Com rivalidade em alta, Flamengo aplica sonora goleada no Santos em pleno Morumbi. Emmanuel do Valle conta a história desse grande triunfo do Flamengo na Libertadores

 
Numa sexta-feira 20 de abril como hoje, o Flamengo cumpria, há 34 anos, uma das grandes atuações de sua história, aplicando uma devastadora goleada de 5 a 0 sobre o Santos em pleno estádio do Morumbi, em partida válida pela Taça Libertadores da América de 1984. Naquele dia nublado de outono paulistano, a previsão do tempo indicava a possibilidade de pancadas de chuva no fim da tarde, mais ou menos na hora em que as duas equipes entrariam em campo para decidir suas vidas na competição sul-americana. Só que a garoa prometida não aconteceu. Em seu lugar, veio outra chuva. De gols rubro-negros.

Os dois clubes vinham se enfrentando com assiduidade desde 1980: foram nada menos do que 13 confrontos naquele período de cinco anos – número espantoso em tempos de Campeonato Brasileiro ainda no formato de grupos e mata-mata (para se ter uma ideia, no mesmo espaço de tempo, o Fla jogou apenas uma vez contra o Cruzeiro). E os rubro-negros vinham levando a melhor, de longe: eliminaram o Peixe nos Brasileiros de 1980 e 1982 e levaram o título nacional contra o time alvinegro em 1983.

Leia no Memória Rubro-Negra: As oito vezes em que o Fla bateu o Vitória em Salvador pelo Brasileiro

Mas naqueles dias de 1984, a rivalidade viveu seu auge – pelo menos pelos lados da Vila Belmiro – muito em função do calendário: além de rivais na Taça Libertadores (pela qual o Flamengo já havia goleado por 4 a 1 na abertura da chave no Maracanã), os dois também haviam sido alocados no mesmo grupo da terceira fase do Brasileiro. Aquele jogo no Morumbi seria o segundo de três confrontos realizados numa mesma semana, bem no meio dos dois válidos pelo torneio nacional. E o Santos queria revanche a todo custo.

Treinado desde setembro de 83 por Cláudio Garcia, o Flamengo não contava mais com Zico em suas fileiras. O Galinho já fazia chover em sua primeira temporada na Udinese italiana. Mas além de manter craques do quilate de Leandro, Mozer, Junior, Andrade e Tita (além de Adílio e Nunes, que não estiveram em campo naquela tarde no Morumbi), o time da Gávea trouxera bons reforços desde a chegada do técnico.

Um deles era o centroavante Edmar (ex-Cruzeiro), mais jovem, leve, habilidoso e brigador, era uma boa alternativa a Nunes. Para as pontas, havia o driblador Lúcio (ex-Guarani) e o veloz João Paulo (comprado do próprio Santos). E no gol, nada menos que o argentino Ubaldo Fillol, campeão do mundo com a seleção argentina em 1978 e considerado ainda na época um dos maiores do planeta.

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O Santos, por sua vez, joga nesta partida suas últimas fichas para seguir torneio, mas amarga séria crise e tem um elenco partido. Duas de suas maiores estrelas – o centroavante Serginho Chulapa e o meia Paulo Isidoro – estão afastadas por desentendimento com a diretoria. Além disso, não há técnico. O ex-meia do clube Chico Formiga fora demitido ao longo da semana, e o ex-atacante Del Vecchio assume interinamente o cargo tentando um milagre.

Desde os primeiros movimentos do jogo, é possível perceber as principais estratégias do time paulista: truncar o jogo com faltas e explorar as costas dos laterais rubro-negros por meio de pontas velozes. E até dá certo por um tempo: aos sete minutos, o alvinegro praiano cria a primeira grande chance do jogo: Pita recebe de Gérson, dribla Figueiredo, entra na área, dá um corte seco em Mozer e tenta encobrir Fillol, mas o goleiro portenho defende com uma mão só.

O outro artifício também logo dá as caras: Edmar sofre falta dura de Toninho Carlos na entrada da área. Após a marcação, o volante Dema chuta a bola em cima de Tita. Mas o Fla responde como sabe: na bola. Figueiredo dribla Ronaldo, passa a Leandro, que tabela com Bebeto e dá a Edmar na direta. O centroavante acha o baianinho na área. Este passa de calcanhar para Andrade, que enche o pé e obriga Rodolfo Rodríguez a dar rebote, o qual o próprio volante apanha e cruza da linha de fundo. O baixinho João Paulo sobe mais que a zaga e cabeceia para servir Bebeto, que enche o pé para abrir o marcador.

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Incendiada, a massa rubro-negra que invadiu o Morumbi já dispara o canto: “Um, dois, três, o Santos é freguês”. O time da Vila responde em contragolpe puxado por Gersinho, que lança o centroavante Gérson em profundidade, mas Fillol defende com os pés. E a torcida passa a gritar o nome do goleiro.

Aos 21, João Paulo, que começara tímido, começa a se soltar. Arranca pela esquerda, infernizando seu marcador Davi – um zagueiro improvisado na lateral – e sofre falta perto da linha de fundo. Júnior levanta na área, a defesa afasta e a bola sobra na direita com Leandro, que para, olha e cruza para Mozer, de “peixinho”, botar mais um nas redes do Peixe. E lá vai o Flamengo de novo pela esquerda, desta vez com João Paulo lançando Tita. O camisa 10 rubro-negro avança no vazio e cruza para Edmar, que recebe, gira e fuzila com veneno, mas a bomba passa riscando o travessão.

Irritado com o placar e com o toque de bola do Flamengo, o Santos apela, e o clima esquenta aos 25: numa dividida, Andrade é solado por Pita. A jogada prossegue, e Bigu dá um “rapa” no santista. Jogo parado, o camisa 6 rubro-negro mostra o joelho, lembra o lance anterior e tenta tirar satisfações. A confusão se instaura. Uma encarada aqui, um dedo na cara ali, uma troca de acusações acolá, e até os goleiros entram no bolo. Depois, ânimos serenados por enquanto, o árbitro gaúcho Carlos Rosa Martins distribui cartões aleatoriamente a Dema e ao próprio Andrade, atingido no lance.
Ainda que não fosse preciso, o volante rubro-negro prova que está em campo apenas para jogar ao fazer um desarme limpo no círculo central, a cinco minutos do intervalo. Tita apanha a sobra e passa a Bebeto, que lança. Edmar aproveita o cochilo de Toninho Carlos, toma a bola, invade a área, dribla Rodolfo Rodríguez e parte para o abraço: 3 a 0.

Atônito, o banco santista ensaia uma tímida reclamação de falta no lance, como se buscasse de qualquer maneira um consolo para a humilhação que começava a se desenhar. Enquanto isso, o Fla gira a bola, ensaia botar o Alvinegro na roda, e ainda leva perigo nos contragolpes: aos 44, Bebeto outra vez recebe de Tita e lança Edmar, mas desta vez o camisa 9 perde o ângulo do chute e bate por cima do gol.

O Santos volta ainda mais atordoado para a etapa final e agora também desmantelado taticamente após duas substituições de Del Vecchio: perdendo por 3 a 0, a equipe paulista tem em campo quatro zagueiros de origem e dois pontas sem nenhum atacante de área. Já o Fla volta com os mesmos time e estilo: toques curtos e contragolpes rápidos para se aproveitar do desespero do rival sempre que possível.

E o destempero emocional dos paulistas não tarda: aos 12 minutos, Dema acerta pontapé por trás em Tita. O árbitro não tem dúvidas: é vermelho. Além do volante, o Santos perde Clodoaldo, diretor de futebol, por ordenar a agressão. Na confusão, Bebeto ainda leva um soco do zagueiro Fernando, para a revolta dos jogadores rubro-negros, e deixa o campo com sangramento nos lábios, para dar lugar a Élder.

Com um a mais, o Flamengo encurrala o Santos na defesa e, trocando passes no campo de ataque, chega ao quarto gol aos 25. Tita inverte o jogo para Andrade na esquerda. Com o caminho livre, o volante carrega, passa por um marcador, tabela com Élder, entra na área e é calçado por trás por Márcio. Pênalti indiscutível, que Tita cobra forte, rasteiro, queimando grama. Rodolfo Rodríguez pula no canto certo, mas para uma bomba assim não há agilidade suficiente. Agora é goleada.

Depois da agressão a Bebeto, Fernando dá outra mostra do descontrole santista ao dar uma banda em Bigu no círculo central. Dois minutos depois, o Santos se perde definitivamente quando Toninho Carlos acerta um bico em Tita e também é expulso. Com dois jogadores a mais, quatro gols de vantagem no placar e contra um rival totalmente entregue, o Flamengo tratará de cozinhar o jogo até o fim, certo? Errado. Cláudio Garcia tira o volante Andrade e põe em campo o elétrico ponta-direita Lúcio.

O golpe derradeiro começa por aquele lado. Leandro desce e sofre falta perto da linha de fundo. João Paulo levanta na área em cobrança fechada, que obriga Márcio a cortar para escanteio. Lúcio vai para a cobrança pela esquerda, Júnior e Edmar fazem o corta-luz, atraindo as atenções da defesa santista, que deixa Tita livre para bater da marca do pênalti. Cinco a zero. A torcida – agora só há rubro-negros no estádio – canta o hino do clube, o time toca a bola, à espera do apito final que encerra uma atuação irretocável, uma goleada impiedosa, um massacre histórico em vermelho e preto. Naquela Sexta-Feira Santa, o Flamengo traçou uma bela peixada.

SANTOS 0 x 5 FLAMENGO
Taça Libertadores da América – primeira fase
Morumbi (São Paulo), 20 de abril de 1984
Público: 24.545 pessoas.
Árbitro: Carlos Sérgio Rosa Martins (RS).
Cartões amarelos: Ronaldo Marques e Dema (Santos); Andrade, Bigu e Edmar (Flamengo).
Expulsões: Dema aos 12 e Toninho Carlos aos 28 do 2º tempo (ambos do Santos).
Gols: Bebeto aos 13, Mozer aos 21, Edmar aos 40 do 1º tempo; Tita aos 26 (de pênalti) e aos 36 do 2º tempo.
Flamengo: Fillol – Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior – Andrade (Lúcio), Bigu e Tita – Bebeto (Élder), Edmar e João Paulo. Técnico: Cláudio Garcia.
Santos: Rodolfo Rodríguez – Davi, Márcio, Toninho Carlos e Paulo Róbson – Dema, Lino e Pita – Gersinho, Gérson (Camargo) e Ronaldo Marques (Fernando). Técnico: Del Vecchio (interino).

 

Imagens utilizadas no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.


 

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