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O que todo mundo viu – Filipe Luís centralizado decidindo o jogo – aconteceu de fato. Mas faz parte de uma série de mecanismos mais complexos

Por Téo Benjamin, Twitter: @teofb

Depois do jogo contra o Inter pedi para o pessoal aqui do Twitter comentar o que tinham visto do jogo em relação ao plano tático. Muita gente citou a mudança do Filipe Luís no segundo tempo, caindo por dentro quase como um volante. Resolvi escrever um pouco sobre isso…

É verdade que Filipe Luís jogou um tanto centralizado contra o Inter. É verdade que isso se acentuou depois do intervalo e ainda mais dps dos 20 min da etapa final. É verdade que ele participou dos dois gols assim (veja mais aqui). Mas não vale a pena apressar conclusões.

Antes de mais nada, é importante entender que posicionar os laterais por dentro não é novidade no Flamengo. Jorge Jesus costuma agrupar o time perto do lado da bola, então normalmente o lateral do lado oposto fecha pelo meio mesmo. Volta e meia fazem isso com até com a bola.

Trauco, Renê e Rafinha aparecem nas imagens acima. Rodinei tomou um esporro contra o Vasco por querer ultrapassar toda hora. Esse mecanismo se acentuou com Filipe Luís. Afinal, ele se sente muito confortável centralizando e busca naturalmente esse espaço. É a sua característica.

Contra o Inter, o Flamengo buscava uma intensa movimentação na frente para abrir espaços na defesa. Falei sobre isso antes do jogo (veja aqui) e pretendo voltar a falar amanhã. O plano era abrir buracos na defesa adversária e acelerar o passe lá de trás.

Com isso, era comum ver os jogadores de defesa do Flamengo, não apenas Filipe Luís, tentando passes verticais para romper as linhas do Inter. Alguns deram certo, outros nem tanto.

No segundo tempo o Inter se fechou ainda mais. Deixou Guerrero isolado na frente e colocou 10 caras atrás da linha da bola. Sabendo que o Fla ataca com triangulações pelo lado, Odair formou dois quartetos defensivos para ter sempre superioridade numérica dos dois lados.

Assim, garantia sempre 4×3 nas jogadas pelo lado. Bruno, Moledo, Edenilson e D’Alessandro encaixotavam o Flamengo pela direita, enquanto Uendel, Cuesta, Patrick e Sóbis faziam o mesmo pela esquerda. Lindoso sobrava e flutuava. O Inter abdicava de jogar, mas neutralizava o Fla.

Qual era a consequência? Cuellar e Arão estavam sempre livres. Tinham sempre espaço e o Flamengo conseguia “reciclar a posse” com tranquilidade, mas não conseguia infiltrar. Estava claro que o passe decisivo viria daquela posição, mas nenhum dos dois parecia apto a tentá-lo.

Na arquibancada do Maracanã, imaginei a entrada de um ponta (Berrío ou Vitinho) no lugar de um dos volantes, trazendo Gerson para jogar centralizado, livre mais atrás para tentar o passe decisivo. Dentro de campo, o Flamengo seguiu outro caminho.

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Assim como contra Emelec e Botafogo (Veja aqui), o time forçava o jogo pela direita tentando gerar sobrecarga por ali. O Inter conseguia superioridade numérica e fechava a porta… Onde aparecia ainda mais espaço? Pelo meio.

Pudemos ver então a beleza que está se formando nesse time. Os jogadores têm liberdade para improvisar em cima das bases pré-estabelecidas. É difícil saber se houve uma ordem do banco ou se foi a percepção do próprio FL, mas o espaço se apresentava ali e o lateral foi ocupá-lo.

Foi o que chamei outro dia de variação CONTEXTUAL (ou CONJUNTURAL, dá no mesmo).

Dentro daquilo que vem sendo trabalhado nos jogos, Filipe soube aproveitar o que aquele jogo pedia. O passe decisivo sairia dali, mas agora de forma qualificada.

Dizer que Filipe Luís foi jogar de volante me parece uma simplificação. Não podemos usar apenas o momento final dos lances dos gols.

Repare como no primeiro gol, por exemplo, ele parte da posição defensiva normal de um lateral esquerdo.

A jogada se desenrola e ele avança pelo meio. Esse é o corredor que se abre. Lindoso, que sobra entre as linhas, resolve dar combate em Gabriel em vez de fechar o espaço e acaba entregando uma avenida para Filipe Luís.

O segundo gol é ainda mais interessante e merece ser quebrado em três momentos.

1- Filipe Luís só centraliza quando a jogada se define pela direita. A bola acaba chegando nele, que devolve quase como quem diz “é por lá, porra”. Se forma de novo o 4×3 e a bola volta para Cuéllar.

2- Dessa vez, Lindoso – que sobra entre os blocos de marcação sem pegar ninguém fixo – perde a paciência, abandona sua posição entre as linhas e resolve fazer pressão sozinho. Isso força a bola a chegar até Filipe Luís centralizado.

3 – A pressão de Lindoso também abre um espaço enorme para entre as linhas do Inter. Exatamente onde o volante deveria estar, Gabriel recebe e gira. O espaço está criado. Moledo sai e Uendel, que deu combate há exatos 10 segundos em Rafinha, não recompõe. BH é mortal no 1×1.

Conclusão

Sim, tudo aquilo era verdade. O que todo mundo viu – Filipe Luís centralizado decidindo o jogo – aconteceu de fato. Mas faz parte de uma série de mecanismos mais complexos que vêm sendo construídos no time do Flamengo, não apenas uma grande cartada inesperada do Mister.

SRN

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