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Veja exemplos (não exaustivos) em que a Fla-Twitter se fez escutar, com seus respectivos desdobramentos e constatações.

Adriano Melo, do Blog Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos,

Nessa última semana, diversas discussões e controvérsias mantiveram na berlinda os perfis de torcedores/apoiadores/influenciadores etc do Flamengo nas redes sociais, aquilo que se convencionou batizar de “Fla-Twitter”. Uma entidade etérea que se dedica a repercutir e reverberar com estridente ênfase todo e qualquer assunto afeto às coisas do Mais Querido, algo como uma versão contemporânea da famosa Boca Maldita, que marcou época na história do CR Flamengo.

Foto: Reprodução / Autor Desconhecido

Ultimamente, a Fla-Twitter tem-se debruçado na árdua tarefa de defender, em caráter incondicional, a demissão do treinador Abel Braga, por uma série de fatores: incapacidade de fazer o elenco jogar um futebol à altura do seu nível, opção por alternativas supostamente equivocadas para o time titular (notadamente a trinca Diego/Arão/Pará), falta de atualização, declarações recorrentes, propositais ou não, em tom de aberto confronto com um “senso comum” caro às redes, excessiva exaltação a outros clubes, entre outras linhas de argumentação que, em síntese, apontam para uma conclusão que soa evidente: a torcida virtual do Flamengo não gosta de Abel Braga. E a recíproca parece ser verdadeira.

O desfecho parece caminhar para o final convencional, inevitável, e diria até desejável, que é a saída do treinador. Seria mais uma demonstração de força das redes sociais que, se não reúnem volume para impor uma agenda hegemônica que reverbere incondicionalmente nas arquibancadas (embora frequentemente isso ocorra, haja vista as carícias verbais destinadas a Abel no domingo passado), detêm, incontestavelmente, a capacidade de produzir ruído suficiente para serem, ao menos levadas em conta por dirigentes e jornalistas.

Assim, nas próximas linhas se desfiará alguns exemplos (não exaustivos) em que a Fla-Twitter se fez escutar, com seus respectivos desdobramentos e constatações. Afinal de contas, a “voz das redes é a voz de Deus”? Vejamos.

Márcio Araújo x Cuéllar

Márcio Araújo chega ao Flamengo em 2014, para repor (???) a saída do volante Elias, decorrente do fracasso nas negociações com o Sporting-POR. A contratação é bastante contestada, uma vez que o jogador havia sido quase enxotado pela torcida do Palmeiras, seu ex-clube. De qualquer forma, Márcio Araújo não demora a se firmar como titular de uma equipe visivelmente limitada. Faz gol de título e tal, e, mesmo com suas evidentes limitações técnicas, vai se mantendo na equipe.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

O quadro começa a mudar com a qualificação do elenco. Em 2016 são contratados Willian Arão e Cuéllar, e Márcio Araújo pela primeira vez convive com a permanente condição de reserva, sob Muricy. Com a saída do experiente treinador, ascende Zé Ricardo, que devolve a posição ao “Meu dez veste oito”.

Mas dessa vez as redes reagem. Cuéllar, que em poucos meses já havia demonstrado visível superioridade técnica, física e principalmente de atitude, conquista o coração da torcida virtual, que lhe toma as dores. Incomodada com a barração do jovem colombiano, a Fla-Twitter expõe seu inconformismo, que inicialmente é mitigado pela boa campanha da equipe no Brasileiro. No entanto, a perda do título e, principalmente, o desastre no Gasômetro, já em 2017, fazem refluir a gritaria, agravada pelas notícias da iminente saída de Cuéllar que, irritado com a reserva (por vezes sequer é relacionado), mostra-se propenso a aceitar uma transferência, por empréstimo, ao Vitória-BA.

Foto: Reprodução / Autor Desconhecido

O ruído chega aos jogadores. Alguns deixam claro sua opção (W.Arão: “prefiro jogar com o Márcio Araújo). O próprio Márcio Araújo, veladamente, resmunga que “chega um gringo aqui que começou a chutar bola ontem e a torcida já cai de amores”. Márcio Araújo, que exerce visível ascendência sobre o elenco, é defendido entusiasticamente contra a “injustiça” dos torcedores. Zé Ricardo, num rasgo de delírio, chega a qualificá-lo como jogador de “nível Europa”. Márcio Araújo se torna um dos símbolos de uma equipe de bom nível, mas pouco competitiva, mimada e refratária às manifestações da torcida, sintetizada em infeliz declaração dada após (mais uma) eliminação: “é bom, porque dá tempo pra descansar”.

Com a demissão de Zé Ricardo, Márcio Araújo começa a perder espaço. Cuéllar é, enfim, efetivado na equipe, tornando-se rapidamente ídolo e referência. Ao final da temporada, a Diretoria ensaia renovar o contrato de Márcio Araújo, mas muda de ideia e resolve emprestar o jogador à Chapecoense sem extensão do vínculo. É o fim da controversa passagem de Márcio Araújo pelo Flamengo.

NO QUE DEU: Márcio Araújo segue na Chapecoense, onde tem atuado com frequência, embora não seja titular absoluto. Cuéllar, por outro lado, continua como titular do Flamengo. O colombiano é um dos mais jogadores mais queridos pela torcida, que vive temendo por sua saída.

VEREDICTO: Reclamações totalmente procedentes. O tempo mostrou que a Fla-Twitter estava coberta de razão na escolha por Cuéllar.

Os pedidos por Mancuello

Mancuello chega, quase a peso de ouro, em 2016, após disputa com o Atlético-MG, que também desejava a contratação do meia-esquerda. Ganha sequência com Muricy e mostra futebol razoável, de boa técnica, a despeito da fragilidade física. Mas, quando Zé Ricardo assume, Mancuello se vê preterido por Gabriel e Everton, mais capazes de “fechar o corredor”. E perde espaço de vez com a chegada de Diego.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Incomodada com a falta de oportunidades a Mancuello, repetindo o que ocorre com Cuéllar, a Fla-Twitter enxerga sinais de má-vontade com a mão-de-obra estrangeira. Com efeito, o argentino, após entrar no final e marcar um gol de placa numa virada sensacional contra o Cruzeiro, simplesmente “some”. Não é mais aproveitado. Sequer relacionado. Somente volta a ser lembrado no final da temporada, visivelmente sem ritmo de jogo. No ano seguinte, Zé Ricardo admite dar mais oportunidades ao jogador, mas o coloca torto pela direita. Não dá certo. Lento demais para atuar como meia, frágil demais para jogar de volante e sem fôlego para correr pelos lados, Mancuello simplesmente não consegue se encaixar na equipe. E, ao longo de toda a temporada de 2017, é utilizado apenas em momentos esporádicos. Ao final do ano, é negociado com o Cruzeiro.

NO QUE DEU: Na equipe mineira, também não consegue espaço e acaba se transferindo para o futebol mexicano.

VEREDICTO: O “namoro” da Fla-Twitter com Mancuello rapidamente chegou ao fim com a falta de rendimento do jogador. Mancuello foi o típico caso de “fetiche por quem não está jogando”, que se desvaneceu rapidamente. Sua saída esteve muito longe de ser lamentada. Nesse caso, os pedidos por Mancuello, lá atrás, mostraram-se improcedentes.

Reinaldo Rueda

“Não sei nem quem é esse Rueda, mas sou a favor” – a irônica manifestação sintetiza bem o clima de quase histeria que toma conta das redes sociais logo após a demissão de Zé Ricardo. Ambiente que é amplificado pela irritação decorrente da escolha da Diretoria pelo mediano Roger Machado, que vem de um fraco trabalho no Atlético-MG. Mas Roger “valoriza o passe”, recusa o convite flamengo e deixa a vaga em aberto.

Farta da mesmice do mercado nacional, a Fla-Twitter identifica em Reinaldo Rueda, recentemente desvinculado do Nacional-COL, por onde se sagrou Campeão da Libertadores, uma oportunidade perfeita. Em uma manifestação sem precedentes, as redes conseguem influenciar a Diretoria do Flamengo, que vai atrás e contrata o experiente treinador.

O início é promissor. Mesmo sem tempo de treinamento e mal conhecendo o elenco, Rueda consegue fazer com que o desacreditado Flamengo se imponha sobre o favorito-modinha Botafogo, arrancando na raça a vaga para a Final da Copa do Brasil. Rueda rapidamente melhora o criticado sistema defensivo do Flamengo, efetiva o volante Cuéllar na equipe e começa a dar chances a jovens das divisões de base, notadamente Felipe Vizeu, Vinicius Jr e Paquetá (este último, já sem perspectivas e encostado no elenco).

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Mas Rueda encontra severas resistências. Dentro do elenco, jogadores reclamam do “excesso de rigor” nos treinamentos físicos. Na crônica, jornalistas se dedicam a uma estranha repetição de argumentos temendo a abertura de mercado para estrangeiros (algo ignorado quando da passagem de Aguirre, Fossatti, Osorio, Gareca e Bauza, entre outros), o que é reverberado inclusive por outros treinadores, como Jair Ventura. E mesmo por alguns membros da Diretoria, melindrados pelas declarações fortes de Rueda, ressentindo-se da falta de atitude da equipe nos jogos.

A passagem de Reinaldo Rueda dura três meses, tempo suficiente para que o Flamengo alcance (e perca) as Finais da Copa do Brasil e da Sul-Americana. Entretanto, após classificar, a duríssimas penas, o Flamengo para a Libertadores de 2018, Rueda aceita uma proposta da Federação Chilena e resolve rescindir seu contrato com o rubro-negro, o que gera fortes reações negativas por parte das redes sociais.

NO QUE DEU: Reinaldo Rueda hoje é treinador da Seleção Chilena, e seu cargo parece ameaçado, em função de maus resultados recentes. Sua curta passagem pelo rubro-negro expôs, de forma inapelável, certas deficiências no futebol do Flamengo, notadamente na atitude. Seu principal legado foi o aproveitamento realmente efetivo de jogadores egressos da base. Vinícius Jr. e Paquetá acabariam se tornando os principais nomes da equipe no ano seguinte. No entanto, a conduta contestável do treinador ao romper o contrato provavelmente lhe fechou as portas da Gávea, em que pese ainda seja lembrado com certo carinho por alguns torcedores.

VEREDICTO: O trabalho de Rueda rompeu com determinados padrões e apontou um caminho. Houve desdobramentos positivos. Nesse caso, a Fla-Twitter acertou em insistir em uma opção diferente. Sua manifestação foi, portanto, procedente.

O “destreinador” Victor Hugo

O Preparador de Goleiros Victor Hugo é contratado pelo Flamengo no início de 2016, integrando a comissão técnica que acompanha Muricy Ramalho. No seu primeiro ano de trabalho, o titular Paulo Victor, após fraco desempenho no primeiro semestre, onde manteve a rotina de falhas recorrente no ano anterior, perde a posição para Alex Muralha, que, em franca ascensão, torna-se destaque no Campeonato Brasileiro e chega a ser convocado à Seleção Brasileira por Tite. A atuação de Victor Hugo na temporada não chama a atenção de forma ostensiva.

Os problemas surgem quando Muralha começa a falhar em uma frequência superior à desejável. Algumas atuações inseguras no Estadual e na Libertadores (especialmente na Arena da Baixada, em que comete um erro clamoroso) acendem um sinal de alerta sobre o goleiro. Nesse ínterim, um vídeo que mostra Victor Hugo e Muralha treinando em baixa intensidade (algo que remete a folguedos infantis) faz explodir a Fla-Twitter, que identifica o “problema”. Muralha está sendo mal treinado. “Destreinado” por Victor Hugo.

Foto: Reprodução / Autor desconhecido

Tem início uma maciça campanha pela queda do único profissional remanescente da comissão trazida por Muricy. Vídeos cotejando a suposta tibieza dos métodos de Victor Hugo com os acrobáticos, quase circenses, treinamentos de outros clubes alastram-se pelas redes. Para piorar, Muralha segue falhando jogo sim jogo também, e se torna motivo de chacota. É barrado pelo jovem Thiago, apenas para, um punhado de partidas depois, ser reconduzido à posição pelo leal treinador Zé Ricardo. A Diretoria, a exemplo do que ocorrera no caso Rueda, acaba impelida pela Fla-Twitter a contratar Diego Alves, goleiro de bem-sucedida passagem pelo futebol espanhol. Mas Alves não pode disputar a Copa do Brasil, torneio em que o Flamengo aparece com chances de conquista.

Já sob Rueda, o Flamengo chega às Finais da Copa do Brasil. E a perde especialmente em função das limitações de seus goleiros. Thiago falha estrepitosamente no jogo de ida, ao soltar um peteleco nos pés de Arrascaeta. E Muralha demonstra notável incapacidade de se mostrar útil na decisão de pênaltis que dá o título aos mineiros. “Siga seu coração”, descobre-se a recomendação de Victor Hugo. Dá-se o massacre.

As redes disseminam reações de torcedores de Fluminense e Botafogo, à época descontentes com Victor Hugo quando em seus respectivos clubes. Vídeos e mais vídeos seguem pipocando pelas redes. Diego Alves estreia e alterna apresentações regulares a boas. Mas se contunde na reta final da Sul-Americana. É a chance de César, o quarto goleiro do plantel, se redimir da péssima impressão de 2015, que quase soterrou sua passagem pelo rubro-negro. O jovem surpreende, pega pênalti, fecha gol e confunde os que identificavam em Victor Hugo o problema único do gol flamengo.

NO QUE DEU: Victor Hugo, ao final da temporada, é demitido. No início de 2019, volta a trabalhar no Grêmio. Muralha é emprestado a um clube japonês. Thiago perde espaço. Diego Alves e César assumem a responsabilidade pelo gol flamengo e elevam sensivelmente o desempenho na posição.

VEREDICTO: Victor Hugo, de fato, mostrou-se “um” problema, com sólidos indícios de limitações em seu trabalho. Mas não era “o” problema, que também residia na baixa qualidade dos goleiros do elenco. Uma vez elevado este nível, as falhas voltaram a um padrão aceitável. Fla-Twitter parcialmente procedente nesse caso.


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