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O título deste post – mais uma vez rompendo um atraso terrível – pode levar o leitor ao engano de achar que este é um texto religioso. Na verdade, todo texto sobre o Flamengo é necessária e obrigatoriamente religioso – haja visto que o papel que o Flamengo exerce em nossas vidas é muito parecido com o que as religiões exercem (nas vidas de alguns de nós e de grande parte da população). E a fé não precisa, não tem o compromisso de ser racional, seus ditames e postulados não têm necessidade de comprovação empírica. O contrato da fé é muito claro – significa a adesão incondicional a algo que o fiel considera verdade, mesmo que não haja provas ou verificações. E aqui não cabe falar de “provas” no sentido jurídico do termo, e sim à submissão de toda opinião aos fatos. Muitas vezes os fatos esmagam a opinião – mas com ela permanecemos, até o fim.

Este é um grande mistério humano.

Não há em sã consciência por que acreditar que o Flamengo nesta quarta-feira vai conseguir se classificar para as quartas-de-final da Libertadores. Mas, no entanto, às 21h50, todos os rubro-negros, sem exceção, estarão acompanhando – seja no estádio ou na TV – a partida com a expectativa de uma grande virada, de algo a mais, de um lance divino do Flamengo, a favor do Flamengo. E esta expectativa, esta fé, tem muito mais de nossa identidade do que qualquer outra coisa. É esta parte de nossa identidade que atravessa gestões, técnicos, jogadores, roupeiros, essas coisas efêmeras como todas as coisas o são diante do Flamengo. Não importam Bandeira, Barbieri, Diego, Trauco, Landim, Lomba, a PQP, nada disso importa, tudo isso se desmancha no ar – mas o sólido é a nossa fé. É o que nos faz permanecer. A nossa identidade é algo que nenhuma gestão conseguirá jamais mudar – seja colocando camisa laranja, escudo alterado, short cinza ou meião amarelo. Achar que é possível – e é – virar nesta quarta contra o Cruzeiro é algo que simplesmente traduz o Flamengo com uma perfeição comparável ade Barbara Heliodora com Shakespeare.

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Há quem defina a fé dizendo que é impossível ter fé e duvidar ao mesmo tempo. Santo Agostinho dizia “se não podes entender, crê para que entendas. A fé precede, o intelecto segue”. Uma virada rubro-negra é obviamente algo incompreensível. Creia, então, para ter a possibilidade de entender. “Ah, mas é irracional”. Ora, é claro que é, dado que o Flamengo não é uma entidade para ser entendida ou compreendida, de forma alguma. Há, claro, os profetas flamengos, que duvidam de nossas possibilidades na Taça Libertadores – e com eles eu até concordo que esse ano não entramos pela porta da frente (que é conquistar a vaga sendo campeão brasileiro). Eles usam certa lógica – mas meu ponto é que o Flamengo jamais se alimentou exclusivamente de lógica. Mas isso não importa – Santo Agostinho (mais uma vez) sempre disse que na essência somos todos iguais, e nas diferenças nos respeitamos. Aliás, neste dia em que escrevo, 28 de agosto, se celebra o dia dele, Santo Agostinho de Hipona (cidade em que ele foi bispo)

A meu ver, a grande dificuldade de nossa congregação é realmente enxergar a identidade Flamengo em um período tão cheio de altos e baixos, principalmente nestes dias que se seguiram ao fim da Copa do Mundo (notadamente um torneio menor que interrompeu o Campeonato Brasileiro). É difícil mesmo lidar com um Flamengo que só fez entregar a rapadura em agosto, um Flamengo que saiu da liderança com quatro pontos de vantagem para o terceiro lugar quatro pontos atrás. Não há como não se irritar. Não há como aceitar a derrota de 2 a 0 para um time de segunda linha como o Cruzeiro, com um técnico abaixo do mediano como Mano Menezes. Querer exigir isso de alguém é chapa-branquismo demais, é passar pano com a voracidade de uma faxineira de filme pornô (me recordo de um filme em que a Amber Lynn fazia esse papel, mas não vem ao caso).

A nossa identidade é, ao mesmo tempo, fé e ao mesmo tempo megalomania. Não nascemos para entender essas coisas de sexto lugar, não faz parte da nossa identidade comemorar que “fomos longe dessa vez”. No auge da formação de nosso ethos (1978-1992) nós não admitíamos ouvir falar em “dificuldade” ou em “respeito ao adversário”. E é preciso que se entenda: tanto a fé quanto a megalomania, a confiança excessiva, a marra, estão interligadas, num tecido diáfano, constante, e quem não souber entender isso está fadado a ir procurar times menores como todos os outros 19 do Campeonato Brasileiro. Esse mindset que pode e deve ser implantado em todos os jogadores do Flamengo, de não ter respeito algum a adversários, é uma espécie de atalho para uma excelência, uma renúncia total à mediocridade. Andei lendo esses dias o novo livro do Capitão Paulo Storani, que sairá em breve pela Editora Record – e ele, meu amigo, me permitiu a leitura prévia. O nome (ainda não definitivo, mas pode ser esse) da obra é VÁ E VENÇA.

Storani era capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais quando coordenou o 9º Curso de Operações Especiais, aquele que é retratado no filme Tropa de Elite. É um dos que usaram, na vida real, o bordão NUNCA SERÃO. Pois o grande Storani alerta para um vício brasileiro: o de “estudar para passar e não para conhecer”. Eu mesmo, quando comentei essa passagem com ele, tive que admitir: por muitos anos, a minha maior preocupação era ser aprovado nos testes – e não exatamente ter domínio sobre um assunto.

Acredito que esta mentalidade, caso se aproxime demais do Flamengo, é daninha. Não podemos achar bom nenhum resultado que não seja um título – ah, classificamos para a Libertadores? Que bom. Toma aqui um biscoito, agora vai lá e fala para a sua mãe que já pode servir a janta. Esta é uma seríssima questão de IDENTIDADE FLAMENGA.

Se abrirmos mão disso, um dia poderemos ter a nossa fé insana seriamente abalada. E ela, senhores, é o que temos de melhor. Não fosse pela nossa fé insana e muitos de nós não estaríamos aqui.

Que São Judas Tadeu nos acompanhe.
 


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.
 

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