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Dei um carrinho nela, rasguei a grama com a chanca, enchi meus meiões rubro-negros de grama e fiz o gol.


Por Flavio Gomes – Twitter: @flaviogomes69

Na televisão passava “Cavalo de Aço” às oito e “O Bem-amado” às dez, mas essa meus pais não deixavam a gente ver, era muito tarde. Aos domingos, um programa chamado “Fantástico”. Era estranho, porque a Rede Globo passava aqui no canal 4. Lá em São Paulo, 4 era a Tupi. A Globo era 5. Aqui não tinha nada no 5 e a Tupi era no 6.

Eu queria ver o “Bem-amado” porque era colorido, mas a nossa TV era em preto e branco. O pleito, portanto, não colava. Vai dormir.

Colorida era minha vida de garoto de nove anos numa terra distante. O uniforme do Colégio Rio de Janeiro era azul, a calça boca-de-sino da primeira comunhão era lilás, a bicicleta era verde e a Belina, vermelha. O bondinho também, suponho. Mas posso estar enganado. A praia era branca de doer os olhos e o mar, cinzento puxando para o azulado. O hotel bonito, bege. Minha camisa de goleiro, laranja. Minhas luvas, marrons.

Mas meu meião de jogar bola era rubro-negro.

Porque um dia minha mãe chegou em casa e falou que a gente ia fazer um teste na Gávea. A Gávea era o clube do lado da AABB, onde a gente fazia natação e judô. A faixa já era amarela. Mas eu queria a verde, com grau de esparadrapo.

Teste, não sei se ela falou assim. Acho que não. A orientação, para mim e para o irmão mais velho, era: camiseta e calções brancos, meião rubro-negro listrado. Precisava de chuteira, também. Que chamava chanca, e tinha só seis cravos: quatro na frente, dois atrás, pregados na sola. Eu nunca tinha visto uma chanca de verdade na vida, porque jogava bola nos paralelepípedos da rua General Barbosa Lima, no morro do Caracol em Copacabana. Não se joga bola de chanca no paralelepípedo. Jogava de conga.

Havia uma escadaria que dava na avenida movimentada e terminava, ou começava, tudo depende de suas intenções, subir ou descer, ao lado de um cinema de nome Ricamar. Os ônibus passavam feito loucos soltando fumaça negra e meu pai pedia para tomar cuidado quando mandava a gente comprar Minister para ele lá embaixo porque tinham raptado o Carlinhos.

O vizinho de baixo era Vasco, assim como o filho do zelador. A gente morava no segundo andar, e os filhos do seu Sérgio eram da mesma idade que a gente. Tinha o mais velho, o Serginho, uma menina e um outro moleque. Eu tinha a mesma idade que a menina, que achava linda. O Serginho fumava na pracinha onde a rua, em forma de caracol, terminava. Eu me escondia para ver o Serginho fumar, mas acho que ele só colocava o cigarro na boca e não acendia. Um dia fiz a mesma coisa, escondido em casa.

Serginho ficou famoso, quando cresceu. Seu Sérgio, com suas olheiras profundas, bochechas enormes e cabelos pretos encaracolados, já era famoso, jornalista e compositor de sambas. Fundou até um jornal, mas eu não lia jornais. Lia Orígenes Lessa e a saga de Napoleão, o cabo de vassoura transformado em cavalo de pau que vivia em Parada de Lucas. Lia o livro do Adonias Filho que tinha uma nota de cem cruzeiros na capa, vermelha com a cara do Floriano Peixoto. Minha mãe comprava os livrinhos das Edições de Ouro numa rua que acho que se chamava Santa Clara.

Eu lia tudo, jogava bola e comia cachorro-quente Geneal. Nos finais de semana, subia o Cristo com os parentes de lá ou ia ver o Dedo de Deus e o museu que a gente era obrigado a andar de pantufas para ajudar a limpar o chão. Era o que meu pai dizia, que a gente limpava o chão. Quando não vinha ninguém visitar a gente, o programa era ir ao Maracanã.Tínhamos uma carteirinha que deixava entrar de graça. Meu pai gostava de ver jogos do Botafogo, porque dizia que tinha menos torcida, não enchia tanto, e era engraçado ver como eles sofriam.

Aí chegou o dia de usar a chanca e o meião rubro-negro. Da rua, quando minha mãe levava a gente para o colégio, dava para ver a arquibancada alta pelos fundos. Foi a primeira vez que a vi de dentro, num campo enorme, de grama. Nunca tinha jogado bola na grama na vida. A chanca machucava o pé.

Colocaram uma trave no meio do campo, porque era muito grande e a gente nunca conseguiria correr aquilo tudo. Meu irmão mais velho foi junto, com meiões rubro-negros e camiseta e calções brancos. Quem não estava de meião rubro-negro, camiseta e calções brancos nem entrava.

Eu era goleiro e queria usar minha camisa laranja e minhas luvas marrons. Não deixaram. Emburrado, fui para a linha. Cada time tinha duzentos moleques, todos de branco com meiões rubro-negros. Não dava para saber quem jogava em qual time. Fui lá para a frente, perto da trave que ficava no meio do campo. Mandaram um time tirar a camisa para ajudar a saber para que lado chutar. O meu era com camisa.

A bola foi para a esquerda e meu irmão, cintura dura e aparentemente canhoto, cruzou. Eu estava no meio da área, que na verdade era metade do círculo central. A bola passou por todo mundo e veio na minha direção. Dei um carrinho nela, rasguei a grama com a chanca, enchi meus meiões rubro-negros de grama e fiz o gol. O calção ficou sujo de terra e ralei a bunda.


Arte: Giotto (especialmente para a coluna) 

Talvez por não ter comemorado, porque queria mesmo era jogar de goleiro com minha camisa laranja e minhas luvas marrons, o treinador não deu o devido valor ao meu carrinho corajoso, ao ímpeto de me jogar no chão para fazer aquele gol com meu coração destemido de garoto de nove anos.

Talvez por isso meu coração não tenha sido tingido de rubro-negro naquela manhã na Gávea e seja rubro-verde até hoje.


Flavio Gomes, 54, é jornalista do Fox Sports, tem no currículo um gol pelo Flamengo, mas morreria pela Portuguesa


*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Giotto (especialmente para a coluna) 

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