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Neschling espera que Rodolfo Landim já tenha percebido que não investir em estádio próprio é uma tremenda burrada

Por Pedro Henrique Neschling – Twitter: @PedroNeschling

É a mais linda história de amor. Chega domingo e uma Nação migra de todos os cantos da cidade rumo a sua Meca. A liturgia então acontece em frente a cinquenta mil devotos: os escolhidos vestem o manto, sobem pelo túnel, ocupam a relva verde e a mágica se faz. 

Dessa vez a vítima veio do litoral. O tricolor praiano cumpriu direitinho seu papel e foi empalado. Ver De Arrascaeta com um peteleco lançar Gabigol que dispara pela ponta e dá um tapa estupidamente preciso para Bruno Henrique cruelmente estufar as redes torna inevitável um otimismo que já fez uma galera comprar passagem para Santiago na semana do dia 23 de novembro. Compreendo. A belíssima capital do Chile fica especialmente agradável nessa época do ano. Pura coincidência a final da Libertadores ser por lá.

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A única certeza do Abel (tem que acabar) 

Foi a terceira partida no Maracanã esse ano. A terceira com arquibancadas cheias. E o que mais temos em comum entre os três jogos? O lucro foi quase nulo por parte da razão de tudo acontecer: o Flamengo.

Não vou discorrer aqui sobre prós e contras do atual contrato do clube com o consórcio que administra o novo Maracanã. Tem gente muito mais gabaritada que eu que já fez isso — inclusive recomendo o ótimo texto do Walter Monteiro aqui mesmo no Mundo Rubro Negro

Quero abordar é que acredito piamente que chegamos a um ponto crucial em nossa colossal história que não pode e nem deve ser desperdiçado. Chegou a hora de erguermos nosso estádio. 

Durante muito tempo esse era um sonho utópico. E, de alguma forma, desnecessário. O Maracanã — o verdadeiro, aquele que demoliram —  sempre foi nossa casa. Vermelho e preto e o maior do mundo estavam intrinsecamente interligados. Um não fazia sentido sem o outro. 

Diego e sua bicicleta no Maracanã no jogo 2000 do Fla no estádio. Foto: Alexandre Vidal / Flamengo

Acontece que tudo mudou. O Maracanã atual já não é mais o velho Maracanã. E não digo isso como julgamento sobre o quanto a reforma foi nociva, como muitos vaticinam. Nem acredito sinceramente nisso. Acho que cedo ou tarde uma reforma estrutural seria necessária. Provavelmente poderiam ter buscado preservar a atmosfera do estádio com um projeto diferente do que foi feito, mas aí, de novo, não me interessa entrar nessa discussão.

Em paralelo, o Flamengo também já não é o mesmo Flamengo. O trabalho de reestruturação conduzido nos últimos anos nos alçou a um novo patamar institucional. Antes combalido e endividado, treinando em estrutura digna de equipes semi-amadoras, temos hoje um dos centros de treinamento mais modernos do mundo. Contas em dia. Elenco estelar com salários de padrão europeu. Ter um estádio próprio é o último passo que nos separa concretamente do que merecemos ser. 

Evidente que eu acho que seria lindo destituir a Odebrecht e assumir o controle do Maraca. Mas, caiam na real, amigas e amigos: não vai acontecer. Alguns governadores passaram e nada mudou. Nem mudará. Até quando ficaremos reféns dessa utopia?

Além disso, o Maracanã se tornou uma faca de dois gumes: se mantém sua aura, perdeu sua alma. A imagem mítica do torcedor do rubro-negro — aquele do radinho grudado na orelha em pé na geral — não vai mais se repetir por lá. O Maracanã pós reforma é muito FIFA e pouco Flamengo. 

Acho inclusive bonito o desejo da nova diretoria de querer diminuir o preço dos ingressos, que atingiram valores ridículos em algum ponto dos últimos anos. Mas esse desejo esbarra na cruel realidade que simplesmente não se opera o que esse estádio se tornou cobrando pouco, mesmo sendo seu administrador. 

O estádio do Flamengo deve ser projetado tendo isso como norte. Moderno, que comporte sua torcida e permita que sua popularidade seja vivenciada sem que isso inviabilize o fundamental equilíbrio financeiro. Não existe craque mal pago, ou seja: o dinheiro tem que entrar. Não faz nenhum sentido pôr 50 mil torcedores em um estádio e terminar com o borderô zerado. 

É triste pensar nessa separação de forma real. Mas se tornou necessário e urgente. Construir nosso estádio não significará abandonar de vez o Maracanã que poderá continuar a abrigar nosso jogos sempre que desejarmos e nos convier. Mas já não estaremos algemados a ele em uma relação abusiva.

O Landim em campanha disse que investir em um estádio próprio não seria prioridade. Espero que o começo de sua administração já o tenha feito perceber que isso seria uma tremenda burrada. Digo mais: investir com seriedade nesse projeto pode ser o primeiro passo para marcá-lo como um dos grande líderes que nosso clube já teve.


Pedro Henrique Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1982, já com uma camisa do Flamengo pendurada na porta do quarto na maternidade. Desde que estreou profissionalmente em 2001, alterna-se nas funções de ator, diretor, roteirista e dramaturgo em peças, filmes, novelas e seriados. É autor dos romances “Gigantes” e “Supernormal”.


*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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