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“Não existe justiça no futebol”, diz o ditado. Mas só uma palavra pode definir o gol de Lincoln na Arena: justo.

O Flamengo hoje é um time. Não apenas um apanhado de bons jogadores, mas um time de verdade, que sabe o que fazer com e sem a bola, que tem repertório, que tem um jeito de jogar. Ganhando ou perdendo, jogando bem ou não-tão-bem, o Flamengo não pratica mais o futebol aleatório.

Ainda falta aquele algo a mais. Aquele detalhe que de um time que vai na Vila e vence o Santos, que pega um São Paulo embalado em casa e sai com três pontos, que se classifica num mata-mata na marra. Ainda falta algo, é verdade, mas dominar o Grêmio no Sul não é para qualquer um.

Pro-fun-di-da-de

O primeiro tempo foi equilibrado, mas muito bom de assistir. Um equilíbrio em alto nível. E nesse nível de futebol, a vitória e a derrota são separadas por detalhes.

O Grêmio optou por uma pressão alta, dentro do nosso campo. Marcava a partir da intermediária de ataque e forçava o recuo para os zagueiros, iniciando depois uma pressão mais intensa na tentativa de forçar o chutão. O Flamengo manteve a calma e impôs seu jogo. Controlou a posse de bola, trocou passes e conseguiu ditar o ritmo. A bola, no entanto, voltava o tempo todo até o goleiro Diego Alves e o time tinha certa dificuldade de sair dali.

Há um motivo para isso. No futebol, assim como no futebol americano, rugby, xadrez e outros esportes de domínio territorial, quanto mais você atrai o adversário e espaça seus jogadores, maiores espaços você cria entre eles para sair jogando. Assim, quanto mais longe do gol adversário, mais fácil é tocar a bola. Pelo menos em teoria.

O problema é que o Flamengo recuava para atrair o Grêmio, mas não tinha profundidade lá na frente. Ou seja, não aumentava a distância entre o goleiro e o centro-avante. Permitia que a defesa adversária se adiantasse para acompanhar a pressão do ataque, jogando na linha central do campo. O Grêmio pressionava em bloco. Efetivamente, o Flamengo permitia que o Grêmio tivesse pressão e compactação ao mesmo tempo.

Ora, mas se há impedimento no futebol, como o ataque rubro-negro poderia ter mantido a defesa tricolor distante? Não é tão complicado quanto parece. Ao avançar a última linha, o Grêmio criava um bolsão gigantesco de espaço vazio nas costas dos zagueiros. Se Uribe, Everton Ribeiro e Marlos estivessem o tempo inteiro jogando no limite do impedimento, com seus corpos já voltados para frente preparando uma corrida, a zaga gremista teria que se preocupar com essas esticadas e não poderia subir tanto.

Mas, pelo contrário, Uribe jogou o tempo inteiro de costas buscando fazer a parede e os pontas jogavam recuados, alguns metros atrás da última linha dos gaúchos, mesmo quando o Flamengo tinha a bola. Sem profundidade pelo lado do Flamengo, o Grêmio adorou fazer pressão.

Sobrecarga

A vantagem do Grêmio foi construída em uma jogada de manual. É uma daquelas jogadas que se o seu time marca, você chora de emoção. Mas se o seu time leva, você não consegue se conformar com cada falha de cada jogador envolvido.

A verdade é que o gol veio de um plano. A ideia do Grêmio era sempre circular a bola pelo meio, atraindo Paquetá e Diego para longe das laterais, e depois virar o jogo rapidamente para um dos lados, com Maicon ou Luan encostando no ponta e no lateral. Assim, esperavam gerar um 3-contra-2, a famosa sobrecarga.

Quando Léo Moura recebe a bola pela direita no lance do gol, Cuellar e Rever já têm decisões difíceis para tomar. O colombiano não sabe se deve encostar em Maicon ou proteger a entrada da área (afinal, Paquetá e Diego estavam a dezenas de metros dali) e o capitão não sabe se fecha o miolo da área ou acompanha Ramiro, que passa entre ele e Renê. O drible infantil sofrido por Marlos apenas acentua o problema, já que Renê dá muito espaço na cobertura.

Um típico gol criado por sobrecarga. O Grêmio pisa com cinco jogadores na área (mais Maicon logo na entrada) e consegue passar pela defesa rubro-negra na marra.

Domínio total

Mas no segundo tempo tudo mudou. Ou melhor, a estratégia de Renato Gaúcho mudou. Em vez da pressão alta, um time esperando atrás. Em vez da sobrecarga, o contra-ataque veloz. Nada deu certo. O Flamengo cresceu e engoliu o Grêmio por 45 minutos.

O gol só saiu no final, mas foi merecido demais.

Porque ao tirar a dificuldade na saída de bola, permitiu que o Flamengo trabalhasse com tranquilidade a partir da intermediária de ataque. E essas condições são perfeitas para um time que é assim: coberturas bem feitas, pouca bola longa, muita movimentação, variação nas jogadas.

Durante toda a segunda etapa, Leo Duarte e Rever engoliram Jael (que também não dava profundidade) e Cuellar cobria os dois laterais ao mesmo tempo. Isso deu toda a tranquilidade do mundo para o Flamengo atacar.

E no ataque Diego, mesmo sem fazer grande partida, foi peça chave. Saía completamente do centro no início da jogada, encostava em uma linha lateral e assim abria um buraco para Paquetá e Everton Ribeiro explorarem. Só depois, num segundo momento, afunilava para tentar decidir. O gol sai exatamente assim, com o camisa 10 literalmente arrastando Cícero para fora da zona que permite a infiltração de Renê.

Conclusões

Um grande jogo de futebol. E num passado-não-tão-distante era só isso que pedíamos! O Flamengo tem cara de time. Podemos discordar de uma ou outra coisa, mas pelo menos há ali uma ideia clara para que possamos discordar.

Agosto será o mês decisivo. O mais importante dos últimos anos. Sábado não é dia de poupar. É hora daquele algo a mais.  Pode ser dia de mostrar que esse Flamengo vem para convencer, mas também para vencer.
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: divulgação

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