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Por Arthur Muhlenberg

Alguém sabe dizer sem olhar no calendário quando é a abertura oficial da temporada de cornetar treinador? Existe mesmo nas regras da diplomacia futeboleira esse negócio de uma entente entre a Nação e o distribuidor de camisa da vez? Um período de paz negociada em que não se pode cornetar o cara porque é pré-temporada, os jogadores precisam ser testados ou a competição não tem relevância? Não que eu esteja ansioso pra criticar o Abel (por quem já nutria antipatia anterior à sua contratação), só que tenho mais o que fazer do que ficar falando mal do cara por causa de uma coisa besta como o Carioca.

vera fischer flamengo arthur muhlenberg
Divulgação / A super fêmea

Mas, é forçoso dizer, nessa passagem pela Gávea, e a despeito do investimento parrudo em contratações, o único marco inquestionável que Abel atingiu em 5 jogos foi colocar em campo um time pior do que o da ultima temporada. O que também não é nenhum crime inafiançável posto que o time de 18 era um 6,5 com alguns fugazes lampejos de 7 na época de Vinicius Jr e o time atual ainda está lutando pra não ficar abaixo de 5. Nem é preciso citar as discutíveis condições de salubridade e os escassos incentivos oferecidos aos campeões dessa bobagem que se tornou a centenária competição praiana. Ou seja, o fim do mundo pode estar próximo, mas ainda não chegou.

O que fode tudo é que a coisa toda do Campeonato Carioca é regida por uma lógica amalucada. Gatos-mestres das mais variadas pelagens costumam afirmar que a competição é ideal para testar jogadores e táticas visando competições de maior prestígio. Mas são os mesmos caras que consideram sacrilégio demitir treinador por causa ou durante o carioqueta, pois os pobres ainda não teriam sido devidamente testados. 

O risco que se corre adotando essa linha filosófica é que o Flamengo, mal e porcamente, aos trancos e barrancos, na aba da força gravitacional de sua camisa, acaba ganhando mais uma merda de um Carioca. E o treinador (qualquer treinador, o Abel não é relevante no caso) que se mostrou sobejamente incapaz de fazer o time desenvolver algum esboço de bom futebol mesmo enfrentando equipes com um handicap muito mais alto chega na competição mais cascuda com a aura de vencedor e com a sua licença pra cometer burrices renovada, surfando a rebarba daquela entente marota do início do carioqueta.

Ora, o torcedor quando vê seu time jogando uma bolinha mais ou menos, ganhando dos fregueses paroquiais, não quer guerra com ninguém. Mas se o treinador não foi capaz de armar uma equipe razoável disputando um campeonato notoriamente café-com-leite, são imensas as chances de que igualmente não o seja na hora que em que seus jogadores necessitarem dos préstimos dos escudos dos batalhões de choque da URSAL quando forem bater corner a 3 mil metros de altitude.

Carioca e Libertadores, ou Brasileiro ou Copa do Brasil, são antípodas, onde um está o outro não pode estar. Não guardam nenhuma relação de parentesco ou amizade, são praticamente estranhos. Para alguns são inclusive inimigos. Porque, excetuando-se o inparametrizável Flamengo de 81, não há registro histórico de um time que tenha se saído bem na Libertadores em função de uma evolução técnica ou tática alcançada na disputa do Carioca. Contudo, jogar mal o Carioca e acreditar em fazer uma grande Libertadores é o que mais nos acontece, no definitivo triunfo da esperança sobre a experiência.

Da mesma maneira que o Flamengo de 81 não pode ser parâmetro tampouco o carioqueta serve pra fazer nenhuma projeção sobre o futuro na Libertadores ou no Brasileiro. O Flamengo pode até enjoar de ganhar do Bacaxá na Taça Guanabara, pode fazer 200 gols por jogo que não significa nada. No Carioca tanto o torcedor mais inocente quanto o gato-mestre mais inescrupuloso buscam uma epifania. Antever num dos campinhos da nossa roça um futebol de insinuância, força e objetividade capaz de encantar a América e quebrar a crista dos argentinos safados.

Sou um torcedor fiel aos meus princípios e um comentarista compromissado com a coerência, e não teria o menor pudor em atravessar o gramado carregando 10 arrobas de Abel nos ombros se ele for o cara capaz de fazer o Flamengo jogar esse futebol de magia e opressão continental que só existe na cabeça de alguns alucinados. Só que acho muito difícil que isto aconteça ainda nessa encarnação. Mais prudente e querendo fazer negócio, dou bom desconto em minhas cobranças. Se o Abel com esse elenco nas mãos não transformar o Flamengo no garoto rico da pelada do condomínio já me dou por parcialmente satisfeito.

Mengão Sempre


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