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Foi o último Fla x Vas de Zico e Junior juntos, e o último de Zico. Foi a centésima vitória do Fla sobre eles. Foi o dia que Bujica virou imortal!

Por Mauricio Neves – Twitter: @flapravaler

fla pra valer


5 de novembro de 1989.

Não apenas o meu Flamengo x Vasco favorito, mas um dos 5 jogos do Flamengo que eu mais amo. É difícil explicar para quem não viveu aqueles dias o que significou para nós a aula de futebol dada no gramado incandescente do Maracanã.

Sim, aula de futebol. @Galinho1953 e Junior foram tratados ostensivamente como velhos durante a semana, e a imprensa vaticinou: o Flamengo de dois decadentes não seria páreo para o Vasco com seu time estrelado, formado por jogadores aliciados por Eurico em sua passagem pela CBF. 

Mas os dois “decadentes” era dois monstros, e lideraram um Flamengo mutilado e cheio de moleques num dos maiores cala a boca da história do clássico.

buijica

Zico e Junior comandaram o baile e o improvável (para os outros) Bujica foi o justiceiro rubro-negro. 

Era o primeiro jogo de Bebeto contra o Flamengo. Foi engolido pela marcação de Junior, atuando como LÍBERO. Ficou atordoado a ponto de agredir Zé Carlos com um chute depois do segundo gol, e foi expulso junto com o goleiro numa compensada do Luís Carlos Félix. Eram 11 do 2T.

Não fosse essa ajeitada, um padrão do Gato Félix, o Flamengo teria goleado o Vasco. Mas era melhor para a história que os dois gols do @bujica99 fossem mesmo os únicos, porque marcados por um jogador vindo das entranhas rubro-negras. 

Eu ouvi esse jogo no ônibus, de Tubarão para Lages, sofrendo com a estática nas ondas curtas. No 0x0 sumiu o som e de repente voltou no meio de um grito de gol do Garotinho, que durou séculos até ser cortado pela vinheta global: – Flamengo-o-o-o! Buuu… Buuu… Buuujicaaa, gritou José Carlos Araújo. GOOOOL, PORRA!, gritei eu no ônibus lotado, e alguém no fundo perguntou DE QUEM?, eu disse DO FLAMENGO, e o cara gritou PORRAAA e outros aderiram e logo éramos dez berrando MEEENGOOOO e sacudindo o busão. 

Demos um jeito de sentar próximos uns dos outros, e meu radinho Sony com a antena erguida para fora da janela do ônibus transformou o coletivo da empresa Santo Anjo numa trupe flamenga rasgando a Serra Catarinense, com as almas sintonizadas no Maracanã. 

Os não envolvidos se divertiram com a cena insólita e se havia algum vascaíno, não se manifestou. Ao cair da tarde a estática foi diminuindo e pudemos ouvir o resto do jogo, saudando cada lance como se estivéssemos na arquibancada. Zumzumzum, a torcida quer mais um, cantávamos. 

Por ter gravado em k7 mais tarde, sei de cor até hoje a narração do segundo gol. Diz, Zé: “Corta Junior pelo Flamengo, parte para o contra ataque, na direita tem caminho livre Zico, deixa para Alcindo que tem mais velocidade. Zico pediu bola, Alcindo enfiou para Zico, dentro da grande área, procurou, rolou… Bujicaaa… ENTROU! Gooooooollll” e tudo no ônibus virou um metafísico lado esquerdo das arquibancadas, uma Norte imemorial, um Flamengo sacudindo a mil quilômetros do Maracanã. 

Ao chegar em casa, fiquei ouvindo rádio até meia-noite. Zico saiu do Maracanã cantando o refrão do jingle de Ulisses Guimarães, candidato à presidência do país: “Bote fé no velhinho que o velhinho é demais, bote fé no velhinho que ele sabe o que faz”.

Na Rádio Globo, Áureo Ameno havia prometido ficar nu se o Fla vencesse, e Celso Garcia parodiou o jingle: “Bote fé no Bujca que o Bujica é demais, bote fé no Bujica que ele sabe o que faz; bote fé no Bujica que o gol não demora, Áureo Ameno peladão, com a bunda de fora!” 

Foi o último Fla x Vas de Zico e Junior juntos, e o último de Zico. Foi a centésima vitória do Fla sobre eles. Bebeto pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão e junto a Tita e Andrade, percebeu que estava do lado errado. A capa da Placar, abaixo, foi definitiva:

Por isso, e por tudo que não cabe em palavras, eu celebro a cada 5 de novembro; tenho @bujica99 como ídolo e logo mais vou rever o jogo todo, agradecendo por ser Flamengo. Hoje é Bujica’s Day. Trinta anos esta tarde.

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