourage disposta a sacramentar, ali mesmo, os termos de uma negociação definitiva.

Mas não foi isso o combinado! Estamos aqui somente para um contato preliminar, e no más que isso!”, esbraveja Satrustegui.

Milton toma a palavra e inicia a reunião com um breve relato do que ocorrera em São Paulo. Depois, o VP de Futebol começa a desfiar toda a oferta do Flamengo. Atento, o jogador vai tomando nota do que lhe é passado e, curioso, faz perguntas, inquire sobre detalhes, prazos, valores. Vai se mostrando vivamente interessado nos termos da proposta que lhe vai sendo exposta. O flerte, dessa vez, parece caminhar para algo mais concreto.

Satrustegui não desiste.

“Gracias Señores, vou pensar nessa proposta e amanhã lhes dou uma resposta”.

“Vai nada. Você vai é fazer leilão com o Corinthians.”

“Não vai, não. Eu não quero mais ir pro Corinthians.”

A declaração inapelável do jogador quase é comemorada como um gol pelos presentes, mas a cautela é necessária. Há obstáculos importantes a serem transpostos ainda. E um deles segue fazendo questão de se mostrar vivo, em irritante portunhol.

“Bien, entonces temos que ver otras cositas. Para continuar a negociación, exijo que se coloque uma cláusula facilitando a venda do meu cliente para a Europa”

“Isso está absolutamente fora de questão. Flamengo não é trampolim de ninguém.”

A atmosfera se torna nervosa. Satrustegui segue irredutível e inflexível, ameaçando levantar-se com seu cliente várias vezes. Reclama dos termos da minuta de contrato. Regateia com sua comissão. Impõe participação em vendas futuras. Blefa alegando interesse de outra equipe carioca no negócio. Desfere inúmeras exigências, todas inapelavelmente rechaçadas pela diretoria do Flamengo, que já começa a demonstrar impaciência. Até que o VP de Futebol se dirige diretamente ao jogador, em tom definitivo.

“Bem, acho que agora estamos diante de um impasse. E cabe a você, o principal interessado, decidir. Nossos termos estão na mesa. É você, e só você, quem escolhe.”

“Eu escolho o Flamengo.”

“Ótimo. Então, vamos seguir conversando. Sem a intervenção do Sr. Satrustegui, se possível.”

O agente, irritado, dá um salto e esbraveja. Exala cólera pelos olhos e uma viscosa espuma brota de seus lábios. Com enorme dificuldade para manter um tênue andrajo de serenidade, começa a vociferar, arfante:

“Ustedes no tienen permissão legal para isso. Sou o agente do jogador. Nada puede ser decidido sem passar por mim. E já me cansei disso. Meu cliente vai para qualquer clube. Menos para o Flamengo. Se o único interessado for o Flamengo, ele não sai de onde está! E vamos embora!”

O jogador, que até então havia se mostrado tranquilo, também se exalta. E solapa o golpe mortal, o xeque-mate:

“E quem foi que disse que eu sou seu cliente?”

“Oi?”

“Nosso contrato de agenciamento só nos vincula em caso de transação internacional. Não sou obrigado a lhe seguir incondicionalmente. Eu quero continuar escutando o Flamengo. E não vou para o exterior agora. Não é o momento ainda. Portanto, você está fora.”

Segue-se mais uma sessão de impropérios e ameaças judiciais, interrompida pelo VP do Jurídico que, acostumado a lidar com os subterrâneos da malandragem carioca, entra para “tirar de tempo” o boquirroto Satrustegui:

“Sr. Satrustegui, como está sua situação no país? Está regular? Posso ver seu passaporte? E esse contrato de agenciamento do atleta? Podemos dar uma olhada? Como o Senhor comprova estar habilitado para fazer parte dessa reunião? Onde estão suas credenciais?”

Enfurecido e à beira de um ataque apoplético, Satrustegui se dirige ao caminho da saída. E, antes de estampar a porta com um golpe que faz trepilicar as paredes do quarto, expele seu último adágio, que se ameaça imprimir à memória dos presentes tal qual um sortilégio, mas acaba se esfumando na etérea bruma afeita às palavras vãs. Que, ao fim e ao cabo, terão sido apenas palavras.

Vocês irão me pagar! Todos ustedes!”

O resto se dá de forma natural. Definitivamente seduzido pela perspectiva de brilhar com a camisa do Flamengo, o jogador acerta, ele mesmo, os últimos detalhes da negociação. Que se encerra com um lauto jantar em um célebre restaurante carioca, regado a caríssimos espumantes. O acerto com o clube do jogador se dá sem maiores complicações, fora a normal dança de números flutuando ao sabor da maior habilidade de persuasão. E, enfim, o jogador é apresentado e segue a liturgia, o ritual de vestir a camisa, beijar o escudo do Flamengo e jurar amor ao rubro-negro e à sua Nação.

Amor que, de fato, ele escolheu viver. O flerte, enfim, vira namoro. Que será eterno. Enquanto durar.

* Embora os nomes das personagens sejam fictícios, esta é uma história real.



Adriano Melo escreve seus Alfarrábios todas as quartas-feiras aqui no MRN e também no Buteco do Flamengo. Siga-o no Twitter: @Adrianomelo72


*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Reprodução / Autor Desconhecido

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